Leia a primeira parte da entrevista a Marcel Desailly
Na segunda parte da nossa entrevista exclusiva com Desailly, a lenda francesa falou com o Flashscore sobre as dificuldades dos seus antigos clubes Chelsea, AC Milan e Marselha, e sobre o que precisam de fazer para regressar ao bom caminho.
- O Chelsea está a atravessar um período muito difícil e teve uma época complicada, havendo por vezes a sensação de que os proprietários não sabem bem o que estão a fazer e que o seu plano é errático. Acredita que a chegada de Xabi Alonso como treinador vai mudar as coisas para melhor?
- Estes proprietários compraram o clube por alguns milhares de milhões. Depois gastaram milhares de milhões em jogadores para os integrar num sistema. Portanto, tinham um plano. Tinham um plano, pessoal. Decidiram que iam contratar jogadores jovens, jogadores talentosos. Para os contratar, tiveram de pagar mais do que o valor deles. Mas para eles, disseram: 'Ok, estando no nosso sistema, a expressão do talento deles no sistema, o preço mais tarde vai corresponder ao valor deles.' Portanto, o primeiro ano não correu bem. O segundo ano não foi bom. No terceiro ano, bingo. Ganharam a Liga Conferência. E ganharam o Mundial de Clubes. Bingo. A maioria dos jogadores que contrataram por valores elevados, naquele momento, já justificavam o preço pago por eles.

O problema é que provavelmente não ouviram o treinador (Enzo Maresca). Não integraram um jogador experiente no sistema. Precisavam de três jogadores experientes para lidar com as exigências da Premier League. A Premier League exige que, sempre que jogas a alta velocidade, tenhas de ler o jogo, tens de perceber o jogo. Como abrandar, como acelerar. Este foi o problema que tiveram. Não ouviram o seu treinador por causa da época que fizeram. Porque essa era a chave. Um guarda-redes experiente, um defesa ao nível exigido. Parar de usar o (Enzo) Fernández como organizador da equipa. Não! Ele é um médio defensivo. Muito inteligente. O (Moises) Caicedo precisa dele ao lado para conseguir ler e perceber o jogo. Colocar um avançado experiente, um jogador que seja titular na sua seleção, que consiga realmente ler o jogo. E o (Cole) Palmer precisa de desenvolver uma mentalidade ganhadora e de matador. Se as coisas correrem mal, sente mesmo a dor? Percebe realmente o talento que tem? Ele pode ser um vencedor da Bola de Ouro. Portanto, é preciso líderes no sistema. É nisto que penso, vezes sem conta. O Chelsea, do ponto de vista tático, na utilização dos jogadores, dos talentos, não há dúvidas. Faltaram apenas esses pequenos detalhes sob o comando de Maresca. Qualquer treinador que coloques no sistema será exatamente igual. Na Premier League, não chega. Vais andar aos altos e baixos.
- Tem sido crítico em relação ao Chelsea. Os problemas atuais têm origem no próprio plantel?
- Sim, sem dúvida. Vamos ver o que vão fazer. Também, quando tiveram o (Mauricio) Pochettino, por exemplo, foi uma boa escolha. Ele é um bom treinador. Não há dúvidas disso. Mas deram-lhe jogadores jovens que era preciso fazer crescer. O Pochettino não quer tratar dos jogadores como se estivesse a treinar a academia. Ele quer jogadores de topo. Portanto, já se perdeu algum tempo, porque as ferramentas que lhe deram não eram as melhores. Percebes? Por isso, o Xabi Alonso hoje é o treinador perfeito. Apesar de em Madrid não ter conseguido implementar a sua filosofia, porque esse é o espírito de Madrid. Não podes chegar e dizer o que quiseres. Tens o ego dos jogadores, que provavelmente foi para ele um verdadeiro desafio, fazê-los adaptar-se à sua filosofia.

Já não tens o (Luka) Modric, já não tens o (Toni) Kroos para estabilizar um pouco a equipa. Por isso, ele perdeu-se, e é compreensível. Mas para o Chelsea, é a escolha certa. É a escolha certa porque consegue lidar com jogadores jovens ou inexperientes. Já o demonstrou no Bayer Leverkusen. E se for suficientemente inteligente para reforçar a equipa com aquilo que já dissemos antes – jogadores experientes – então veremos novamente o Chelsea na próxima época. O único problema que temos hoje é que o Chelsea tem de resolver a questão do número de jogadores que tem no sistema. Portanto, quando tens o Alonso, e ele diz: 'Olhem, vou jogar com três defesas. Esta é a minha filosofia; os jogadores que estão cá hoje não se encaixam na minha filosofia. Preciso de mudar para o (Wesley) Fofana, que esteve bastante bem esta época, ou para o (Trevoh) Chalobah. É um bom jogador, mas não se encaixa comigo a jogar com três, ou por vezes a alternar de três para quatro.' Portanto, mais uma vez, o Chelsea tem de rever o grupo de jogadores que tem para corresponder à filosofia do treinador que está em funções e que precisa de ajustar. Cada treinador que pôde escolher um a um os seus jogadores teve sucesso. Luis Enrique, (Pep) Guardiola, (Hansi) Flick."
- Tal como o Chelsea, outro dos seus antigos clubes, o AC Milan, também está a ter dificuldades para regressar ao topo. Ficaram fora da Liga dos Campeões e houve uma reestruturação: Massimiliano Allegri foi despedido, tal como o CEO, o diretor técnico e o diretor desportivo. Era necessário ir tão longe? Qual é a sua opinião?
- Quantos italianos tens na equipa? Precisam de estabilidade. Precisam de uma base. Contrataram um treinador que, tecnicamente, tem esta mentalidade vencedora, mas infelizmente, tens de lidar com um (Rafael) Leão que está aos altos e baixos, e o Christian Pulisic também está aos altos e baixos. O Modric entra no sistema para tentar estabilizar um pouco. Esteve razoável, mas não chega. Não há mentalidade vencedora nos jogadores. Falta uma mentalidade de matador na base que o AC Milan precisa, com a história que tem. Têm de rever parte do plantel que têm. Éramos uma boa equipa, mas tínhamos muitos italianos. Eles eram realmente a base para criar uma era. Todos eram jogadores de nível internacional. Além disso, o AC Milan agora não beneficia dos melhores jogadores que poderiam estar na seleção nacional. Diz-se que os italianos gostam de ficar no seu país, tudo bem. Portanto, significa que entre a Juventus, o Inter de Milão, o Nápoles e o AC Milan, deveriam existir jogadores de topo da seleção italiana. Mas não beneficiam disso. São quase só estrangeiros, sem a mentalidade vencedora para o AC Milan.
Portanto, é um verdadeiro problema no sistema. É mesmo um problema. Estava a falar daquela equipa do AC Milan com (Alessandro) Nesta, (Paolo) Maldini, (Andrea) Pirlo, (Filippo) Inzaghi e muitos mais. (Massimo) Ambrosini, (Gennaro) Gattuso. Percebes? O espírito estava lá. Tinhas a base. Falavas italiano no balneário. Não falavas inglês. Percebes? E estavas realmente comprometido. Eles estão comprometidos, mas faz parte dos pequenos detalhes, sabes? Por vezes, no futebol, são os detalhes e o espírito que fazem a diferença no desempenho global.
"Vais para a guerra com o Rafael Leão? Não"
- Acha que o Zlatan Ibrahimovic é a pessoa certa para devolver o AC Milan à sua glória?
- Acho que tem potencial, mas é também um reflexo da seleção nacional. Não estão a render, já não há liderança. O Inter esteve bem esta época – não na Liga dos Campeões – mas pelo menos a nível de Liga. Mas falta de italianos. O exemplo perfeito é o Rafael Leão. Vais para a guerra com o Leão? Sabes que tem qualidade, mas vais para a guerra? Não. Portanto, precisa de ser puxado. Se ele é o líder, é um problema. Tem de ser, percebes, puxado. Na seleção, vês o Rafael Leão, porque têm o Vitinha, o Cristiano (Ronaldo), o (Nuno) Mendes e muitos mais, vês um espírito diferente. Mas quando ele é a primeira escolha no sistema, torna-se um problema. É o exemplo perfeito do espírito do AC Milan. A liderança devia ser entregue a outros. Ele é talentoso e deve confiar nesse talento, mas nunca poderá ser um líder. Não sei realmente qual é a posição dele (Ibrahimovic). Não sei qual é a sua influência. A menos que estejas dentro do sistema, não percebes realmente. Não sei, sinceramente, qual é o seu poder para dizer: 'Ok, na próxima época despachamos este, este e este.'
Quando faz a apresentação à direção, será que apresenta à direção: 'Olhem, acredito que, para além do que o treinador pensa, esta é a minha convicção. Temos quatro ou cinco jogadores que não se encaixam na filosofia e na liderança que temos, e devíamos trazer mais italianos, que não encontramos.' Esse é o problema de conseguir que o AC Milan volte ao nível de outrora. Portanto, sim, direi que ele é o homem certo, mas será que o Milan lhe dá o poder para tomar esse tipo de decisões? Como antigamente, com o Ariedo Braida. O Ariedo Braida era o diretor desportivo do AC Milan. Ele contratava todos os jogadores para o sistema. Quando saí, veio o Gattuso. Quando saiu o (Frank) Rijkaard, veio o Desailly. Percebes? Eles tinham mesmo a compreensão e o poder de tomar decisões.
- Outro dos seus antigos clubes voltou às manchetes: o Marselha- Criticou recentemente os jogadores nos Prémios Laureus e apoiou os comentários de Medhi Benatia, antigo diretor de futebol do clube. Lamenta a sua saída e qual é a sua opinião geral?
- Não critiquei os jogadores. Apenas concordei com o que o Benatia disse. Perdes um jogo, fica triste, fica aborrecido, mostra compromisso. Percebes? E, desse ponto de vista, concordei com o que ele disse. Vamos sentir a sua falta, sim, porque tentou muito. Mas há um elemento que precisam de considerar. Marselha, Nápoles, onde mais posso encontrar? Talvez o Galatasaray. É um clube em que, quando contratas um jogador, ele tem de ter uma grande capacidade para lidar com a pressão nos jogos porque o seu estilo de vida muda. Quando vai à cidade, vai ser abordado de uma certa forma. O estilo de Nápoles, o estilo de Galatasaray, o estilo de Marselha. Além disso, a sua própria responsabilidade de evoluir e render. Percebes? Este é o problema. Tens jogadores que não conseguem lidar com a pressão externa que Marselha impõe. Os adeptos, os apoiantes. Sim, em todo o lado é igual. Mas Marselha é um pouco diferente. Joguei lá. Tens uma pressão extra.

Há também um elemento em Marselha, fala-se muito, surgem informações erradas por todo o lado, constantemente. Falsas e verdadeiras. Portanto, é um elemento que distrai e perturba os jogadores se não forem de outro nível, se não forem jogadores que, percebes, consigam lidar com isso. E é por isso que acho que o seu desempenho, no início da época, foi excelente. Estavam em 2.º lugar na tabela. E de repente, começaram a oscilar. O (Robert) De Zerbi, que é um bom treinador, pode ter sido demasiado inteligente para o Marselha, no fim de contas. O De Zerbi quis mudar a tática, quis mudar a posição dos jogadores. Demasiado inteligente, no fim, para o Marselha, que precisa de estabilidade no cargo de treinador e de saber lidar com a pressão. Isto é fundamental. A próxima equipa que a direção construir, tem de considerar a questão de como é que este jogador lida com a pressão?
