Recorde aqui o Portugal 1-1 RD Congo
Numa prova alargada, criticada precisamente por abrir a porta a seleções vistas como menos competitivas, os primeiros jogos deram uma resposta forte. Empate do Catar com a Suíça, Cabo Verde a travar Espanha, a RD Congo a retirar dois pontos a Portugal e o Haiti a discutir o jogo com a Escócia para lá daquilo que o resultado final mostra, são sinais de um futebol mais nivelado, mais preparado e menos obediente às hierarquias habituais.
Mas a jornada não viveu apenas de tropeções. Também houve equipas que deixaram água na boca: o México pela pressão e plasticidade tática, a Coreia pela forma como atacou um bloco baixo sem perder equilíbrio, a Noruega pela força vertical e pela ameaça constante, e a Colômbia por um futebol de passe, movimento e liberdade que fez lembrar os melhores dias de 2014.
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Entre confirmações, avisos e surpresas, a primeira jornada deixou uma certeza: este Mundial começou bem mais interessante do que muitos imaginavam.

Portugal: mais do que Ronaldo ou uma bola parada
Resumir o jogo de Portugal a um erro defensivo numa bola parada ou ao debate sobre Cristiano Ronaldo é redutor. O problema português foi mais profundo. Portugal fez um jogo pobre no que toca ao ataque ao adversário.
E até começou por fazer o mais difícil. Contra uma equipa cujo principal objetivo era evitar sofrer, marcar cedo deveria ter desbloqueado o jogo. Muitas vezes, esse é o momento mais complicado: encontrar o primeiro golo perante um bloco baixo, compacto e preparado para defender perto da sua área. Portugal conseguiu fazê-lo logo no início.
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Mas depois vieram os problemas.

A equipa tinha alguns movimentos padronizados. A entrada de Nuno Mendes no half-space, em contra-movimento ao apoio de Cristiano Ronaldo, foi uma das ideias visíveis. Havia intenções. Havia alguns padrões. Mas faltou capacidade para criar perigo de forma continuada.
Portugal apresentou demasiados jogadores fora da estrutura adversária. Em muitos momentos, havia dupla e até tripla largura dos dois lados, mas pouca presença entre linhas. E isso torna-se difícil de compreender quando se tem um meio-campo com Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes.
O problema não foi falta de qualidade no passe. Quando olhamos para a quantidade de passes para trás feitos pelo meio-campo ou pelos jogadores exteriores, é preciso ser frio na análise. Não é porque estes jogadores não saibam passar para a frente. É porque muitas vezes não tinham soluções para o fazer. Não havia quem recebesse nos espaços certos. Não havia quem se colocasse dentro da estrutura adversária. Não havia quem aparecesse entre linhas com capacidade para receber, enquadrar e acelerar.
O jogo pedia claramente um jogador como Trincão ou João Félix. Pedia criatividade. Pedia último passe. Pedia alguém capaz de receber por dentro, em espaço reduzido, e fazer a diferença onde o jogo estava realmente a ser decidido.

A entrada de Francisco Conceição entende-se. Frente a blocos compactos, um jogador forte em espaços curtos, capaz de eliminar adversários em poucos metros, pode ser muito útil. É uma solução coerente.
Já a entrada de Rafael Leão é mais difícil de compreender. Não havia espaço para explorar. As zonas que habitualmente ocupa já estavam preenchidas. O jogo não pedia profundidade em campo aberto; pedia criatividade interior. Pedia alguém capaz de aparecer entre linhas, receber sob pressão, combinar e encontrar o passe que desmonta.

Portugal precisava de jogadores nos espaços onde Vitinha e João Neves conseguem colocar a bola como poucos. Precisava de dar alvos interiores aos seus melhores passadores. Precisava de criar linhas de passe dentro do bloco, não apenas à volta dele.
O aviso para o próximo jogo
Portugal tem de dar uma resposta. E essa resposta será ainda mais importante porque o próximo adversário, o Uzbequistão, pode apresentar problemas semelhantes. Uma equipa compacta, agressiva, capaz de defender em 5-4-1 e sair rápido no contra-ataque. Ou seja, Portugal pode voltar a encontrar um jogo com pouco espaço, muitos jogadores adversários atrás da linha da bola e necessidade de paciência, criatividade e boa ocupação interior.
A solução não passa apenas por mexer nomes. Passa por mexer comportamentos. Portugal precisa de colocar jogadores entre linhas. Precisa de dar melhores referências interiores a Vitinha e João Neves. Precisa de juntar mais jogadores por dentro, sem perder equilíbrio para controlar as transições. E precisa, sobretudo, de perceber que contra blocos baixos não basta abrir o campo: é preciso entrar dentro do bloco.

A primeira jornada deixou muitos sinais positivos para o Mundial, mas deixou também um aviso claro para Portugal. Há talento. Há qualidade. Há jogadores capazes de decidir. Mas, perante equipas compactas e bem preparadas, o talento precisa de uma estrutura que o potencie.
Portugal tem obrigação de fazer mais. E, acima de tudo, tem obrigação de criar melhor.

Mundial-2026
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