Mundial-2026: Ébola gera preocupações ínfimas no jogo Portugal-RD Congo

Houston vai acolher o primeiro jogo de Portugal
Houston vai acolher o primeiro jogo de PortugalProfimedia

O jogo entre Portugal e República Democrática do Congo na fase final do Mundial-2026 de futebol terá baixo risco de contágio por Ébola, cuja epidemia se propagou a partir daquele país africano, admite Henrique Jones, ex-médico da seleção lusa.

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Diria que não existem quaisquer preocupações fundamentadas. Dos 26 convocados da República Democrática do Congo, 24 jogam na Europa. Houve um surto naquele país. De qualquer forma, a contaminação no seio de atletas de alta competição, numa comitiva deste tipo e, eventualmente, dos futebolistas que irão defrontar é ínfima”, disse à agência Lusa o antigo responsável pelo departamento clínico da equipa lusa, entre 2000 e 2014.

Portugal, detentor da Liga das Nações, defronta a República Democrática do Congo na quarta-feira, em Houston, nos Estados Unidos, para a primeira jornada do Grupo K do Campeonato do Mundo, cuja 23.ª edição se realiza entre hoje e 19 de julho e integra pela primeira vez 48 seleções, num total de 104 jogos, sob inédita organização tripartida entre Estados Unidos, México e Canadá.

Os congoleses regressam ao principal torneio internacional de seleções 52 anos depois da única presença sob a designação de Zaire, numa altura em que as autoridades do quarto país mais populoso de África, e segundo em área, já contabilizaram quase 500 infeções e 100 mortes devido ao Ébola.

Em maio, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a epidemia de Ébola no leste da República Democrática do Congo, considerando que o epicentro está em Ituri, província fronteiriça com Sudão do Sul e Uganda.

A OMS emitiu um alerta de saúde internacional, mas informou haver baixo risco de alastramento global da doença, que é provocada pela estirpe Bundibugyo, contra a qual não existe vacina ou tratamento aprovado, tem até 50% de taxa de mortalidade e acontece pela 17.ª vez na República Democrática do Congo, país com mais de 110 milhões de habitantes.

É um vírus altamente perigoso, mas tem uma contaminação sobretudo por sangue, fezes, vómito e sémen. Não há contacto aéreo, como existe, por exemplo, na covid-19 ou na gripe, pelo que é muito difícil de ser propagado em atletas. Por outro lado, qualquer indivíduo que esteja contaminado com o Ébola não tem quaisquer condições para fazer desporto, porque a sua limitação física é incompatível com essa prática”, explicou Henrique Jones.

Em resposta à Lusa, a FIFA disse estar ciente e a acompanhar a situação, mantendo contacto com a Federação Congolesa de Futebol (FECOFA), para assegurar que a comitiva esteja ciente das orientações médicas e de segurança, e com os governos de Estados Unidos, México e Canadá.

Acho que muitas vezes existem preocupações por excesso. Obviamente, a FIFA está atenta e em sintonia com a OMS, mas isto não é uma preocupação por aí além no campo desportivo. Na literatura, só há um caso de possível contaminação de um atleta por ébola”, notou Henrique Jones, presente em três Europeus e quatro Mundiais com a seleção principal de Portugal.

Antes do Mundial-2026, o conjunto treinado pelo francês Sébastien Desabre estagiou na Europa e defrontou Dinamarca, em Liège, na Bélgica, e Chile, sendo que o jogo particular frente aos sul-americanos se realizou à porta fechada em Orléans, em França, após ter sido cancelado por razões sanitárias pelas autoridades de La Línea de la Concepción, em Espanha.

O que há a fazer é a monitorização dos sinais vitais, o diálogo com o atleta e a reposição hídrica, que é muito importante, sobretudo perante a vaga de calor que está na Europa, onde eles jogaram. Penso que todos já terão sido rastreados. Apesar de haver um período de incubação entre dois e 22 dias, os atletas são monitorizados com análises clínicas regulares e testes”, frisou Henrique Jones, ortopedista especializado em medicina desportiva.

A comitiva congolense vai ficar instalada em Houston e fará dois dos três jogos da fase de grupos nos Estados Unidos, defrontando o estreante Uzbequistão em 27 de junho, em Atlanta, quatro dias depois de ter pela frente a vice-campeã sul-americana Colômbia em Guadalajara, no México.

A República Democrática do Congo é um dos países cujos residentes estão impedidos de entrar nos Estados Unidos pela administração de Donald Trump, que obrigou os membros daquela seleção africana a cumprirem isolamento durante, pelo menos, 21 dias no estágio realizado na Europa antes de ser autorizada a entrar hoje em território norte-americano.

Não há recomendações especiais (para os adeptos), pois a contaminação é por fluidos. A única coisa que esperamos é que seja um bom jogo e que Portugal ganhe”, concluiu Henrique Jones, sobre uma febre hemorrágica viral responsável por mais de 15.000 mortes em África nos últimos 50 anos.