Mundial-2026: O que falhou na estreia de Portugal e Cristiano Ronaldo

Ronaldo com ar desolado
Ronaldo com ar desoladoReuters / StatsPerform via Opta

Com Kylian Mbappé, Erling Haaland e Lionel Messi a darem nas vistas nos respetivos jogos de estreia do Mundial 2026, a noite de quarta-feira ofereceu a Cristiano Ronaldo a oportunidade de igualar os feitos dos rivais.

Recorde as incidências do encontro

O capitão de Portugal, a disputar aquele que se espera ser o seu último Mundial, queria certamente garantir que todas as atenções estivessem novamente sobre si, depois de Messi ter dominado as manchetes graças ao seu brilhante hat-trick frente à Argélia.

Presságio para a RD Congo aos seis minutos

Invicta nos últimos cinco jogos em todas as competições, a seleção entrou em campo como clara favorita frente à RD Congo, embora Axel Tuanzebe, Arthur Masuaku, Aaron Wan-Bissaka, Cedric Bakambu e Yoane Wissa contassem todos com experiência em ligas de topo, o que sugeria que, talvez, a tarefa de Portugal não fosse tão fácil como parecia à partida.

No entanto, ao fim de seis minutos, o destino da RD Congo já parecia traçado, quando Pedro Neto cruzou com precisão para a área e um dos jogadores mais baixos em campo, João Neves, apareceu completamente solto para cabecear com força e inaugurar o marcador.

Uma posse de bola coletiva de 77% no primeiro quarto de hora garantiu que as oportunidades da RD Congo fossem escassas, embora Wissa, Bakambu e Edo Kayembe tenham tentado o golo nos primeiros 30 minutos.

Notas dos jogadores
Notas dos jogadoresFlashscore

Na verdade, foi uma exibição combativa da RD Congo, que continuou a frustrar Ronaldo e companhia, com ambos os laterais, Masuaku e Wan-Bissaka, a beneficiarem não só da facilidade em subir no terreno – ambos tentaram três dribles cada durante o jogo – mas também a envolverem-se em 14 duelos individuais ao longo dos mais de 90 minutos.

Wissa surpreende Portugal

O esforço foi igualado por Wissa, Kayembe e Samuel Moutoussamy, que também mostraram grande disponibilidade para fechar espaços rapidamente, impedindo que o núcleo criativo de Portugal, composto por Bruno Fernandes, Vitinha e João Neves, conseguisse impor o seu jogo natural.

Grande parte do tempo de Portugal foi passada a trocar passes sem grande objetivo e embora Vitinha (134), Tomás Araújo (109) e Renato Veiga (103) tenham ultrapassado a centena de toques (com Neto a chegar aos 97 e Bruno Fernandes aos 96), raramente houve movimentações com intenção por parte dos europeus.

O remate bloqueado de Bruno Fernandes aos 39 minutos foi apenas o segundo da equipa no jogo e à medida que a confiança da RD Congo crescia, aproveitaram ao máximo a fraca marcação portuguesa num canto.

Masuaku cruzou alto e ninguém conseguiu travar Wissa, que cabeceou para o empate já nos descontos da primeira parte.

Portugal brilhou... a passar a bola

Portugal voltou a ter clara supremacia na posse de bola no início da segunda parte e a precisão dos passes chegou a ser impressionante por momentos. 

João Neves (97,8%), Neto (95,1%) e Vitinha (94,5%) estavam a dar baile aos adversários; no entanto, a incapacidade dos homens da frente em finalizar fez com que, na prática, as bonitas trocas de bola pouco mais fossem do que espetáculo.

Ronaldo só fez o seu primeiro remate aos 68 minutos e, com apenas 25 toques em todo o jogo, a sua contribuição para tentar recolocar a equipa no jogo foi bastante pobre.

Mais dois remates já na reta final também saíram desenquadrados, tal como todas as outras tentativas dos seus colegas, o que significa que o golo de João Neves foi o único remate enquadrado de Portugal em toda a partida.

Ronaldo não marca há 10 jogos em Europeus e Mundiais

Para Ronaldo, isto significa o 10.º jogo consecutivo em grandes torneios sem marcar, apesar de ter somado 33 remates nesse período, e os sete remates de Portugal igualam o registo mais baixo da equipa num jogo do Mundial (também sete frente à Coreia em 2002).

Se Roberto Martínez procura razões para a sua equipa não ter conseguido somar os três pontos, os 29 toques dos seus jogadores na área da RD Congo, que resultaram apenas num golo, são um bom ponto de partida.

Zero dribles de Ronaldo, Bruno Fernandes e Bernardo Silva, os três jogadores mais experientes do onze, é outro dado relevante.

Ímpeto do jogo
Ímpeto do jogoOpta by Stats Perform

Talvez o facto de Bruno ter perdido a posse de bola em 17 ocasiões diferentes também possa ser considerado um fator a ter em conta.

Ainda assim, quando foi preciso assumir, o líder da equipa, Ronaldo, não apareceu, e para um jogador que gosta de ser protagonista em qualquer jogo, isso simplesmente não chega.

Nível de empenho insuficiente

Isso não retira mérito à determinação da RD Congo em manter-se no jogo do início ao fim, marcando o seu primeiro golo de sempre em Mundiais e conquistando o seu primeiro ponto na competição.

Com apenas 249 passes completos contra os 783 de Portugal, era evidente que a seleção africana teria de fazer um jogo de resistência para sequer sonhar travar os atuais campeões da Liga das Nações de alcançarem uma vitória expressiva.

Leia também - Análise: Além de Roberto Martínez, as cinco maiores desilusões de Portugal

17 desarmes tentados contra 12 de Portugal, nove deles ganhos (seis para a seleção), e cinco interceções realizadas (apenas três dos portugueses), dizem muito sobre a vontade da RD Congo em enfrentar olhos nos olhos adversários mais conceituados.

É também um retrato preocupante do nível de empenho dos jogadores que, na sua maioria, atuam nos patamares mais altos do futebol de clubes.