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- Os EUA vão coorganizar o Mundial-2026. Qual seria uma meta realista mas ambiciosa para o sucesso? Quartos, meias-finais, a final?
Acho que os quartos de final seriam o primeiro objetivo. Mas quando se chega aos Mundiais, as melhores equipas evoluem à medida que o torneio avança. Ganha-se embalo e, por vezes, é assim que acontecem coisas especiais. Pela minha experiência, não definimos como meta os quartos ou as meias-finais. O primeiro objetivo era ultrapassar a fase de grupos. Isso será diferente neste Mundial, com 48 equipas, em que oito terceiros classificados passam. Mas, uma vez na fase a eliminar, está-se preparado. Esta equipa dos EUA tem certamente potencial real e a expectativa de passar o grupo. Depois disso, vê-se como correm os emparelhamentos. Mas todos temos esperança.
- Qual é o principal fator que historicamente impediu os EUA de vencerem seleções de topo nas fases a eliminar? Tática ou mentalidade?
Só posso falar da vez em que lá estive no Mundial. Ganhámos o grupo, estávamos entusiasmados e motivados, e depois da Taça das Confederações no ano anterior, acreditávamos que estávamos prontos para ir longe. Mas nos oitavos de final contra o Gana, criámos grandes oportunidades – é um jogo que ainda sentimos que devíamos ter ganho; quando foi para prolongamento, encontrámo-nos em desvantagem e não conseguimos voltar a recuperar. Não acho que haja um único fator. Trata-se de ter confiança no momento e, por vezes, de as coisas correrem a nosso favor. Mas, acima de tudo, é o trabalho feito ao longo de todo o ciclo, construir uma equipa, criar liderança, estabelecer uma identidade de jogo e depois ir jogo a jogo quando se chega lá.
- Menciona esse jogo com o Gana em 2010. Se pudesse jogá-lo novamente, o que mudaria?
Gostaríamos muito de o jogar outra vez. Entrámos com uma boa mentalidade, mas por duas vezes estivemos a jogar em desvantagem. Começámos bem o jogo, depois cometemos um erro e ficámos a perder por 1-0. Lutámos muito para empatar 1-1 e tivemos oportunidades no tempo regulamentar para vencer. Estávamos confiantes ao entrar no prolongamento, mas depois, numa jogada estranha, o Asamoah Gyan aproveitou e voltámos a ficar atrás. À medida que insistíamos, o tempo esgotou-se. Não mudaria o panorama geral, mas há momentos ao longo do jogo em que, se geríssemos melhor algumas jogadas, aproveitássemos as nossas oportunidades, o desfecho poderia ter sido diferente.
- Qual é a vantagem mais subestimada de ser o país anfitrião? E existe algum risco?
É uma boa pergunta. Há pressão, mas também um apoio incrível e um sentimento especial. Para os jogadores, a oportunidade de disputar um Mundial no seu próprio país é algo extraordinário, e acredito que o Pochettino vai garantir que todos sintam isso. Quando se ouve certos jogadores falar em entrevistas sobre esta oportunidade, percebe-se que significa algo. Acho que pode mesmo jogar a favor da equipa dos EUA.
- Mauricio Pochettino foi nomeado selecionador dos EUA. O que poderá realisticamente transformar nos primeiros seis a doze meses, tendo em conta o tempo limitado juntos?
O tempo de treino é limitado, e falo muitas vezes da importância de um ciclo completo de quatro anos. Os jogos de qualifying endurecem uma equipa e, no meu tempo, não havia Liga das Nações, por isso podíamos marcar grandes amigáveis contra equipas de topo. A Taça das Confederações, no ano anterior ao Mundial na África do Sul, contra a Itália, o Brasil e o Egito, deu-nos uma verdadeira noção do que aí vinha. Acho que todos os selecionadores tentam estabelecer uma identidade clara e padrões elevados. Visto de fora, parece-me evidente que a sua principal mensagem é: quando se vem jogar pela seleção, é maior do que todos nós. É sobre o grupo. Esse é um excelente ponto de partida.
- Se o aconselhasse, construiria a equipa em torno do sistema ou dos três ou quatro melhores jogadores?
Como selecionador, começa-se sempre por perceber o talento, os pontos fortes, as personalidades; é assim que se constrói a equipa. Não posso falar pelo Pochettino, mas acredito firmemente que se deve maximizar os jogadores que se tem, conhecê-los, pôr toda a gente a remar para o mesmo lado. Ainda não vimos o grupo completo vezes suficientes sob o seu comando, por isso ainda há dúvidas. Mas os próximos amigáveis vão ajudar, e depois vamos aprender muito mais quando virmos como será a sua convocatória final."
- Christian Pulisic é claramente o homem-chave. Como tirar o melhor dele e qual é o seu papel como líder?
Tem razão, ele é muito importante, talvez o mais importante. Tem jogado consistentemente ao mais alto nível, e a sua criatividade, inteligência, o seu tempo de entrada na área, são todas qualidades de que a equipa dos EUA precisa de tirar partido. Em termos de sistema, o Pulisic precisa de liberdade para atuar tanto nas alas como por dentro. Continuo a gostar de o ver a entrar na área nos momentos certos, porque é capaz de marcar golos, como vimos no AC Milan. Fora de campo, sinto que tem de haver um grupo de líderes, não apenas um. Foi assim nas nossas equipas. Tínhamos o Carlos Bocanegra como capitão, mas a sua relação com o Steve Cherundolo, Landon Donovan, Clint Dempsey, Tim Howard, a liderança vinha do grupo. Vejo esta equipa dos EUA de forma semelhante. O Weston McKennie é um excelente exemplo. Teve um ano fantástico na Juventus, tem personalidade, a sua atitude contagia. O Pochettino vai perceber as dinâmicas e encontrar forma de juntar um grupo de líderes para definir a fasquia para todos os outros."

- Como se protege um jogador como o Pulisic de ser sobrecarregado?
O treinador tem de perceber com o grupo o que é necessário quando se entra em campo e, no fundo, está sempre a pensar no que é preciso nos jogos mais importantes. Com os EUA, no meu tempo, tínhamos a noção clara de que tínhamos de trabalhar muito como equipa, trabalhar uns para os outros, encontrar formas de ser difíceis de defrontar. E para isso, todos têm de fazer parte. Não é como na Argentina, em que todos os jogadores sabem que têm de trabalhar para que o (Lionel) Messi possa decidir nos momentos especiais. Mas achei notável o que o (Lionel) Scaloni fez com a Argentina no último Mundial, a sua compreensão da identidade, das relações em campo. Percebia-se que toda a equipa estava ali para ganhar um Mundial para a Argentina e, de certa forma, para o Messi."
- Qual foi o maior impacto do Leo Messi na MLS?
Tem sido incrível. Para quem acompanha o futebol mundial, o Messi atua num patamar completamente diferente. Para as pessoas nos Estados Unidos vê-lo de perto, jogo após jogo, no estádio e na televisão, e para todo o mundo perguntar o que fez o Messi este fim de semana, isso traz enorme atenção à liga. Mas do ponto de vista puramente futebolístico, o Messi é um génio. Mesmo com a idade, a sua capacidade de reconhecer a vantagem num momento, o seu sentido de espaço e tempo, seja num passe ou numa finalização, é extraordinária. Deve-se aproveitar cada segundo, porque um dia vai acabar. É o melhor jogador de sempre, e tem sido um privilégio ver este capítulo da sua carreira em Miami."
- Por fim, o Mundial de 2026 vai acelerar ainda mais o crescimento do futebol nos EUA?
Sim. Vejo muitos aspetos positivos. O Mundial dá-nos a oportunidade de mostrar ao mundo como o desporto está a evoluir aqui. Mas, mais importante ainda, vejo as academias a fazer um bom trabalho e mais jovens a ter oportunidades tanto na MLS como no estrangeiro. O desporto está a avançar, e espero que o Mundial ajude esse processo para todos."
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 será realizado de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio contará com 48 seleções nacionais e será disputado em 16 estádios modernos.
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