Mãe e filha unidas pelo amor ao futebol: "Entro em campo e esqueço tudo"

Raquel Marques com a mãe Paula no Rio Mau FC
Raquel Marques com a mãe Paula no Rio Mau FCArquivo Pessoal

Em Rio Mau, o futebol nunca foi apenas futebol. Foi ponto de encontro entre gerações, espaço de luta e também de afeto. Paula Marques, de 54 anos, despediu-se dos relvados no início de abril, depois de anos a partilhar balneário, relvado e emoções com a filha Raquel, de 30, numa história rara de família, paixão e entrega ao jogo.

Destino: Rio Mau. É nesta pequena freguesia do concelho de Penafiel que encontramos uma história que vai muito além do jogo. Paula Marques, de 54 anos, é uma das protagonistas. Ao seu lado, Raquel, a filha, de 30. Partilharam durante anos o mesmo balneário, o mesmo relvado e a mesma paixão. Sempre juntas, lado a lado.

Entre sacrifícios, picardias e muitos abraços, construíram uma ligação ainda mais forte através do futebol. Uma história de amor, resistência e legado, que teve o último capítulo no início do mês de abril. Foi no dia 3 que Paula se despediu dos relvados, e logo com um golo.

Fica o exemplo de que a idade é, muitas vezes, um simples número. Fica o orgulho de quem viveu este capítulo da sua vida com todas as forças e ao lado de uma das pessoas que mais ama.

Raquel e Paula partilharam campo durante muitos anos
Raquel e Paula partilharam campo durante muitos anosArquivo Pessoal

O bichinho que nunca mais saiu

Longe dos grandes centros, também há espaço para ver florescer o amor pelo futebol. Paula cresceu a jogar com os irmãos, em campos pequenos, numa altura em que o futebol era visto como um mundo de rapazes. Mas ela ousou desafiar a dita normalidade.

"Na família não tenho muitos jogadores. Somos alguns irmãos, mas só eu é que gostei mais de jogar futebol. Como jogava com eles, em campos pequenos, quando era pequena, sempre tive aquele bichinho da bola", recorda em conversa com o Flashscore.

Na escola, procurava sempre uma forma de jogar, mesmo quando isso significava entrar num espaço dominado por rapazes.

"Onde houvesse uma equipa, eu queria entrar. Só que nas aldeias é mais difícil. Queria jogar com os rapazes na escola, depois criámos uma equipazinha de futsal de meninas e comecei por aí", prossegue.

Esse "bichinho" atravessou gerações. Raquel cresceu a vê-la jogar, primeiro como espectadora, depois como companheira.

"Foi a minha mãe que me incutiu este bichinho. Tenho de admitir que ela é mais viciada do que eu", confidencia a filha.

Paula Marques em ação
Paula Marques em açãoMP Digital

De espectadora a companheira de equipa

Antes de entrar em campo, Raquel já fazia parte do jogo. Acompanhava a mãe para todo o lado, absorvendo aquele ambiente que, mais tarde, também se tornaria seu, e não esquece o "golaço" que a progenitora marcou no Estádio 25 de Abril.

"Eu era muito pequenina, mas acompanhava-a sempre para ver os jogos. Sempre gostei muito de jogar na escola, também com os rapazes, e tinha esse bichinho", atira Raquel.

O salto para o ambiente competitivo aconteceu cedo. Aos 14 anos, começou a jogar como sénior no Sousense, num projeto construído, em parte, pelas colegas da própria mãe.

"Como já tinha 14 anos e podia jogar como sénior, fui embalada por essa paixão e comecei aí a minha caminhada", prossegue.

Foram oito anos no mesmo clube, partilhados lado a lado. Depois, uma pausa inevitável, ditada pela vida fora do futebol.

"Tivemos de optar um bocado por fazer uma pausa e dar prioridade a outras coisas. Faculdade, trabalho… e no futebol amador, na 4.ª divisão, é muito complicado fazer 25 quilómetros para ir treinar e outros 25 para voltar", atira Raquel.

Mas parar nunca foi verdadeiramente uma opção: "Paradas nunca estivemos", garante Paula. "Íamos ao ginásio, fazíamos trails… Paradas nunca estivemos."

Raquel com um cachecol do Rio Mau
Raquel com um cachecol do Rio MauArquivo Pessoal

O recomeço no Rio Mau: "Eu entro dentro do campo e esqueço tudo"

O regresso aconteceu em casa. Há cerca de três anos, surgiu a oportunidade de criar uma equipa feminina em Rio Mau e mãe e filha voltaram a vestir a mesma camisola. Mas o arranque do projeto não foi fácil.

"As miúdas não apareciam. Começámos com sete, oito, depois dez, onze… e lá conseguimos inscrever uma equipa", recorda Raquel.

Num contexto de futebol amador, em que nada mais se ganha além do amor à modalidade, tudo se faz com esforço e improviso. Faltavam jogadoras, faltava definir algumas posições, faltava quase tudo... menos vontade.

"Não havia guarda-redes, não havia centrais…", conta Paula.

A solução passou, muitas vezes, por adaptação. Tudo para garantir que a equipa existia. Que havia jogo ao domingo.

"No Sousense fui sempre guarda-redes. Aqui no Rio Mau, como não havia ninguém para a baliza, fiquei algum tempo, mas depois subi para central, ao lado da Raquel."

Paula e Raquel são inseparáveis. E a forma como essa relação se transporta para dentro das quatro linhas é algo que inspira quem as rodeia, mas também representa um duro teste de resistência.

"'Mãe, mãe, mãe, mãe'… eu passo o jogo todo a ouvir isto. Embora ela seja um bocadinho resmungona, temos uma relação excelente", conta Paula, a rir. Raquel confirma, sem hesitar: "Eu trato-a por mãe. É impossível vê-la como só mais uma colega."

Essa ligação torna tudo mais intenso. Mais emocional. Mais verdadeiro. Há pequenos momentos de tensão, mas tudo passa. Afinal, o amor supera tudo.

"Sou mais competitiva em tudo e acho que quando falha quem nós mais amamos, parece que custa mais. Às vezes pegamo-nos muito no campo e até no balneário, mas é só por dois minutos e depois já está tudo bem. Também somos muito afetuosas uma com a outra. É impensável para mim alguém ter uma entrada mais brusca sobre a minha mãe e eu ficar indiferente", defende a filha.

Raquel e Paula em ação pelo Rio Mau FC
Raquel e Paula em ação pelo Rio Mau FCMP Digital

54 anos e a mesma paixão

Num futebol cada vez mais exigente, Paula é um exemplo de longevidade. Não por obrigação, mas por paixão e por sentido de responsabilidade.

"Prolonguei a minha participação por saber que há meninas lá que também gostam de jogar. Se não houver equipa, elas não jogam. E se eu ainda sou útil, vamos lá. E porque gosto, tenho paixão. Eu entro dentro do campo e esqueço tudo", explica Paula.

Para Raquel, o exemplo é evidente e emocional: "A minha mãe é um orgulho enorme para mim. Tem 54 anos, mas parece que não tem. Tem um espírito super jovem. (...) Pelas outras colegas também sinto admiração, porque são mães, trabalham, e ainda arranjam tempo para ir jogar ao domingo e para ir treinar à noite".

"Não é só um exemplo como jogadora, é um exemplo para mim como pessoa. Claro que quase todos os filhos dizem isso das mães, mas a minha mãe é mesmo boa pessoa, tem mesmo muito bom coração. Não é só no futebol, é em tudo na vida. Então, no futebol, isso é ainda mais notável".

"Claro que depois parece que carrego aqui um peso muito grande. Porque, se a minha mãe foi até aos 54 anos, eu também fico com esse objetivo. Mas, na verdade, não penso muito nisso, porque sei a paixão que a minha mãe tem pelo futebol feminino. Apesar de eu também ter paixão, sinto que não é ao mesmo nível que ela sente. Não sei se aos 54 anos vou estar a jogar futebol. Aliás, nem sei se para o ano vou estar a jogar futebol. Se houver equipa e precisarem de mim, muito provavelmente sim, porque também gosto. Adoro acordar ao domingo e pensar 'temos jogo, é para competir'. Mas não quero carregar esse peso", remata Raquel ao Flashscore.

Paula despediu-se dos relvados aos 54 anos
Paula despediu-se dos relvados aos 54 anosArquivo Pessoal

Uma despedida com o final perfeito

"São 54 anos… eu não vejo ninguém assim. Não conheço ninguém com este percurso."

Apesar de ser a mais "resmungona" dentro de campo, Raquel revela um coração mole quando o tema é a mãe. Emocionou-se na 2.ª Gala Nacional de Futebol Feminino Miúdas da Bola, realizada em Tábua, onde Paula foi distinguida com o Prémio Carreira, e também não ficou indiferente ao último jogo da progenitora. E o guião escreveu-se de forma perfeita.

"Foi o meu último jogo na federação… e marquei um golo", conta Paula. "Elas (colegas de equipa) choraram, agarradas umas às outras… e eu também comecei a chorar."

"Não quero que a minha mãe desista do futebol, não é isso, mas às vezes também lhe chamo a atenção e digo: 'olha que, se tivesses uma lesão com 54 anos, é mais complicado'. Nós, que somos filhas, e também o marido, pensamos mais nesse lado", explica Raquel.

"Acabei em grande. Tranquila, um sentimento de dever cumprido. Mesmo", riposta Paula.

"Depois deste percurso todo, depois de tudo aquilo que passou quando era miúda, por ser a 'Maria Rapaz', por ter lutado tanto para que o futebol feminino tivesse visibilidade, acho que ela já merecia algum reconhecimento numa gala ou em algo mais visível a nível nacional do que só aqui nas aldeias e em Penafiel. Por isso é que me emocionei tanto. E, essencialmente, pela pessoa que ela é. Estou a dizer isto como filha, mas se perguntar a qualquer outra pessoa da nossa equipa, vai ouvir o mesmo: ela é mesmo boa pessoa, bondosa. É um orgulho enorme para mim vê-la ser valorizada", completa Raquel.

Raquel Marques partilhou balneário com a mãe
Raquel Marques partilhou balneário com a mãeOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

Muito mais do que futebol

Entre viagens longas, derrotas pesadas e manhãs de domingo que começam cedo, o futebol foi sempre mais do que resultados na vida de Paula e Raquel.

"Às vezes levávamos oito e vínhamos todas contentes no autocarro", recorda Raquel.

O que fica são as pessoas: "As amizades, os abraços, os convívios… Às vezes, é derrota atrás de derrota, e nós vamos sempre. É esta motivação. Depois, acabar os treinos, acabar os jogos, jantaradas... São os convívios, as pessoas. O futebol, para mim, são muitas pessoas. E nós tivemos muita sorte em encontrar pessoas incríveis no futebol. Essa é a realidade".

E também a rotina exigente, muitas vezes invisível para quem está de fora e não compreende a motivação de quem abdica de uma parte significativa do seu tempo em prol do futebol.

"Acordávamos às 06:00, trabalhávamos até às 18:00, íamos treinar às 20:00, chegávamos a casa às 23:00… e no dia seguinte era igual."

Ainda assim, nunca faltou vontade: "Se gostamos, arranjamos sempre tempo", resume Paula.

Num contexto em que ainda é difícil atrair jovens para o futebol feminino, sobretudo em meios mais pequenos, histórias como esta ganham outro peso.

"Aqui no Rio Mau, quem quer jogar são mais as pessoas mais velhas. Miúdas de 14, 15 anos não aparecem. Mas o conselho que deixo é simples: se tiverem oportunidade de jogar com a vossa mãe, façam-no. Não tenham vergonha. É incrível", admite Raquel.

"Não desistam. Se gostam, vão em frente", acrescenta Paula.

Raquel ganhou o gosto pelo futebol devido à mãe
Raquel ganhou o gosto pelo futebol devido à mãeArquivo Pessoal

"Vou continuar a puxar pela Raquel"

O tempo não espera. Agora, Paula Marques troca o relvado pela bancada. Mas não sai do jogo. No relvado continuam as companheiras de sempre, uma delas muito especial.

"Vou continuar presente. A puxar pela Raquel, como sempre", garante.

"E agora vai ser mais difícil não calçar as chuteiras, não fazer aquela entrada, aquele abraço que damos sempre no início dos jogos, para que tudo corra bem, sobretudo para não nos magoarmos, porque há sempre esse risco. E esse abraço, esse conforto depois do jogo, quando acaba e percebemos que correu tudo bem e ninguém se magoou...", sustenta Paula.

Em suma, o que fica desta história é aquilo que nunca se mede em golos ou vitórias.

"Foi um prazer jogar com ela. (...) Devo isto tudo à minha família, em especial ao meu marido e à minha filha, que são fantásticos e me ajudaram muito", diz.

Porque, em Rio Mau, o futebol foi muito mais do que futebol. Foi tempo. Foi entrega. Foi família.

E isso... isso não acaba com o último apito.

Reportagem de Rodrigo Coimbra
Reportagem de Rodrigo CoimbraFlashscore

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