Mundial-2026: Sem Cavani nem Suárez, Uruguai procura reinventar-se pela mão de Bielsa

Marcelo Bielsa, selecionador do Uruguai
Marcelo Bielsa, selecionador do UruguaiREUTERS/Mariana Greif/File Photo

Mesmo que o capitão e principal líder em campo seja Federico Valverde, o treinador natural de Rosário é a figura mais emblemática da Celeste, que vai pôr à prova as suas ambições frente à Espanha, presente neste encontro norte-americano como campeã da Europa e grande favorita. E tem ainda de lidar com o problema Araújo.

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Aos 70 anos, ainda há tempo para encontrar grandes motivações, sobretudo quando está em causa um Mundial. Participar neste encontro como selecionador do Uruguai representa um momento único na carreira de Marcelo Bielsa. Um estudioso do futebol que regressa ao Campeonato do Mundo 24 anos depois da sua primeira e única presença com uma Argentina que, em 2002, era considerada favorita na Coreia e no Japão, mas foi eliminada de forma surpreendente logo na fase de grupos.

Desta vez, porém, para além de já ter passado mais de um quarto de século, as condições são totalmente opostas. O treinador argentino já não está no auge da carreira, nem lidera uma das melhores seleções do mundo, como acontecia no início dos anos 2000. Escolhido por aclamação popular no final de 1998, quando orientava o Espanhol, o técnico que tinha levado os Newell's Old Boys à glória gerou uma enorme esperança em todo o seu país. Mas, após uma fase de qualificação dominada com bom futebol, a bolha da felicidade rebentou.

Nenhum dualismo

Na altura, muitos criticaram o treinador pelas suas escolhas, como a de trocar de guarda-redes mesmo antes do início do Mundial e de colocar Ariel Ortega como extremo direito num 3-4-3 onde o Burrito não conseguiu mostrar todo o seu potencial como organizador de jogo. Mas, acima de tudo, esse torneio ficou na memória coletiva argentina como aquele em que o palmarés de Gabriel Omar Batistuta, já em declínio, pesou nas decisões de Bielsa, que quase sempre preferiu o seu antigo protegido do Newell’s a um Hernán Crespo que vinha de várias épocas consecutivas a marcar golos em série em Itália.

No torneio que está prestes a começar, pelo contrário, o técnico de 70 anos não terá de gerir dois avançados de peso, já que decidiu até prescindir de duas das mais recentes ídolos da Celeste. Edinson Cavani e Luis Suárez ficaram em casa depois de terem disputado as últimas quatro edições do Mundial. Se o antigo jogador do Nápoles já estava ausente da seleção há algum tempo, o avançado do Inter Miami tinha manifestado claramente o seu sonho de participar. Mas esse desejo não lhe foi concedido.

Marcelo Bielsa com os adeptos
Marcelo Bielsa com os adeptosDANTE FERNÁNDEZ / AFP

A ausência de Luis Suárez explica-se também por um desentendimento com o guru de Rosário, um homem que nunca teve papas na língua. Nem mesmo perante Claudio Lotito, com quem tinha praticamente assinado um acordo no verão de 2016. Assim, a grande estrela do Uruguai fica no banco, mesmo que o capitão Federico Valverde continue a ser o jogador mais sólido e decisivo no relvado.

Incógnita

celeste que vai chegar aos Estados Unidos para tentar qualificar-se fá-lo-á sem fazer alarido. Não foi agendado qualquer jogo particular antes do Mundial, como confirmou o próprio Bielsa. Por razões logísticas e de calendário, os encontros inicialmente previstos no Uruguai não se realizaram, como reconheceu o selecionador numa das suas longas conferências de imprensa.

Chamado pela federação uruguaia para suceder a outra lenda do futebol mundial, Oscar Washington Tabárez, Bielsa devolveu a esperança a uma seleção com estatuto histórico, mas que não conquista um título há 15 anos, ou seja, desde a Copa América na Argentina. Inserida num grupo com a Espanha, uma das favoritas, Cabo Verde e Arábia Saudita, a Celeste tem a obrigação moral de passar a fase de grupos. Depois, será preciso tentar surpreender.

Dúvidas e rumores

Existe também a possibilidade de defrontar precisamente a Argentina nos oitavos de final, o que seria um duelo muito emotivo para Bielsa, que já conhece esse sentimento de nostalgia. Quando orientava o Chile, o argentino perdeu 0-2 no Monumental e venceu 1-0 em Santiago. Como selecionador do Uruguai, conquistou a Bombonera em 2023 e perdeu em Montevideu no último confronto do ano passado.

Assim, um eventual quinto confronto contra a seleção do seu país seria o primeiro num jogo a eliminar. Um duelo de Mundial. Para já, contudo, Bielsa tem de lidar com a possível ausência de Ronald Araújo, que regressou a Espanha para recuperar de uma lesão pela qual o selecionador foi diretamente responsabilizado pelo irmão do defesa do Barça. Para o seu terceiro Mundial, depois dos que disputou com a Argentina e o Chile, um revolucionário muito apreciado em Bilbau, Marselha e Leeds — locais muito diferentes — parte em busca da sua última aventura. Como protagonista.