A conferência de imprensa de Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, na passada terça-feira, e a sua posterior entrevista na La Sexta na quarta-feira, continuam a gerar polémica e a causar desconforto em vários setores ligados ao desporto-rei em Espanha.
Os últimos a manifestar-se por se sentirem lesados pelas diferentes declarações do líder blanco foram os árbitros. Fizeram-no através de um comunicado publicado pela AESAF no seu site, no qual solicitam ao Comité de Competição a abertura de um processo disciplinar ao veterano empresário.
Entre algumas das afirmações deixadas pelo dirigente esta semana destaca-se a seguinte: "Com o caso Negreira soubemos há muito pouco tempo que o Barcelona distribuiu dinheiro ao chefe dos árbitros durante duas décadas. E desde então estamos a elaborar um dossier e vamos levar isto até ao fim porque é o maior caso de corrupção da história do futebol", afirmou na sua intervenção.
No seu comunicado, a AESAF aponta diretamente a várias das intervenções de Florentino Pérez, tanto na entrevista com Josep Pedrerol, como no dia anterior, quando se apresentou perante os meios de comunicação: "Estive aqui muitas épocas e conquistei 7 Champions e 7 Ligas, porque as outras foram-me roubadas. Corrupção sistémica durante duas décadas e continuam a ser os mesmos árbitros", disse numa das frases citadas pela associação.
Leia o comunicado na íntegra:
"A Associação Espanhola de Árbitros de Futebol denuncia as declarações proferidas pelo presidente do Real Madrid na conferência de imprensa de 12 de maio e na entrevista transmitida na La Sexta a 13 de maio de 2026, nas quais imputou ao setor arbitral corrupção sistémica, roubo de títulos e enriquecimento ilícito.
OS FACTOS DENUNCIADOS
No passado dia 12 de maio de 2026, o Sr. Pérez convocou uma conferência de imprensa institucional nas instalações do Real Madrid, na qual fez graves acusações contra o setor arbitral. No dia seguinte, quarta-feira, 13 de maio, às 21:00, reiterou essas declarações numa entrevista transmitida na La Sexta. Ambas as intervenções tiveram ampla repercussão mediática nacional e internacional.
Em concreto, a AESAF denuncia as seguintes declarações:
Imputação de roubo de títulos desportivos:
'Estive aqui muitas épocas e conquistei 7 Champions e 7 Ligas, porque as outras foram-me roubadas. Corrupção sistémica durante duas décadas e continuam a ser os mesmos árbitros.' — Conferência de imprensa, 12 de maio de 2026.
Classificação dos factos como o maior caso de corrupção da história do futebol:
'Estamos a fazer um dossier de 500 páginas que vamos apresentar à UEFA. Como é que vamos esquecer isto? O maior caso de corrupção da história do futebol.' — Conferência de imprensa, 12 de maio de 2026.
Acusação de enriquecimento ilícito aos árbitros:
'Eu não vim aqui para que uns árbitros se enriqueçam com o dinheiro do Barcelona.' — Conferência de imprensa, 12 de maio de 2026.
Acusação de parcialidade reiterada na La Sexta:
'Corrupção sistémica'. 'Continuam os mesmos árbitros a fazer as mesmas coisas, de forma descarada.' 'Esta época roubaram-nos 16 ou 18 pontos.' — Entrevista na La Sexta, 13 de maio de 2026.
FUNDAMENTOS JURÍDICOS E PRETENSÕES
A AESAF considera que estas declarações não podem ser protegidas pelo exercício legítimo da liberdade de expressão nem da crítica desportiva, uma vez que o Sr. Pérez não se limita a apontar erros pontuais de arbitragem, mas atribui ao Corpo Arbitral a prática continuada de um crime de corrupção ao longo de duas décadas. Além disso, a AESAF sublinha que o presidente do Real Madrid atua em todos os momentos como o principal representante institucional de um dos clubes mais mediáticos do mundo, o que amplifica o impacto prejudicial das suas palavras e aumenta a sua responsabilidade.
A AESAF solicita ainda que o Comité de Competição adote, com carácter cautelar e urgente, um requerimento ao Sr. Pérez para que cesse a emissão de declarações de natureza semelhante enquanto decorrer o processo; que seja declarada a sua obrigação de indemnizar o Coletivo Arbitral pelo dano moral, reputacional e profissional causado; e que seja exigido ao Real Madrid C.F. a publicação de um comunicado público de retificação e pedido de desculpas.
UMA DENÚNCIA POR RESPEITO À COMPETIÇÃO E AO FUTEBOL ESPANHOL
A AESAF tornou pública esta nota aguardando o final da jornada a meio da semana em que participa a equipa principal do Real Madrid, por respeito à competição e aos restantes clubes, dirigentes, jogadores, treinadores e profissionais do futebol espanhol.
As declarações do Sr. Pérez constituem, no entender da AESAF, um ataque grave, injustificado e sistemático à honra profissional e institucional do Coletivo Arbitral, sem respaldo em qualquer decisão judicial definitiva. A AESAF, no cumprimento da sua função estatutária de defesa do setor arbitral, agiu com a máxima diligência para proteger a dignidade e integridade moral dos árbitros de futebol em Espanha".
