Numa espécie de digressão de despedida dos cityzens, o médio de 31 anos tem falado sobre o passado, presente e o futuro.
Em entrevista à DAZN dividida em duas partes, no contexto do documentário "bernar20: Adeus, Manchester", o internacional português abriu o livro, revelou "cansaço" quanto ao tema do regresso a Portugal e explicou a relação com Pep Guardiola e porque considera o Liverpool como o grande rival dos últimos tempos.
O "erro" do Benfica que abriu os olhos ao Seixal
Para Bernardo Silva, a formação encarnada viveu anos de profunda desconfiança, algo que só mudou quando a estrutura foi forçada a ver a realidade do mercado. O médio recorda que se criou uma ideia de que o jogador da casa não servia, até que a sua própria geração foi empurrada para a saída.
"Quando cometem o erro de deixar a nossa geração toda sair, que depois acaba por ter muito sucesso, eu acho que foi um acordar para: 'Calma aí, afinal a formação do Benfica se calhar serve'. E eu acho que a geração a seguir à nossa já é aproveitada, quando olhamos, por exemplo, para o (João) Félix, para o Renato (Sanches), para o Gonçalo Guedes... Vemos que, se calhar, a nossa geração serviu um bocado para voltar a acordar", indicou.
O esquerdino compara o cenário com os rivais, apontando que o Sporting sempre conseguiu lançar e formar com facilidade, e o FC Porto também o fazia, embora não com a mesma frequência. Bernardo assume-se orgulhoso por ter feito parte de uma vaga cheia de talento na Luz.
"Tive muita sorte da minha geração. Tivemos muita malta que teve muito sucesso. Olhando desde o (João) Cancelo, que é da minha idade, e que estive com ele sete anos no Benfica, para depois outros colegas de equipa, como por exemplo o Fábio Cardoso, que fez um caminho diferente e depois acabou por ir para o FC Porto, ou o Bruno Varela, ou mesmo rivais como o Bruno (Fernandes) ou como o (João) Palhinha. O (Ricardo) Horta, um grande amigo, que acaba por sair do Benfica e agora faz um caminho espetacular no SC Braga e outros exemplos. Mas é bom ver que conseguimos tantos de nós ter sucesso e chegar onde queríamos chegar", atirou.

O cansaço do "tema regresso" e o apelo à Liga Portugal
Embora nunca esconda o amor ao clube, o camisola 20 dos citizens assume algum cansaço com a insistência do mercado e as perguntas repetitivas da imprensa sobre o seu retorno à Luz.
"Nunca foi tema para mim. Acaba só por ser um bocado frustrante porque, depois de eu responder à mesma pergunta vinte vezes, começava a ser cansativa até para os próprios adeptos do Benfica. Eu sempre o disse e continuo a dizer que tenho o objetivo de um dia voltar ao meu clube, mas a pergunta no contexto de ir jogar um jogo de Champions contra o Sporting acho que não faz nenhum sentido. Tenho os meus objetivos, eu sei perfeitamente aquilo que eu quero para a minha vida. O que as outras pessoas imaginam e falam, e elogiam ou criticam, hoje em dia, já me é bastante pouco relevante", admitiu.
Com a maturidade, Bernardo garante que aprendeu a dar pouca relevância ao ruído exterior e foca-se no crescimento do futebol nacional, defendendo que a Liga Portugal devia prender mais os seus craques.
"Nós olhamos para a seleção e o número de jogadores nos melhores clubes aumentou muito. Por um lado é espetacular, por outro acho que podíamos fazer um esforço maior para guardar um bocadinho mais os nossos melhores jogadores na nossa liga e fazer da nossa liga um bocadinho melhor. Mas é o que é, é o mundo do negócio", prosseguiu.
A "dureza" da Premier League e a farpa ao antijogo
A despedida de Inglaterra deixa marcas físicas, e Bernardo confessa que o corpo já pede outra intensidade, ironizando com o desgaste do futebol britânico.
"O futebol inglês é duro. Foram nove anos. Nós brincamos às vezes e dizemos que um ano de Premier são dois de qualquer outra liga. Todas as equipas são muito competitivas e têm uma capacidade financeira muito grande para ir buscar os melhores jogadores. Se olharmos mesmo para as equipas de baixo, todas elas têm jogadores de nível brutal. Deixar de jogar à mais alta intensidade a cada três dias já me vai saber um bocadinho bem, até pela idade", considerou.
Ainda assim, há um aspeto do critério de arbitragem que vai deixar saudades e que serve de crítica às ligas do sul da Europa.
"Vou ter saudades do apito não ser um apito fácil, como vemos em algumas das nossas ligas de lá de baixo da Europa, que é uma coisa que me irrita profundamente: ver que o jogador batoteiro é recompensado sempre que se manda para o chão. Irrita-me muito", apontou.
Sobre os adeptos ingleses, o médio destaca o civismo nos momentos difíceis, em claro contraste com o que se vive em Portugal: "Eles percebem que nós somos os primeiros a ficar frustrados quando não ganhamos. Nos nossos países, nós levamos o nosso amor pelo futebol um bocadinho ao extremo em algumas situações".
Guardiola para a vida e a verdadeira rivalidade com o Liverpool
A evolução sob o comando de Pep Guardiola foi um dos pilares destes nove anos em Manchester. Bernardo descreve uma cumplicidade que foi crescendo com o tempo e que promete manter fora das quatro linhas.
"A relação com o treinador é gradual. Começa a ganhar força com as experiências, com o sucesso, com as frustrações, com ultrapassar os momentos bons e maus todos juntos. E com esse amor pelo futebol, pela parte tática... todas essas coisas que temos em comum acabou por fazer com que a relação ficasse bastante forte. Tenho a certeza de que quando ele deixar de ser meu treinador vamos continuar a ter uma boa relação e, se um dia estivermos na mesma cidade, sempre que puder vou almoçar ou jantar com ele", vincou.
No momento do balanço, o internacional português desvalorizou o Arsenal e deixou claro qual foi o grande rival da sua era em Inglaterra.
"Em oito épocas, o Manchester City ganha seis e o Liverpool ganha duas. Estou a falar da minha experiência. Eu não consigo comparar a nossa rivalidade com o Arsenal com a do Liverpool, porque para mim os nossos rivais sempre foram o Liverpool. Foi uma rivalidade muito dura, espetacular, e de que nos orgulhamos muito", apontou.
O recorde ameaçado e as picardias com Bruno Fernandes e Pedro Neto
Bernardo Silva despede-se como o português com mais jogos na história da Premier League, um feito que assume que não irá durar muito tempo.
"Acho que não por muito mais tempo, porque vejo os números e o Bruno (Fernandes), o (Pedro) Neto ou o Rúben (Dias), ficando mais uns aninhos, vão conseguir passar esse recorde. Ficaria muito feliz por eles, é um sinal de que os portugueses se conseguiram manter ao mais alto nível", referiu.
Essa convivência gerou histórias deliciosas de bastidores e picardias em pleno relvado com os companheiros de seleção que Bernardo recorda com grande sorriso.
"O Pedro Neto passa o jogo todo a falar. No último jogo ele só me dizia assim: 'És cagão, és cagão, não vens uma vez para cima de mim'. E depois ele veio uma vez na segunda parte, eu tirei-lhe a bola e comecei logo a falar para ele outra vez. É engraçado ter estes momentos", contou.
No entanto, as conversas com o capitão do Manchester United conseguem ser ainda mais animadas.
"Com o Bruno as picardias são mais engraçadas. Lembro-me uma vez, contra o United, a bola já tinha saído e eu dei um troca-pés ao Bruno. Lembro-me dele olhar para mim com uma cara de nojo e dizer-me assim: 'Oh Bernardo, isso não'. Esta competição que temos dentro de campo e depois, quando acaba o jogo, conseguirmos ser grandes amigos... acho que é espetacular", finalizou.

