Exclusivo com Manolo: "Das quatro seleções, Espanha é a que mais joga como equipa"

Manolo Sánchez Delgado
Manolo Sánchez DelgadoLeyendas España/Flashscore

Manolo Sánchez Delgado (Cáceres, 1965) foi internacional por Espanha em 28 ocasiões e marcou nove golos. Participou no Mundial de Itália 1990 sob o comando de Luis Suárez. A nível de clubes foi Pichichi pelo Atlético de Madrid na época 1991/1992. Além disso, também jogou no Cacereño, no Murcia, no Sabadell e no Mérida.

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Numa entrevista exclusiva ao Flashscore, recorda o seu percurso pela seleção espanhola e analisa o França-Espanha das meias-finais do Mundial, que se disputa esta noite.

- A que se dedica atualmente Manolo Sánchez Delgado?

- Desde 2010 que assumo a direção desportiva das escolas de formação e aperfeiçoamento do Atlético de Madrid. Ou seja, trabalho com os miúdos, com a base, a academia. E estou encantado. É uma profissão que adoro, sempre ligada ao futebol.

- Sempre teve o bichinho de continuar ligado ao futebol e, além disso, ao Atleti, que é a equipa onde triunfou.

- Sim, sem dúvida. O Atleti deu-me a oportunidade de ser realmente jogador e de jogar num grande clube. Apostou em mim e passei por várias, várias etapas. Como jogador durante sete anos, depois na direção desportiva da equipa principal em 2000-2001. E agora, como disse, a dirigir a escola de formação da academia.

- Vamos falar um pouco da sua passagem pela seleção espanhola. O que significou para si disputar um Mundial? Agora que estamos em plena disputa do de 2026 na América do Norte, esteve presente no de Itália 90, que para quem nasceu nos anos 80 ficou um pouco mitificado com o "Notti magiche" de Edoardo Bennato e Gianna Nannini, o Mundial de Maradona, de Brehme, e em Espanha, uma seleção que chegou com Luis Suárez no banco, onde estava o senhor e também, entre outros, Míchel, Zubizarreta ou Julio Salinas, além de um jovíssimo Hierro que não chegou a jogar. Que recordações tem desse Mundial?

- A verdade é que já passaram muitos anos, 36, desse Mundial de 90 em Itália. Chegar à seleção é o máximo a que pode aspirar um jogador. Primeiro, jogar numa grande equipa. Eu consegui. E depois, a seleção, que é o topo, não é? Pelo prestígio, pelas recordações, por fazer parte da história do futebol espanhol. Relativamente ao Mundial que me perguntas, fizemos uma fase de qualificação brilhante com o Luis Suárez no banco. Ganhámos praticamente todos os jogos, qualificámo-nos para esse Mundial e chegámos com imensa ilusão. Lembro-me de estar entre os eleitos do futebol espanhol daquela época, daquela geração dos anos 90, em que a base da seleção era a Quinta del Buitre. Foram praticamente todos os elementos que estavam num grande momento de forma. Depois, juntamente com jogadores, evidentemente, de outras equipas, do Barcelona, da Real, do Sevilha. Eu era o único elemento, o único jogador do Atlético de Madrid nessa seleção, nesse Mundial. E recordo-o, embora o resultado não tenha sido o esperado, com muita felicidade e orgulho por ter disputado esse Mundial de 1990.

Manolo Sánchez com Pedro Rocha
Manolo Sánchez com Pedro RochaLeyendas España

"Em Itália'90 sentiu-se tensão após o empate com o Uruguai"

- Nesse Mundial, no que diz respeito a Espanha, ficou para a história o hat-trick de Míchel contra a Coreia do Sul e aquele "eu mereço". Havia alguma tensão na concentração nesse momento?

- Sim, lembro-me que não começámos bem. O primeiro jogo foi contra o Uruguai de Francescoli, de Rubén Sosa, era uma seleção muito forte. Não começámos bem, empatámos e conseguimos um ponto. Logicamente, depois reagimos nos jogos seguintes, mas aí sentiu-se bastante tensão, em todo o ambiente, nos meios de comunicação, digamos que foi difícil continuar. Mas era uma equipa com muita mentalidade e muita personalidade. Ganhámos o segundo jogo, como disseste, à Coreia com os três golos do Míchel, o seguinte à Bélgica, 3-1 em Verona. E aí, passámos essa primeira fase de grupos e chegámos aos oitavos de final. Calhou-nos a antiga Jugoslávia e, no melhor jogo, penso que fizemos uma grande partida no prolongamento, perdemos. Fomos eliminados por um golo de Stojković, um excelente jogador jugoslavo, de livre.

- A Espanha chegou a Itália 1990 depois de realizar um grande Mundial no México 1986, com aqueles quatro golos de Butragueño à Dinamarca em Querétaro e a eliminação nos quartos de final frente à Bélgica nos penáltis, da qual agora a seleção conseguiu vingar-se em 2026. Uma equipa que, como referiu antes, vinha com a Quinta del Buitre como bandeira. Havia muita qualidade nessa época, mas aparecia sempre a barreira dos quartos, neste caso dos oitavos, com um pouco de azar que impedia que Espanha triunfasse quando havia potencial para isso.

- Sim, sim, como disseste, Espanha sempre teve grandes seleções tanto em Europeus como em Mundiais. E nesse Mundial tínhamos uma grande seleção, uma magnífica seleção. E foi uma pena, seguimos esse destino, que não quis que avançássemos mais. Em Itália 1990, no jogo com mais ocasiões, não foi possível e tivemos de regressar a casa. Felizmente, todo esse fado de que Espanha perdia sempre nos oitavos ou nos quartos desapareceu com a nova geração, em 2008, 2010 e 2012, com dois Europeus e o Mundial da África do Sul. E agora, claro, as expectativas e a ilusão são muito grandes para o que temos no presente.

- Os seus números como goleador por Espanha são extraordinários. Nove golos em 28 jogos pela seleção.

- Sim, correu-me bem nesses quatro anos em que estive na seleção, de 1988 a 1992. Fui convocado para estes 28 jogos, entre oficiais e amigáveis. Tive três selecionadores, que foram o Luis Suárez, que apostou em mim no início, depois o Vicente Miera e o Javier Clemente. E sim, correu-me muito bem. Na frente fazia dupla com o Emilio Butragueño, também com o Julio Salinas, com o Bakero, com o Carlos. Correu-me bem. Como disseste, são números importantes: 28 jogos, nove golos.

- Focando-nos no presente, dá a sensação de que Espanha neste Mundial está a crescer de jogo para jogo. Talvez se tenham exagerado as críticas com esse empate frente a Cabo Verde, depois venceu a Arábia Saudita, que já era o esperado. Houve um jogo duro contra o Uruguai, talvez parecido ao que jogaram em 90. E depois essas eliminatórias com a Áustria e já mais equilibradas frente a Portugal e recentemente com a Bélgica. Que balanço faz destes jogos?

- O balanço é muito positivo. Evidentemente, chegar já às meias-finais é um sucesso absoluto da seleção. Como disseste, o primeiro jogo foi difícil. Podíamos ter ganho perfeitamente, mas não tivemos eficácia. E depois, houve uma grande regularidade, sobretudo a nível defensivo, não sofrer golos, não conceder ocasiões aos adversários. E, também, ser eficaz. Ganhar um Mundial ou estar num Mundial não é nada fácil. As seleções têm a sua força, mas Espanha foi, como disseste, de menos a mais. Estamos num grande momento. Sou muito otimista para a meia-final desta noite e para o futuro que nos espera. E vamos ver se continuamos a manter esse nível de concentração, de solidez defensiva, de jogo combinado, que nos está a dar muito resultado. Talvez o talento que existe em muitos jogadores ainda não tenha aparecido, mas fico com o jogo coletivo, combinado da seleção espanhola, o jogo interior, para poder vencer os adversários.

- Acha que o meio-campo pode ser decisivo? Está o Rodri, que está num grande momento. Está o Fabián, que não jogou muito, mas já demonstrou o seu valor. Está o Pedri, que embora não esteja no seu melhor momento, pode sempre acrescentar. Está o Merino, que sempre que aparece marca. Vê o meio-campo de Espanha com alguma superioridade sobre o francês?

- Sim, realmente temos um meio-campo muito forte, maravilhoso em todos os aspetos, a nível tático, de qualidade, de pressão. Como disseste, estes quatro jogadores marcam um pouco o ritmo ali no meio-campo. O Pedri de certeza que vai fazer um bom jogo. O Pedri é um jogador muito importante dentro da seleção. O Rodri atingiu a sua melhor forma nestes últimos jogos. E como disse antes, penso que a chave é o grupo. Estão todos juntos, muito unidos e sabem o que querem. É uma seleção com muita energia em todos os jogadores e com muitos argumentos e alternativas. Por isso, estou muito confiante para o que aí vem.

Manolo Sánchez num evento em Cáceres antes do jogo contra a ELA das Leyendas España
Manolo Sánchez num evento em Cáceres antes do jogo contra a ELA das Leyendas EspañaLeyendas España

"É preciso reconhecer o trabalho de De la Fuente, criou um elo importante"

- É difícil comparar seleções, especialmente se o fizermos com o que aconteceu na era dourada, 2008, 2010, 2012. Pode ser que nesta equipa atual haja a mesma qualidade mas menos marketing? Falávamos de Rodri e Fabián, que são jogadores que ganharam uma e duas vezes a Champions respetivamente e, no caso do madrileno, também uma Bola de Ouro. Na defesa, como referiu, Laporte e Cubarsí, talvez com menos nome do que os que havia em 2010, mas estão a apresentar um rendimento altíssimo. Há poucos anos dizia-se que havia jogadores que não seriam reconhecidos na Gran Vía, algo que não creio que seja o caso atualmente. E a verdade é que o rendimento não podia ser melhor. Com o Euro 2024 e o título e o segundo lugar nas duas últimas Ligas das Nações.

- Sim, sim, sem dúvida. Somos os atuais campeões da Europa e temos uma grande seleção. Não creio que seja um problema de não conhecerem os jogadores, de terem mais ou menos marketing ou de serem mais ou menos conhecidos. É um pouco semelhante àquela geração que referiste de 2008, 2010, 2012. Jogadores com uma qualidade e talento incríveis, todos muito inteligentes dentro de campo. E sobretudo, quero dar um reconhecimento ao selecionador. Um homem dialogante, pacífico, que os conhece desde as camadas jovens da seleção. Isso ajuda muito, não é? Existe aí um elo muito importante. E num campeonato curto, quando há união, quando não há divisões, quando não há problemas, os resultados aparecem.

- Como está a ver o Pedro Porro? Como lateral direito está a fazer um grande Mundial, até já marcou e parece que conquistou a titularidade em detrimento de outro grande jogador da sua equipa como o Marcos Llorente. E, como extremenho, o que acha de haver um jogador da terra a triunfar na seleção em pleno Mundial?

- Olhe, muito contente pelo Pedro Porro. Conheço-o, é conterrâneo, extremenho de origem e além disso nunca renega e tem sempre a sua Extremadura na cabeça. E vejo-o muito bem em todos os aspetos, tanto defensivamente como, ainda melhor, ofensivamente. Está a subir muito, a cruzar muito para trás, está a ser muito profundo e a contribuir com esses passes atrasados. Está a entender-se muito bem com o Lamine Yamal, por esse lado direito, e realmente está a fazer um Mundial sensacional. O Marcos Llorente também podia fazer o mesmo. O selecionador é quem decide, mas penso que o lado direito está bem coberto.

- Como avançado, como está a ver o Oyarzábal? Tem números espetaculares pela seleção. Além disso, também está o Ferran Torres, que tem o golo no sangue, embora talvez ainda não tenha conseguido ultrapassar essa má fase. Como vê o ataque de Espanha em comparação com o potencial ofensivo da França, que terá de ser travado pelo trabalho da defesa, como já falámos, e pelo do meio-campo?

- Penso que temos uma equipa ofensiva muito forte, com muitas garantias de golo. Para além dos que já referiste, Ferran, Oyarzábal, que penso que estão a fazer um grande Mundial, mas atenção ao Dani Olmo. O Dani Olmo está a jogar ali entre linhas de forma fantástica, muito inteligente, sempre a associar-se com os dois avançados. E depois, o que dizer quando entra o Merino, não é? Este rapaz está num momento extraordinário. Muitas vezes dizemos nós, treinadores e todos no mundo do futebol, que quem ganha os jogos são os que saem do banco. E mesmo que sejam cinco, 10, 15 minutos, têm de os aproveitar. Penso que é uma bênção para o Luis de la Fuente ter todos estes jogadores, porque sabe que quem escolher vai render.

Manolo Sánchez com Paco Buyo e José Damián González
Manolo Sánchez com Paco Buyo e José Damián GonzálezLeyendas España

"Quando Espanha sofre um revés, supera-se sempre"

- Vê Espanha a ganhar esta noite à França?

- Vai ser um jogo muito equilibrado, tremendo em todos os sentidos. É preciso estar com os cinco sentidos, porque eles, como recordaste, ofensivamente são temíveis, não é? Por isso não se pode conceder muitos espaços atrás, eles são muito rápidos, mas confio plenamente. Com o jogo de Espanha vejo que Espanha nunca desiste. Quando sofre um revés, supera-se sempre, porque tem sempre a ideia de futebol, de toque, de posse e de chegar ao último terço do adversário, onde imprime uma velocidade tremenda e aparece com muita qualidade. Sou muito otimista. Penso que sim, penso que Espanha vai ganhar, vai sofrer muito porque não se ganha sem sofrer. Mas aposto em Espanha.

- Falou anteriormente do coletivo. É verdade que outras seleções se destacam por um nome, não é? Fala-se da Argentina de Messi, da França de Mbappé, da Inglaterra de Kane ou de Bellingham, ou em França do Olise também. Em Espanha, é verdade que está o Lamine Yamal, que veio a recuperar de uma lesão, mas para além dele, como disse, o Luis de la Fuente tem imensos recursos, não é? Acha que isso pode ser um fator diferenciador em relação a outras seleções que podem depender mais da sua estrela?

- Evidentemente, há muitos jogadores, os craques e as figuras, que muitas vezes ganham jogos, mas há sempre exceções, não é? Pode acontecer, mas quem ganha o jogo é a equipa. E por isso penso que, das quatro seleções que estão agora nas meias-finais, a que mais joga como equipa é Espanha. Isso dá um extra e tem de motivar todos os jogadores e, de facto, estamos todos os adeptos motivados. Por parte de Espanha, sim, do Lamine, todos esperamos que faça o seu jogo, que faça aquela diagonal com aquele remate que vai sempre à gaveta, não é? Com o peito do pé. Gera sempre perigo, é um jogador fantástico, um miúdo, porque ainda é uma criança, mas magnífico. Falta-me também o Nico Williams pelo outro lado, que azar com as lesões, porque entre os dois são muito profundos e criam imenso perigo. E oxalá o Nico possa também contribuir a partir do banco nos minutos que tiver para ser útil à seleção.

Manolo Sánchez num evento da Casademont
Manolo Sánchez num evento da CasademontLeyendas España

- E já agora, do outro lado do quadro, quem vê mais forte, a Argentina ou a Inglaterra?

- Também vai ser uma meia-final muito disputada. A Inglaterra está com um Bellingham extraordinário, com o Kane em modo matador, os ingleses sempre com um ritmo, com uma intensidade em todas as ações, em todas as jogadas, não é? Pode chegar à final, mas, amigo, pela frente está a Argentina com um Messi que está, para a idade que tem, fantástico. Está a decidir jogos sozinho, como fez no último Mundial, e tem jogadores com muita experiência dentro desta seleção. Eu, talvez por causa do Messi, dou um pouco mais de favoritismo à seleção argentina.

Mundial-2026

O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.

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