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Espanha tentou Lionel Messi, Argentina conheceu-o através de uma... cassete VHS

Lionel Messi podia ser... internacional espanhol
Lionel Messi podia ser... internacional espanholJosé Jordan / AFP / AFP / Profimedia

Parece incrível, mas houve uma altura em que Lionel Messi, hoje um verdadeiro ídolo argentino, era totalmente desconhecido no seu país natal. Aos 13 anos, o miúdo prodígio mudou-se com o pai, Jorge, da sua cidade natal, Rosário, para Barcelona, e desapareceu completamente do radar. Mas não para os espanhóis, que insistiram para que o prodígio de La Masia os representasse. Mergulhe com o Flashscore nesta história esquecida, que volta a ganhar vida graças à final do Campeonato do Mundo de Futebol deste domingo, entre a Argentina e a Espanha.

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Afinal, poderia ter acontecido que, esta noite, a equipa da Espanha entrasse em campo em Nova Jérsia com um jovem pequeno, com covinhas nas bochechas e o número 10 nas costas. Messi, por parte de pai — que tem raízes espanholas e italianas —, tem direito a ambos os passaportes; a árvore genealógica da sua mãe, Celia Cuccittini, também remonta à Itália. Teoricamente, tem a nacionalidade dos três países. No entanto, só pode jogar futebol a nível sénior por um deles. "Vem para o nosso lado!", insistiam os espanhóis com o rapaz de cabelo comprido e tímido desde os seus 16 anos.

O antigo treinador da seleção argentina sub-20, José Pékerman, sob cuja orientação Messi se estreou na seleção principal em 2006, revelou no ano passado, numa entrevista ao jornal desportivo Diario Olé, que os espanhóis estiveram muito perto de conseguir levar Messi. 

"Todos os documentos necessários já estavam tratados e preparados. O Messi tinha 18 anos, queriam levá-lo ao Campeonato do Mundo Sub-20. Naquela altura, as regras da FIFA ainda eram tais que, se um jogador jogasse na seleção juvenil de um país, já não poderia representar outro", explicou Pékerman.

Por isso, começou a operação argentina; a situação era grave. Diz-se que os responsáveis envolvidos temiam, todos os dias, perder irremediavelmente a sua joia. Já um ano antes, os espanhóis estavam a preparar-lhe um lugar na sua seleção para o Mundial Sub-17. Entretanto, no seu país natal, o treinador desta categoria etária, Hugo Tocalli, durante muito tempo nem sequer sabia da sua existência. Por ironia do destino, os dois países defrontaram-se nas meias-finais do campeonato e a Roja, liderada por Cesc Fàbregas, então companheiro de equipa de Messi nas camadas jovens do Barcelona, venceu por 3-2.

No dia seguinte, num hotel em Helsínquia, onde ambas as equipas estavam hospedadas, Tocalli encontrou-se com o cozinheiro da delegação espanhola. 

"Se tivessem aquele rapaz que joga no Barça, estariam a comemorar o ouro", ouviu o treinador argentino. "Está a falar do Messi?", retorquiu o treinador. Essa resposta deixou o cozinheiro de boca aberta. "O quê? Conhecem-no e não o recrutaram?", perguntou, sem compreender.

Na verdade, Tocalli só soube do jovem prodígio tarde demais. A cassete de vídeo que o pai de Lionel, Jorge, gravou, editou e entregou ao primeiro agente do jovem, só foi vista pelo treinador apenas 10 dias antes da partida para o campeonato, quando a convocatória já estava definida. E não queria riscar ninguém da lista. Quando o então treinador da seleção principal, Marcelo Bielsa, viu a cassete pela primeira vez, disse ao seu assistente, com ar irritado: "Porque é que me estás a mostrar isto em câmara rápida? Põe a passar normalmente." Não estava acelerado… Bielsa não compreendia: "Este rapaz é fenomenal!"

Como Maradona

Também Pékerman percebeu que estava perante um jogador extraordinário, que lhe fazia lembrar Maradona. 

"Não podia estar enganado, isto era uma bênção para o futebol argentino e para o seu futuro, um novo fenómeno. Tínhamos de nos apressar", contou. Mas as semanas passavam e, durante muito tempo, nada acontecia. Entretanto, Tocalli passou a integrar a seleção sub-20. E, um mês antes do torneio, já tinha a convocatória para o Campeonato do Mundo garantida.

Mais uma vez, sem Messi. "Disse-lhe que não precisava que ele jogasse enquanto não fosse absolutamente necessário. Que o colocasse num jogo amigável qualquer, assinasse a ata do jogo e a enviasse à FIFA. E os espanhóis ficariam para sempre fora do jogo", recordou Pékerman. 

Entretanto, Omar Souto, colaborador de longa data da secção da seleção argentina, realizou um trabalho minucioso. No início da era dos telemóveis, recebeu na secretária a lista telefónica dos habitantes de Rosário, sentou-se no escritório e foi ligando para todos os Messi da lista, um a um, até chegar à avó de Leo. Depois, ligou para o tio e, por fim, conseguiu o número do pai, Jorge. "Posso falar com o Leonardo?", perguntou ao telefone. 

"É Lionel. Bem, finalmente convidaram-no! O meu filho só quer representar a Argentina", ouviu do outro lado da linha.

Estreia contra o Paraguai

E daí que, depois, a federação tenha enviado a Barcelona um pedido de liberação de Lionel Messi… O jogo de preparação, organizado apenas para regularizar a situação administrativa de Messi, realizou-se a 29 de junho de 2004, e os anfitriões golearam o Paraguai por 8-0. E o protagonista do dia substituiu Ezequiel Lavezzi ao intervalo, deu a assistência para o quinto golo dos vencedores, marcou o sétimo e ficou para sempre ligado à camisola às riscas azuis e brancas.

Quando, um ano mais tarde, obteve o passaporte espanhol, tratou-se apenas de uma formalidade burocrática para facilitar a sua integração no Barcelona. Inicialmente, era considerado um jogador assimilado da União Europeia, uma vez que se encontrava no país desde os 13 anos. No entanto, houve quem contestasse esse estatuto. 

E, dado que na LaLiga vigorava a regra de que apenas três estrangeiros de fora da UE podiam jogar, e o Barcelona contava na altura com o brasileiro Ronaldinho, o camaronês Eto’o e o mexicano Rafa Márquez, não restava lugar para o jovem talento de 18 anos. Por isso, Messi apresentou um pedido de passaporte para acalmar as controvérsias.

Passou 21 longos anos da sua vida em Espanha, mais de metade. Enquanto ainda jovem via a Roja conquistar um troféu atrás do outro, teve de esperar até 2021, aos 34 anos, para conquistar o seu primeiro com a Argentina. Cinco épocas depois de ter abandonado a seleção nacional, devido às críticas insuportáveis da comunicação social e dos adeptos, por, embora brilhasse no Barcelona, não conseguir garantir os sucessos almejados à Argentina. 

Certa vez, um amigo disse-lhe: "Imagina que na altura tivesses aceitado a proposta da Espanha, já serias campeão do mundo!" Mas, segundo as suas próprias palavras, Messi não se sentiria assim. Alegadamente, isso nunca lhe passou pela cabeça. Ele queria viver aqueles momentos inebriantes com a camisola da Albiceleste. Esta noite, poderá conseguir isso pela segunda vez em quatro anos. À custa do país onde cresceu futebolisticamente.

Mundial-2026

O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.

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