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"Respeito e credibilidade do treinador português são enormes na Tunísia"
- Está, pela primeira vez, a trabalhar no estrangeiro, neste caso no Stade Tunisien, da Tunísia. O que o levou a deixar o futebol português e a apostar numa experiência além-fronteiras?
Já tinha essa ambição. Enquanto jogador, também explorei vários mercados, países e contextos diferentes e já tinha o desejo de trabalhar no estrangeiro enquanto treinador. As circunstâncias proporcionaram-se nesta altura e, devido a uma série de fatores, achei que era o momento de aceitar um desafio destes, porque é efetivamente um desafio, e embarcar nesta aventura, num país e num continente diferentes. Era um contexto do qual conhecia pouco, mas, a partir do momento em que aceitei o convite, procurei informar-me sobre tudo: o campeonato, o país e tudo aquilo que envolve o futebol aqui. Queria estar o mais preparado possível para esta realidade diferente.
- O que encontrou na Tunísia ao nível dos jogadores, do campeonato e também das condições de trabalho?
O contexto é interessante no que diz respeito à qualidade dos jogadores. Digo sempre, e já o dizia enquanto jogador, que há bons jogadores e qualidade em todo o lado. Este campeonato disputa-se com jogadores tecnicamente evoluídos em muitas equipas e, depois, com uma capacidade física e um nível físico que poucas vezes vi. Os jogos são extremamente intensos e físicos, muitos deles disputados com 38 ou 40 graus. Nesta altura, temos um calor extremo. Isso obriga-nos a pensar numa série de soluções e a adaptarmo-nos a um contexto diferente.
Antes de vir para cá, vi cerca de 15 jogos do clube. Depois, quando cheguei e conheci a realidade dos jogadores, percebi que aquilo que está mais em falta são as infraestruturas. Nesse aspeto, acredito que nós, por termos outro tipo de experiência, também podemos ajudar e acrescentar alguma coisa. Para além da organização técnica e tática, podemos contribuir para a melhoria dos campos de treino e das condições dos jogadores, para que possam evoluir mais rapidamente. Esse também é um dos objetivos, porque este é um clube que precisa de vender jogadores e o mercado representa uma parte importante do projeto. Toda esta envolvência é extremamente desafiante.
- Agora que está a trabalhar no estrangeiro, sente que o treinador português é muito respeitado além-fronteiras, neste caso na Tunísia e em África?
Claro. Existia esse desejo do clube de abrir novos horizontes e de poder ser ajudado, entre aspas, a crescer. É lógico que o respeito e a credibilidade do treinador português são enormes aqui, também muito por aquilo que fez o Miguel (Cardoso), que foi campeão duas vezes no Espérance. O treinador português é extremamente respeitado. Mas sabemos que, seja na Tunísia, em Portugal, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, são os resultados que contam. Por mais organização, disciplina e profissionalismo que possamos trazer, os resultados comandam.
Acredito que, com esta organização e com uma capacidade de trabalho diferente, os resultados estão mais próximos de acontecer. Naturalmente, serão uma peça fundamental para que as coisas possam seguir o seu caminho. O treinador português, tal como o espanhol, está claramente num patamar de excelência.
- Está no início do projeto. Quando foi contratado pelo Stade Tunisien, o que lhe foi pedido pelos dirigentes?
Aquilo que me foi pedido foi trazer este profissionalismo e esta organização e, depois, fazer com que o clube dispute todos os jogos de igual para igual. Não me interessa se jogamos contra o Espérance de Tunis, o Club Africain ou o CS Sfaxien, que foi precisamente o nosso adversário na primeira jornada e terminou a época passada no terceiro lugar, a dois pontos de ser campeão.
O objetivo do clube é que nos possamos bater de igual para igual com todas as equipas e aproximarmo-nos dos três primeiros classificados, reduzindo a diferença de 14 pontos que existiu na época passada. Se nos conseguirmos bater de igual para igual, como já fizemos nesta primeira jornada, e reduzirmos essa distância para aqueles três clubes, será uma época positiva.

"Não quero mudar a minha essência"
- Tozé Marreco é um treinador que chegou à Primeira Liga e que, na época passada, não esteve no ativo. Que treinador é este que optou agora por continuar a carreira no estrangeiro?
Tendo em conta as propostas concretas, as abordagens e as conversas que tive em Portugal, achei que este era o momento certo. Venho de um ano que não posso dizer que tenha sido fácil, porque não foi. Foi um ano difícil, porque quero sempre trabalhar e tive de dizer que não a algumas coisas, apesar dessa vontade. Na altura, achei que não era o momento certo para aceitar algumas das propostas que apareceram durante a época.
Agora, sou o mesmo treinador que chegou à Primeira Liga, com trabalho, organização e resultados. Sou o mesmo treinador que valoriza muito o jogo, o trabalho diário e o profissionalismo. Portanto, sou o mesmo Tozé Marreco naquilo que é a base, mas também acredito que temos de aprender com aquilo que fazemos bem e menos bem, porque ninguém faz as coisas de forma perfeita e ninguém ganha sempre. As experiências que vamos tendo ao longo da vida ajudam-nos a evoluir e esta, com toda a certeza, também me vai tornar diferente no final deste ano.
- Em termos da sua evolução como treinador, que peso pode ter este passo na carreira? E existe algum objetivo que tenha definido para o futuro?
Não quero mudar a minha essência. Quero aprender com aquilo que fiz menos bem, com aquilo que fiz bem e com a minha autocrítica constante, que é forte. Quero chegar ao final de cada dia e fazer essa análise: perceber o que podemos melhorar, o que podemos fazer de forma diferente e aquilo em que devemos continuar a insistir. Não sou homem de fazer muitos planos a longo prazo. Estou totalmente focado em ser competente a cada fim de semana, em adaptar-me e implementar coisas novas.

Não vou mudar aquilo que é o futebol da Tunísia, muito da essência do futebol daqui e do próprio clube, mas quero ajudar a melhorar e a fazer crescer o clube. E quero também, dentro deste contexto, aprender muito, encontrar novos problemas e novos desafios. Depois, o dia de amanhã logo se verá. Foi o trabalho diário, sem pensar em muito mais, que também me fez chegar até aqui. Se me perguntar se tenho sonhos, tenho. Tenho muitos. Quero alcançar muita coisa e quero chegar longe.
- Mesmo na Tunísia, como tem acompanhado o início dos campeonatos em Portugal?
Acho que uma das coisas essenciais quando estamos no estrangeiro é ter os canais portugueses e acesso a toda a informação de Portugal. Para mim, isso é decisivo. Obviamente, acompanho com atenção o futebol português, desde a Primeira Liga à Liga 3. Vou seguindo e, sobretudo à noite, procuro ver sempre alguns jogos destas três ligas, quando é possível. O meu conhecimento e a minha proximidade com o futebol português continuam a ser grandes.
Jamais deixarei de me informar sobre aquilo que é o nosso campeonato e o nosso país. Tenho a certeza de que este ano teremos um campeonato extremamente renhido. Vejo as três equipas ditas grandes muito fortes, com excelentes aquisições, e acredito que a luta pela manutenção também será exigente.

Jorge Jesus na seleção: "Dificilmente poderia haver melhor escolha do que o mister"
- Ainda uma última questão. Está cada vez mais próxima a estreia de Jorge Jesus como selecionador de Portugal. Qual é a sua expectativa para este trabalho?
A expectativa é enorme. Estamos a falar de um dos melhores treinadores portugueses de sempre, com um historial de bom futebol, intenso, agressivo no bom sentido e com muita organização. Defensivamente, não defende com muitos, defende com poucos, mas muitas vezes defende bem.
É também um treinador muito responsável pelo facto de o técnico português ser hoje tão respeitado. Portanto, a expectativa é enorme para que consiga transformar aquilo que é um grupo de grandes jogadores numa equipa, algo que não aconteceu neste Mundial, muito longe disso.
Dificilmente poderia haver melhor escolha do que o mister. Existem outros nomes que também são fortíssimos, obviamente, mas a minha expectativa é grande. Tenho a crença de que vamos jogar um futebol diferente, muito mais atrativo e entusiasmante do que aquele que aconteceu nos últimos anos.
