Recorde as incidências da final do Mundial-2026
A minha jornada começou muito antes do apito inicial, precisamente a 29 de maio, quando aterrei nos Estados Unidos. A dimensão do desafio tornou-se evidente logo nas primeiras horas, quando me desloquei ao MetLife Stadium para analisar e compreender a complexa logística que envolveria a competição. Ali, perante a imensidão daquele recinto, ficou claro que esta não seria uma cobertura comum.
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O futebol já tinha conhecido sedes partilhadas em 2002, com o Campeonato do Mundo realizado na Coreia do Sul e no Japão. Contudo, aquilo a que assistimos em 2026 ultrapassou qualquer comparação anterior. Ao contrário do Catar, onde tudo ficava a poucos quilómetros de distância, este foi um Mundial de dimensão continental, marcado por exigências geográficas implacáveis.

Uma verdadeira maratona, que exigiu um enorme desgaste físico e mental de todos os envolvidos. Não foi um Mundial fácil. Muito pelo contrário. Em vários momentos, o cansaço acumulado acabou por falar mais alto.

Burocracia invisível e as aventuras de aeroporto
O grande vilão da cobertura não foram propriamente as distâncias, mas a burocracia morosa e imprevisível associada às deslocações. Apesar dos esforços do Governo norte-americano para agilizar os processos de imigração e embarque de jornalistas e adeptos, a rotina nos aeroportos transformou-se num verdadeiro teste à paciência.
Os atrasos inesperados e as alterações de última hora nos voos eram frequentes, deixando-nos completamente à mercê das companhias aéreas. Qualquer pequena mudança trazia consigo o risco de perder o jogo desse dia, precisamente aquele para o qual nos tínhamos preparado durante semanas.

Sobreviver a esta engrenagem exigiu uma enorme capacidade de adaptação. A rotina passou por chegar aos aeroportos com muitas horas de antecedência, cruzar os dedos e ficar dependente de fatores que nenhum manual de jornalismo ensina: a boa vontade dos funcionários das companhias aéreas e, acima de tudo, o lado humano.
Foi precisamente nos momentos de maior aperto que o verdadeiro espírito do Mundial se revelou, longe dos relvados. Perante ligações caóticas e situações de desespero, a salvação surgiu através da mais genuína empatia: adeptos que perceberam a aflição e chegaram mesmo a oferecer boleia entre aeroportos, para que eu não ficasse pelo caminho.

Sucesso de bilheteira e a ilusão das cadeiras vazias
Mas, se a estrada foi brutal para quem acompanhou a competição de perto, os números finais mostram que a engrenagem milionária da FIFA funcionou como um relógio. Antes do início do torneio, o ceticismo dominava o discurso. Dizia-se que o preço elevado dos bilhetes afastaria o público e deixaria as bancadas vazias. Nada disso se confirmou.
Este tornou-se, sem margem para discussão, o Campeonato do Mundo com maior assistência da história, traduzindo-se também num enorme sucesso financeiro. Ainda assim, o olhar atento de quem esteve na tribuna de imprensa permitia detetar alguns pormenores. A FIFA anunciava frequentemente lotações esgotadas com um entusiasmo que nem sempre correspondia por completo à realidade visível nas bancadas.

Aqui e ali, era possível encontrar pequenas manchas de cadeiras vazias. No entanto, em recintos gigantescos, concebidos para o futebol americano, essas falhas tornavam-se praticamente irrelevantes. Visual e comercialmente, a perceção foi de lotação máxima. O torneio avançou também impulsionado pelo aumento do número de seleções que, por consequência do maior volume de jogos, fez desta a edição com mais golos da história.
Organização deixou muito a desejar
Do ponto de vista organizativo, o Campeonato do Mundo ficou muito aquém da grandiosidade prometida. E esse terá sido um dos aspetos mais surpreendentes: ver um torneio disputado maioritariamente nos Estados Unidos, uma referência mundial na organização de grandes eventos, marcado por falhas que contrastaram com a reputação norte-americana. Nas conversas com jornalistas locais, o sentimento era praticamente unânime: a operação esteve longe dos padrões da NFL, apesar de os encontros se realizarem precisamente em estádios da liga.
Houve improvisos nas zonas de trabalho, ligações à internet instáveis e profissionais instalados em lugares destinados aos adeptos, sem condições adequadas para trabalhar e expostos a um sol abrasador. O protetor solar tornou-se, por isso, um elemento indispensável da cobertura.

No México, a abertura ficou marcada pelo caos e, não fosse a rede 5G das operadoras de telecomunicações, grande parte da imprensa teria enfrentado sérias dificuldades para trabalhar. No Canadá, a experiência foi mais organizada e fluida, embora um estádio com capacidade para 40 mil pessoas tivesse um número insuficiente de casas de banho. O resultado foi uma fila de mais de meia hora para utilizar as instalações sanitárias, algo inédito para mim numa cobertura desportiva.

O ponto máximo da desorganização, porém, aconteceu na final. Jornalistas, voluntários, funcionários e restantes profissionais envolvidos no encontro decisivo enfrentaram até cinco horas de espera para entrar no MetLife Stadium, devido ao rigoroso dispositivo de segurança montado pelo Serviço Secreto e pela TSA para a presença do Presidente Donald Trump.
Noutros Campeonatos do Mundo, chefes de Estado dos países anfitriões também marcaram presença nos jogos decisivos, incluindo Vladimir Putin, em 2018, sem que tivesse sido registada uma situação semelhante. A sensação que ficou foi a de que, dentro das quatro linhas, o Mundial proporcionou um espetáculo histórico. Nos bastidores, porém, a organização esteve longe do nível exigido por um evento desta dimensão.

O filtro alienante da bola e o fantasma do ICE
Viver o Campeonato do Mundo nos Estados Unidos foi assistir de perto a uma bolha sociopolítica fascinante. Em 2014, no Brasil, o lema "Não vai haver Mundial" ecoou até ao dia da abertura, mas desapareceu assim que a bola começou a rolar. Em 2026, o fenómeno foi ainda mais evidente. Enquanto a competição decorria, a geopolítica internacional fervia, com o Governo norte-americano a lançar ataques contra o Irão no mesmo período, mas o universo que consome futebol permaneceu num estado de quase total alienação.
Poucos pareciam verdadeiramente conscientes do que se passava politicamente fora daquele contexto. Dentro dos estádios, o ambiente era de festa, numa demonstração da capacidade quase anestésica que o desporto tem para empurrar a realidade para segundo plano. Essa tensão apenas se tornava mais visível quando entrava em cena a seleção iraniana, condicionada por uma logística apertada de entrada e saída imediata dos Estados Unidos.
Entre os iranianos residentes no país, havia também um misto de sentimentos. Para muitos, aquela seleção não representava por completo o país que conheciam nem a identidade com a qual se identificavam.

O mesmo aconteceu com o fantasma do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. Antes do Mundial, o discurso alarmista apontava para a possibilidade de os agentes de imigração montarem operações junto aos estádios, de modo a fiscalizar o enorme fluxo de imigrantes.
Na realidade quotidiana da competição, porém, o ICE foi praticamente invisível. Não houve operações nos estádios nem abordagens nas zonas destinadas aos adeptos. Embora a agência tenha mantido a sua atividade habitual nas ruas e nos bairros com forte presença imigrante, seguindo um calendário que já existia, o ambiente do torneio permaneceu protegido de qualquer interferência direta.
Ficou, assim, evidente a enorme distância entre o pânico antecipado e a realidade vivida. Ainda assim, como consequência desse receio, o impacto provocado pelas ausências já se tinha feito sentir.

O Mundial da exclusão e o espectro dos vistos
A ausência de tensões migratórias nas imediações dos estádios expôs outra realidade incómoda: o apagamento de determinadas culturas. Um dos aspetos mais lamentáveis e tristes deste Campeonato do Mundo foi a forte limitação da presença de adeptos africanos em território norte-americano.
Enquanto as ruas e as bancadas de Toronto, Vancouver, Cidade do México e Monterrey exibiam uma vibrante mistura de culturas, os estádios nos Estados Unidos ficaram marcados por barreiras diplomáticas praticamente intransponíveis.

A combinação entre critérios de imigração rigorosos, exigências financeiras elevadíssimas para a obtenção de vistos, que muitas vezes obrigavam os candidatos a gastar pequenas fortunas apenas para iniciar o processo, e restrições sanitárias severas associadas a surtos de doenças como o vírus Ébola reduziu drasticamente a presença desses adeptos.
Muitos africanos acabaram, assim, travados pela pesada máquina burocrática do Governo norte-americano, o que empobreceu a festa e retirou às bancadas parte da alegria, da cor e da identidade de uma massa adepta tradicionalmente tão vibrante.

Privatização do espetáculo: o futebol dos ricos
Este filtro diplomático caminhou lado a lado com uma elitização sem precedentes do torneio. A verdade, crua e simples, é que o Mundial de 2026 se transformou num evento feito por ricos e para ricos. A política de preços excessivos e os elevados valores cobrados pela FIFA pelos bilhetes fizeram do acesso aos estádios um luxo praticamente inacessível.
Nos Estados Unidos, a força da moeda e o poder de compra local ajudaram a atenuar o impacto. Muitos adeptos e turistas com maior capacidade financeira conseguiram fazer verdadeiras loucuras para marcar presença. Ainda assim, a receita recorde desta edição poderá transformar-se num problema para o futuro da modalidade. O risco é que a FIFA, entusiasmada com os milhares de milhões arrecadados, decida repetir o mesmo modelo em 2030.

O futebol atual caminha a passos largos para se afastar da população que verdadeiramente o vive e mais ama, deixando a paixão popular do lado de fora dos estádios.
Ao longo das deslocações entre as várias cidades-sede, conversei com muitos motoristas de plataformas de transporte, todos eles apaixonados por futebol. Entre a admiração pela credencial e pelo facto de estarmos ali a cobrir o Mundial, muitos resumiam a escolha que tiveram de fazer: trabalhar para sustentar a família ou pagar um bilhete dispendioso para assistir a um jogo. Com as contas em cima da mesa, a resposta era simples.

A bola rolou e o campo ditou as regras
Mas, se o ambiente fora das quatro linhas gerou exclusão, o veredicto estritamente desportivo foi extraordinário. O receio de que o alargamento para 48 seleções diluísse a qualidade técnica e resultasse em jogos pouco atrativos acabou por não se confirmar.
Até os encontros teoricamente menos apelativos ganharam contornos dramáticos, impulsionados pela excelente novidade dos dezasseis avos de final, uma fase a eliminar anterior aos oitavos de final que trouxe uma enorme intensidade ao torneio.

No final, a justiça do campo prevaleceu e quatro das maiores potências do futebol mundial chegaram às meias-finais. Foi pena que o Brasil não estivesse entre elas. A eliminação precoce nos oitavos de final foi a crónica de uma tragédia anunciada: uma equipa mal construída, resultado de uma convocatória que privou a seleção de um verdadeiro número 10, insistiu em improvisações nas laterais e ignorou jogadores capazes de ditar o ritmo no meio-campo.
O Brasil pagou o preço de uma geração complexa e de várias escolhas erradas, deixando o futuro da canarinha envolto numa profunda incerteza.
Em contrapartida, o nível ofensivo global foi elevadíssimo. As grandes estrelas, como Kylian Mbappé, Erling Haaland, Harry Kane, Lionel Messi e até Vinícius Júnior, assumiram responsabilidades e justificaram o espetáculo. Foi um Mundial decidido sobretudo do meio-campo para a frente, coroado pelo duelo definitivo na final: a genialidade individual e o peso histórico da Argentina de Messi frente ao irrepreensível jogo coletivo de Espanha.

A inovação dos quatro períodos e os limites da tecnologia
Este Campeonato do Mundo funcionou também como um grande laboratório de regras. A introdução das pausas para hidratação em situações de calor extremo acabou por produzir um efeito tático fascinante. Embora as vaias dos adeptos ecoassem pelos estádios perante o evidente aproveitamento comercial das interrupções, sobretudo nos dias menos quentes, o futebol acabou por se reorganizar, na prática, como um desporto dividido em quatro períodos.

Como espectador e analista, vejo esta mudança com bons olhos. O futebol é um desporto que exige tempo. Muitas vezes, o treinador não consegue reorganizar o posicionamento da equipa apenas através de indicações dadas a partir da zona técnica. Esta pausa, semelhante ao que já acontece no futsal, no basquetebol e no futebol americano, permite ao técnico exercer plenamente a sua influência e alterar estrategicamente o rumo de um jogo.
Se as ligas europeias poderão olhar para a novidade com desconfiança, no Brasil o formato deverá ser facilmente aceite, sob a habitual justificação do clima tropical e do histórico recente de interrupções por razões médicas nas competições nacionais.
Se as pausas táticas e o fora de jogo semiautomático mereceram avaliações positivas e contribuíram para redimensionar o jogo, a FIFA ultrapassou os limites do bom senso com o sistema de rastreamento através de um microchip colocado na bola. A anulação do golo da Croácia frente a Portugal, sustentada na deteção de ondas sonoras mínimas, pareceu-me confusa, tal como a explicação de que a bola não tocou na spidercam no golo de Inglaterra diante da Noruega.
Este nível de intervenção tecnológica desumaniza o desporto e esvazia a autoridade do árbitro dentro de campo.
Raio-X das Sedes: Orgulho, encantamento e distanciamento
Ao analisar o impacto cultural nos três países anfitriões, as máscaras caíram. O México provou que vive o futebol de forma visceral. O orgulho da população por receber o torneio pela terceira vez protegeu o evento até dos graves problemas sociais e políticos que o país enfrenta, como a crise dos desaparecidos e os protestos populares que ameaçaram marcar os primeiros dias da competição. O povo mexicano jogou verdadeiramente ao lado da sua seleção.

O país tem uma paixão e uma cultura de bancada tão fortes que teria condições para organizar sozinho este Campeonato do Mundo de 48 seleções. Os sombreiros lançados ao ar na cerimónia de abertura criaram um impacto imediato e despertaram inevitáveis memórias das edições de 1970 e 1986.
No Canadá, o cenário foi o oposto. Houve um breve momento de entusiasmo e euforia popular, alimentado pela goleada histórica por 6-0 frente ao Catar na fase de grupos. O país confirmou a reputação de excelente anfitrião de grandes eventos, mas o envolvimento ficou por aí.
O torneio não alterou a essência da sociedade canadiana. O futebol continua a dar os primeiros passos no país e está ainda longe de figurar entre as principais prioridades do panorama desportivo nacional.

Veredito americano
Mas a resposta mais emblemática sobre o verdadeiro espaço do futebol no mercado norte-americano surgiu nos Estados Unidos. É preciso reconhecer: os norte-americanos foram anfitriões irrepreensíveis. Quem antecipava um ambiente hostil ou xenófobo acabou desmentido pela realidade.
A população abriu-se ao mundo, recebeu os turistas com enorme cordialidade e chegou mesmo a ironizar os velhos fantasmas políticos do país em conversas descontraídas com estrangeiros nas ruas. A Times Square foi tomada por festas ruidosas e coloridas, protagonizadas por adeptos de todos os cantos do mundo.

Contudo, não se confirmou a ideia de que este Campeonato do Mundo transformaria os Estados Unidos no país do futebol. Em 1994, procurava-se popularizar o "beautiful game". Em 2026, a modalidade já é amplamente conhecida, mas continua longe de ser a preferida do público norte-americano. Num país profundamente multicultural e marcado por comunidades de diferentes origens, o futebol continuará sobretudo a ser o desporto que mobiliza e emociona os imigrantes.
O retrato mais claro desta relação surgiu em paralelo com o apito inicial da grande final. Enquanto Espanha e Argentina lutavam pelo título mundial, Nova Iorque seguia também a sua rotina desportiva, com milhares de adeptos a caminho do clássico da Major League Baseball entre os New York Yankees e Los Angeles Dodgers. O Yankee Stadium encheu sem que o futebol parecesse representar qualquer ameaça ou concorrência relevante.
Nos Estados Unidos, cada modalidade preserva o seu espaço. O público norte-americano acompanhou o Mundial com a curiosidade de quem assiste a um grande espetáculo de entretenimento, reconhecendo a dimensão de figuras como Messi ou Cristiano Ronaldo. Mas a profundidade da paixão, aquela que na América do Sul se confunde com identidade e pertença, continua reservada para os pavilhões e para outros campos.

