Quando o apito inicial desta meia-final estava prestes a soar a 11 de julho de 2018 no Estádio Luzhniki, em Moscovo, as duas seleções chegavam com dinâmicas e estados de frescura completamente opostos.
De um lado, a Inglaterra de Gareth Southgate surfava uma onda de otimismo inédita desde 1990. Impulsionada por um Harry Kane a caminho do título de melhor marcador e por um hino mundialmente entoado, "It's Coming Home", a juventude inglesa impôs-se nos quartos frente à Suécia (2-0). Chegou fresca, confiante na sua força e convencida de que a sua hora chegou finalmente.
Do outro lado, a Croácia parecia um exército de sobreviventes. Se a fase de grupos foi uma obra-prima (nomeadamente uma goleada por 3-0 à Argentina), a fase a eliminar transformou-se num autêntico calvário: 120 minutos de luta intensa frente à Dinamarca nos oitavos de final, decididos nos penáltis (1-1, 3-2 g.p.), e depois nova maratona sufocante contra a Rússia, o país anfitrião, também levada até ao limite e conquistada com força mental (2-2, 4-3 g.p.).
No total, os pilares croatas (Luka Modrić, Ivan Rakitić, Mario Mandžukić, Ivan Perišić) já somavam 240 minutos de jogo nas pernas em menos de uma semana, sem contar com a tensão dos penáltis. Para os analistas, o desafio era demasiado grande: a Croácia estava esgotada, a Inglaterra ia sufocá-los.
O golpe de Trippier e a gestão inglesa
Os primeiros minutos pareciam dar razão aos cépticos. Logo aos 5 minutos, Dele Alli arrancou uma falta de Modrić à entrada da área croata. Kieran Trippier assumiu e, com um remate em arco perfeito de pé direito, o lateral, na altura do Tottenham, colocou a bola no ângulo superior da baliza de um Danijel Subašić impotente.
Este início fulgurante atordoou os Vatreni e entusiasma os Três Leões. Durante toda a primeira parte, a Inglaterra geriu a vantagem e mostrou-se mais perigosa. Harry Kane quase fez o segundo aos 30 minutos, mas Subašić, heróico, negou-lhe o golo por duas vezes à queima-roupa. Ao intervalo, a Croácia estava em desvantagem, parecia sem energia, e o trio Sterling-Lingard-Alli impunha o ritmo.
A metamorfose da segunda parte: o despertar dos líderes
Mas esta equipa croata tinha uma alma fora do comum. No regresso dos balneários, o selecionador Zlatko Dalić pediu à sua equipa para subir no terreno. Foi o momento em que o trio Modrić-Rakitić-Brozović assumiu o controlo da posse de bola e travou a pressão inglesa. A posse mudou de lado, o cansaço desvaneceu-se.
Com insistência, os croatas acabaram por quebrar a defesa dos Três Leões: Šime Vrsaljko, incansável no lado direito, cruzou tenso para o segundo poste. Ivan Perišić apareceu do nada e, com um gesto de avançado puro, quase em jogo perigoso, antecipou-se de cabeça a Kyle Walker e atirou para o fundo das redes (1-1, 68.º).
O jogo entrou numa fase de loucura. Transformados, os croatas quase resolveram logo a seguir, quando Perišić, mais uma vez, acertou no poste de um Jordan Pickford em apuros. A Inglaterra já não respondia, mas conseguiu, com dificuldade, levar o jogo para prolongamento.
Prolongamento: o golpe fatal de Mandžukić
Para a Croácia, foi o terceiro prolongamento consecutivo em três jogos. Um feito inédito na história moderna do Mundial. No relvado, os corpos ressentiam-se, Mandžukić fazia caretas, Ivan Strinić teve de sair, exausto com cãibras. No entanto, taticamente e mentalmente, eram os croatas que dominavam. Vrsaljko salvou primeiro a sua equipa em cima da linha, após um cabeceamento de John Stones (99.º), antes de chegar o golpe final.
Depois, a libertação: após um balão junto à área inglesa, a defesa inglesa revelou falta de agressividade. Ivan Perišić desviou de cabeça para trás. Mais astuto e rápido do que John Stones, Mario Mandžukić apareceu e rematou de imediato cruzado com o pé esquerdo, batendo Pickford (2-1, 109.º).
Mandžukić e os seus companheiros acabam junto aos fotógrafos num caos de pura alegria. Os últimos dez minutos foram uma lição de gestão do tempo e coragem. Ao fim de 360 minutos de jogo em três partidas, a Croácia conseguiu: chegou à final do Mundial.
O impacto histórico: o nascimento de um monstro de resiliência
Se a final foi perdida alguns dias depois frente à França (4-2) devido a um depósito de energia completamente vazio, este triunfo frente à Inglaterra mudou para sempre o estatuto da Croácia.
Este jogo provou ao mundo inteiro que este país não era apenas um conjunto de talentos individuais, mas um coletivo com uma força mental inigualável. Esta capacidade de recusar a derrota, de sobreviver aos prolongamentos e de castigar qualquer excesso de confiança adversário tornou-se o ADN dos Vatreni.
Uma fórmula mágica que repetiriam quatro anos depois no Catar (eliminando, entre outros, o Japão e o Brasil nos penáltis) para conquistar uma fantástica terceira posição.
