Mundial-2026: O clube escocês que desapareceu em São Paulo há 110 anos por ser profissional antes do tempo

Bandeiras escocesas em Glasgow
Bandeiras escocesas em GlasgowRAYMOND DAVIES/PROSPORTSIMAGES/DPPI VIA AFP

Sem grande alarido, o dia 10 de outubro de 1915 entrou para a história do futebol paulista. Nessa data, o Scottish Wanderers Football Club, equipa fundada dois anos antes por imigrantes escoceses, disputou, sem o saber, o seu último jogo no Campeonato Paulista.

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A extinção do verdadeiro representante do desporto bretão, oficializada no ano seguinte, teve pouco que ver com o desempenho dentro de campo. O Scottish Wanderers foi fundado pelo engenheiro têxtil Archie McLean, natural de Paisley, na Escócia, e antigo jogador semiprofissional do Ayr FC e do St Johnstone.

Apesar de ter terminado no penúltimo lugar nas duas únicas edições do Campeonato Paulista em que participou, com um quinto lugar em 1914 e outro em 1915, o clube acabou por ser expulso da liga por um motivo que antecipou uma discussão que só seria resolvida quase duas décadas depois, segundo o Almanaque do Futebol Paulista 2000.

Ao contrário do que determinava o regulamento, os jogadores dividiam entre si as receitas obtidas com os encontros disputados no Estádio do Velódromo, um dos principais palcos do futebol paulista na época, que chegava a receber 10 mil espectadores. Como o futebol brasileiro ainda era oficialmente amador, a prática foi considerada ilegal. O profissionalismo só viria a ser reconhecido em 1933.

O escudo do Scottish Wanderers
O escudo do Scottish WanderersDomínio Público

Muito além de Charles Miller

Embora a história do futebol brasileiro seja habitualmente associada a Charles Miller, filho de pai escocês e mãe brasileira, investigadores dos dois lados do Atlântico defendem que a influência da Escócia foi muito mais ampla.

Segundo documentos preservados pelo Museu Escocês do Futebol, instalado no Hampden Park, em Glasgow, os imigrantes escoceses ajudaram a introduzir no Brasil não apenas a modalidade, mas também novas formas de organização dos clubes e um estilo de jogo assente na troca de passes.

Hampden Park, em Glasgow, a casa da seleção da Escócia
Hampden Park, em Glasgow, a casa da seleção da EscóciaEduardo Geraque

McLean chegou a São Paulo em 1912 para trabalhar na empresa têxtil J&P Coats, embora já conhecesse o Brasil de visitas anteriores. Nessa altura, o São Paulo Athletic Club (SPAC), fundado por Charles Miller, já era uma das principais forças do futebol paulista e tinha conquistado os títulos estaduais de 1902, 1903, 1904 e 1910.

Defensor do amadorismo, o clube abandonaria a competição pouco antes da chegada do Scottish Wanderers. A sua sede social continua em funcionamento até hoje.

Vitrine com camisas históricas no Museu do Futebol, em Glasgow
Vitrine com camisas históricas no Museu do Futebol, em GlasgowEduardo Geraque

Os jogadores reunidos por McLean envergavam um equipamento muito semelhante ao da seleção escocesa: camisolas azul-marinho com gola branca, calções brancos e meias escuras. O emblema apresentava um leão branco inspirado na heráldica escocesa e o tradicional cardo, flor nacional da Escócia, reforçando a identidade da comunidade escocesa em São Paulo.

A possível origem da "tabelinha"

O principal legado do Scottish Wanderers, porém, poderá ter ficado dentro das quatro linhas. Embora existam poucos registos que permitam estabelecer uma relação direta, os historiadores defendem que a equipa ajudou a difundir em São Paulo o chamado estilo escocês de jogar futebol, caracterizado por passes curtos, movimentação coletiva e inteligência tática. Contrastava tanto com o jogo mais individualista praticado no Brasil como com o futebol inglês, mais físico e assente em passes longos.

As exibições de McLean valeram-lhe uma chamada à seleção paulista, então a maior distinção possível para um jogador antes da criação da seleção brasileira. É-lhe também atribuída a popularização da "tabelinha", uma rápida combinação de passes entre dois jogadores que viria a tornar-se uma das marcas do futebol brasileiro.

Outro escocês, o treinador Jock Hamilton, já tinha introduzido métodos modernos de treino e o jogo apoiado no Club Athletico Paulistano, emblema da elite paulistana que abandonaria o futebol após a profissionalização. Anos mais tarde, alguns dos seus jogadores participariam na fundação do São Paulo Futebol Clube. O Club Athletico Paulistano continua igualmente em atividade.

Charles Miller, em foto dos anos 1940
Charles Miller, em foto dos anos 1940Por Arquivo Charles Miller de 1942 - Scan de Governo de São Paulo, Domínio público

O próprio nome Scottish Wanderers, que pode ser traduzido como "Escoceses Errantes" ou "Escoceses Vagantes", seguia uma tradição do futebol britânico do século XIX, quando muitos clubes adotavam o termo "Wanderers" por não possuírem um campo fixo e disputarem os seus encontros em diferentes locais.

A curta trajetória da equipa britânica transformou o clube num símbolo das contradições que marcaram os primeiros anos do futebol brasileiro: ajudou a introduzir um estilo de jogo que influenciaria várias gerações e desapareceu precisamente por adotar práticas que a modalidade no Brasil só viria a aceitar oficialmente quase 20 anos depois.