Mundial-2026: O trio de refugiados que procura impulsionar o sucesso da Austrália

Nestory Irankunda, nascido na Tanzânia, controla a bola num jogo de preparação antes do torneio frente à Suíça.
Nestory Irankunda, nascido na Tanzânia, controla a bola num jogo de preparação antes do torneio frente à Suíça.ORLANDO RAMIREZ / GETTY IMAGES VIA AFP

Filhos de pais deslocados por conflitos em África e nascidos em campos de refugiados, três jogadores vão mostrar a nova face do futebol australiano no Mundial-2026 e procuram responder ao apelo do país por golos.

Acompanhe aqui a estreia da Austrália frente à Turquia

O treinador Tony Popovic está a depositar a sua confiança nos avançados Mohamed Touré e Nestory Irankunda, dois jovens talentos que ambicionam os primeiros minutos em Mundiais na partida inaugural dos Socceroos frente à Turquia, no sábado.

Aos 30 anos, Awer Mabil é o "irmão mais velho" do duo e estará presente para os apoiar como mentor no seu segundo Mundial. Os três partilham a experiência de serem filhos de requerentes de asilo que subiram na hierarquia do futebol na pacata capital estadual de Austrália, Adelaide.

Já celebrados entre a diáspora africana da Austrália, que conta com meio milhão de pessoas, a sua química pode ser fundamental para as esperanças australianas de ultrapassar a fase de grupos e conquistar, pela primeira vez, uma vitória em jogos a eliminar num Mundial.

"É o país que nos deu a oportunidade de viver. Por isso, penso que (o Mundial) seria a melhor forma de retribuir e simplesmente fazer aquilo que adoro ao mais alto nível", afirmou Touré, de 22 anos.

Touré, que joga na segunda divisão inglesa, nasceu num campo de refugiados na Guiné depois de os seus pais terem fugido da Libéria. Apesar de ter apenas 10 internacionalizações, tornou-se avançado titular de Popovic, após um início fulgurante no Norwich City, onde marcou nove golos em 11 jogos.

É grande amigo de Irankunda, de 20 anos, que nasceu num campo de refugiados na Tanzânia e também atua na segunda divisão inglesa pelo Watford. A muito falada contratação de Irankunda pelo Bayern Munique em 2024 não se concretizou, mas o filho de pais burundeses tornou-se um favorito dos adeptos em 15 jogos pela Austrália, graças à sua energia e celebrações de golo exuberantes.

A primeira experiência de Awer Mabil no futebol foi a jogar com outras crianças num campo de refugiados no Quénia, onde viveu até aos 10 anos, depois de a sua família ter sido deslocada pela guerra civil no Sudão. Inicialmente ignorado por Popovic, o avançado com 38 internacionalizações foi chamado de novo aos Socceroos pela primeira vez em quase dois anos, em março, depois de reencontrar a forma no Castellón, na segunda divisão espanhola.

"Obviamente, tive um pequeno gosto no último (Mundial), mas este vai significar ainda mais porque não foram anos fáceis para mim," afirmou.

Em tempos quase totalmente dominadas por jogadores de ascendência europeia, as convocatórias dos Socceroos tornaram-se cada vez mais diversas: seis jogadores de origem africana - quase um quarto da convocatória para o Mundial - esperam entrar em campo na América do Norte, o dobro dos escolhidos para o Catar-2022. Quatro cresceram e jogaram em Adelaide, um improvável viveiro de talento africano no futebol.

O possante avançado Tete Yengi, que atua no Japão e marcou na sua estreia no empate 1-1 da Austrália frente à Suíça num jogo de preparação para o Mundial, é o outro elemento do grupo de Adelaide. Yengi, cujo irmão Kusini também é avançado internacional pelos Socceroos, tem ascendência sudanesa do sul e uma forte ligação ao seu antigo colega do Adelaide United, Irankunda.

O clube de Adelaidetem fortes ligações às comunidades africanas da cidade e um histórico de promoção de jovens talentos, tendo dado a estreia a Irankunda aos 15 anos.

"É por isso que continuamos a revelar estes talentos escondidos," disse Deng Akoy, treinador australiano-sudanês do sul da equipa de jovens do Adelaide, à Reuters.

Embora a Austrália conceda asilo a milhares de refugiados todos os anos, a imigração tornou-se um tema polémico no país, com políticos populistas a culpá-la pelos elevados custos da habitação e problemas sociais. Jogadores como Touré e Irankunda têm a oportunidade de mudar a narrativa no Mundial e mostrar o sucesso do multiculturalismo, afirmou Akoy.

"O futebol australiano reflete a Austrália moderna. Por isso, é algo que todos devemos celebrar", vincou.