Mundial2026: Escritor Mário Lúcio Sousa pede "dignidade" para a seleção de Cabo Verde

Adeptos de Cabo Verde em festa
Adeptos de Cabo Verde em festaREUTERS/Danilson Sequeira

O escritor e músico cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa defende a justa condecoração da seleção de Cabo Verde, mas pede ao Governo "dignidade" para os jogadores e para as suas famílias, após a participação no Mundial.

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"Eu valorizo isso, mas condecoração seria o mínimo, porque é um gesto simbólico do reconhecimento individual e coletivo", afirmou à Lusa o também antigo ministro da cultura.

"Os reconhecimentos em Cabo Verde devem passar para uma janela de melhoria de vida, esse é que é o marco, (...) que dê garantias de dignidade, então eu também farei um apelo ao Governo nesse sentido”, disse.

O escritor defendeu que, além das condecorações, “sejam feitas muitas mobilizações a nível do tesouro, a nível das empresas, para que os jogadores e suas famílias tenham pelo menos um seguro de vida de qualidade, tenham garantia de condições mínimas de habitabilidade, isso sim seria bom, porque são referências na construção de uma crença, de uma conduta nacional".

Esta madrugada quando a seleção de Cabo Verde entrar em campo para o derradeiro jogo da fase de grupos do Mundial frente à Arábia Saudita, Mário Lúcio Sousa estará em frente à televisão, com uma garrafa de vinho aberta, "imanando" e "jogando espiritualmente".

"Eu normalmente gosto de ver em casa, porque também vou imanando, vou jogando espiritualmente com eles e prefiro abrir uma garrafinha e ficar em casa a ver. Até porque assim tem uma gestão melhor do sofrimento", disse. 

Chega mesmo a comparar a emoção deste Mundial com a que sentiu quando Portugal foi campeão da Europa em 2016.

"Eu lembro-me, eu estava sozinho com uma garrafa de vinho tinto. E naquele momento inesperado em que o Éder marcou o golo, eu simplesmente levantei-me da cadeira e disse, 'ó preto, o que é que tu acabaste de fazer?' Repeti isso umas oito vezes, a dançar e a tomar um novo vinho sozinho", lembrou. 

Desta vez, os sentimentos estão ainda mais à flor da pele, confessa o adepto que vê para além do golo.

O grupo de Cabo Verde no Mundial-2026
O grupo de Cabo Verde no Mundial-2026Flashscore

"A minha forma de reagir nessas circunstâncias é muito sentimental, é para além do golo, é a sorte do indivíduo, para nós em Cabo Verde, a própria história da minha vida mostra isso, às vezes a nossa vida muda da noite para o dia, como espero que seja o caso de todos esses jogadores que vêm a ser muito felizes, mas olha o caso do Vozinha, foi para lá com a felicidade de participar numa Copa e sai de lá com a vida garantida como bem merece", observou, referindo-se ao guarda-redes da seleção.

Vozinha tornou-se a sensação deste Mundial depois da exibição no primeiro jogo, contra a Espanha, e o número de seguidores na rede social Instagram disparou de cerca de 50 mil para os atuais 16 milhões de seguidores. 

"Como nação nova, nós estamos a viver uma experiência nova, fixamos essas vivências, porque são também espelhos para as novas gerações. Não só no futebol, mas para tudo o que nós fazemos. É preciso disciplina, respeito, é preciso tenacidade, é preciso crença", explicou.

"Crer para ver", expressão usada em Cabo Verde para enfatizar a fé e a perseverança, ajuda a entender a motivação dos Tubarões Azuis, equipa sensação deste Mundial, e desafiado a encontrar uma palavra que defina a atitude da equipa nacional, Mário Lúcio Sousa inspira-se no crioulo.

"Neste momento, a palavra que se me ocorre é a palavra 'consigui' em crioulo. 'Consiguir' para nós é uma espécie de vitória, mas que não está sobre a derrota do outro. É uma vitória de eu ter alcançado os meus limites, ter superado as minhas expetativas. É o resultado do processo", afirmou.

E chega mesmo a comparar cada jogo ao "ato de semear", hábito cultural de sobrevivência em Cabo Verde.

"Em Cabo Verde, todos os anos nós semeamos. Historicamente, não chove e perdemos todas as sementes, mas no ano seguinte, lá está o povo a semear de novo e tem sido assim sempre. Então, eu, quando vejo os jogos, entendo o coração desses jogadores, não há nenhuma pressão sobre eles, estão felizes, nós também estamos felizes, porque se não chover, nós já semeámos, cumprimos o nosso dever de não abandono", disse.

Ministro da cultura de Cabo Verde entre 2011 e 2016, defendeu sempre o futebol (e o desporto em geral) como uma ferramenta cultural poderosa e um reflexo da alma cabo-verdiana.

"A cultura não é só o exercício da arte, mas é a nossa própria evolução traduzida nas nossas ações, propósitos, as palavras que nós usamos, as coisas que nós inventamos, as práticas, sejam elas rituais, sejam elas pagãs, portanto, o futebol é um ato de cultura, é uma organização, é uma forma de brincar, assim nasceu, é uma forma, na verdade, de, com o corpo, dar alguma alegria à alma", justificou.

O jogo desta madrugada (01h00), frente à Arábia Saudita, ditará se os Tubarões Azuis “semeiam” a passagem aos 16 avos da competição, depois de dois empates históricos (1-1 frente a Espanha e 2-2 diante do Uruguai).

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