Mundial-2026: Os quartos de final que transformaram Queens de Nova Iorque em Casablanca

Adeptos marroquinos assistem ao encontro
Adeptos marroquinos assistem ao encontroFabio Russomando

A Steinway Street, no coração dE Queens, transformou-se por uma tarde numa pequena Casablanca. Entre narguilés, bandeiras, cânticos e esperança, milhares de adeptos viveram o França-Marrocos como se estivessem em casa, antes de o sonho mundialista se apagar debaixo da chuva.

O melhor de viver em Nova Iorque é ter o mundo à distância de um passo. Um detalhe nada secundário durante um Mundial organizado nos Estados Unidos.

Excluindo Manhattan, o local que melhor representa esta diversidade é, sem dúvida, Queens, com as suas inúmeras comunidades de imigrantes que lhe dão cor todos os dias. Muitos sul-americanos, bastantes europeus, uma presença significativa de italianos e cidadãos da Europa de Leste, mas também uma grande comunidade norte-africana. Basta percorrer a Steinway Street, uma das principais artérias de Astoria, para mergulhar numa pequena casbah.

Adeptos de Marrocos
Fabio Russomando

Comércio de ambos os lados da rua. Por um dia, porém, a rotina diária foi abalada pelo jogos dos quartos de final entre França e Marrocos. Bares, restaurantes e supermercados transformam-se em verdadeiros teatros ao ar livre para apoiar Hakimi e companhia. Um jogo que atrai não só marroquinos, mas também muitos egípcios, ainda amargurados pela polémica eliminação frente à Argentina, outros norte-africanos e, de forma geral, pessoas vindas de todo o mundo árabe.

Entre eles está também Khalid, americano criado em Queens mas com família oriunda da Arábia Saudita, que veio apoiar Marrocos. "Inshallah", diz logo ao falar de uma possível qualificação para as meias-finais. "Apoio Marrocos e espero que consiga ir o mais longe possível. Estamos aqui para apoiar a equipa de Ouahbi".

Um dos estabelecimentos
Um dos estabelecimentosFabio Russomando

"É um jogo difícil", acrescenta Saed, cuja família é originária do Sudão. Também ele, tal como Khalid, veste a camisola da seleção marroquina. "Apoio Marrocos porque somos africanos, mas também árabes".

Entretanto, o jogo começa e Marrocos sente a superioridade da França. A meio da primeira parte, Mbappé tira um adversário do caminho e o árbitro assinala uma grande penalidade.

A apreensão cresce nos rostos dos adeptos marroquinos sentados no passeio em frente a uma churrasqueira que vende especialidades do Norte de África. Mbappé coloca a bola na marca, prepara-se para bater e, do outro lado da rua, explodem subitamente gritos de alegria.

A festa dos adeptos marroquinos após o penálti defendido por Bono
Fabio Russomando

Bono já defendeu o penálti, mas o sinal televisivo chega com quase 30 segundos de atraso. Quando a defesa do guarda-redes marroquino aparece também nos ecrãs, é um delírio de abraços, cânticos e bandeiras. A festa, porém, dura pouco porque a França volta de imediato ao ataque.

Volta-se a ficar em suspenso. Os minutos passam e Bono volta a brilhar com mais algumas defesas decisivas. Termina a primeira parte e é altura de recuperar o fôlego, ou então dar umas passas nos narguilés presentes praticamente em todos os estabelecimentos.

No Melody, transformado para a ocasião numa espécie de sports bar, estão por todo o lado, tal como os ecrãs. As pessoas sentam-se frente a frente e parecem olhar-se nos olhos, como num exame universitário. Na verdade, é apenas um efeito ótico criado pelos ecrãs gigantes instalados em todas as paredes.

Um dos estabelecimentos da Steinway Street
Um dos estabelecimentos da Steinway StreetFabio Russomando

O jogo torna-se também uma oportunidade de negócio. Vendedores ambulantes exibem réplicas das camisolas, quase indistinguíveis das originais até nas costuras dos patrocinadores, em frente a polícias concentrados apenas em manter a ordem pública. 50 dólares por uma camisola, 10 por uma bandeira ou um boné. Alguns estabelecimentos aproveitam: para entrar e sentar-se pedem até 20 dólares.

Está quase a começar a segunda parte e Yousef, também ele americano com pais marroquinos, mantém-se confiante apesar da superioridade demonstrada pela França: "É um jogo difícil. A França é fortíssima. Felizmente o Bono salvou-nos até agora, mas temos dificuldades em criar oportunidades no ataque".

Adeptos de Marrocos em Nova Iorque
Fabio Russomando

Uma análise lúcida que, na segunda parte, transforma-se numa sentença. Mbappé confirma ser o goleador que todos conhecem e coloca duas vezes a bola no fundo da baliza de Bono. Entretanto, começa também a chover, tornando a tarde ainda mais amarga para os adeptos marroquinos.

O sonho mundialista apaga-se lentamente, entre a desilusão de jovens que saíram à rua com as suas famílias e crianças. Depois da histórica meia-final de há quatro anos, Marrocos despede-se do torneio nos quartos de final.

Sem taça, mas com uma consciência que enche de orgulho até os seus filhos do outro lado do oceano: Marrocos é já uma certeza do futebol mundial.

Mundial-2026

O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.

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