Escândalo de arbitragem em Itália: "pedra, papel ou tesoura" como código no VAR

Árbitro no VAR
Árbitro no VARSTEFANO RELLANDINI / AFP

Desde as alegadas interferências na sala de Lissone até ao sistema de gestos entre os responsáveis pelo VAR: a Procuradoria recolhe áudios e vídeos. Sob escrutínio, o papel do designador e a autonomia na tomada de decisões durante os jogos.

O caso que envolve o sistema de arbitragem italiano continua a trazer novos detalhes e revelações, enquanto a investigação da Procuradoria de Milão aprofunda as supostas interferências na gestão do VAR. No centro da polémica permanece Gianluca Rocchi e o seu papel na sala de Lissone, embora à volta surjam relatos e interpretações que já circulavam há algum tempo no meio da arbitragem.

De acordo com algumas reconstruções críticas, não se trataria apenas dos toques na porta que chamaram a atenção dos investigadores, mas sim de um verdadeiro sistema informal de comunicação.

O "Gioca Jouer"

Uma dinâmica que, com alguma ironia, alguns apelidaram de "Gioca Jouer", numa referência à famosa canção de Claudio Cecchetto: uma sequência de sinais gestuais usados para orientar as decisões dos responsáveis pelo VAR nos momentos mais delicados.

Uma linguagem não verbal baseada em indicações rápidas: uma mão levantada para sugerir que não intervenham, um punho fechado para convidar o árbitro a ir ao ecrã. Episódios que, se confirmados, levantariam sérias dúvidas sobre a autonomia dos oficiais de jogo. No entanto, resta saber se se trata de exageros nascidos de tensões internas ou de elementos que possam reforçar a acusação.

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O caso Udinese-Parma

Entre os casos incluídos na investigação destaca-se o que aconteceu durante o Udinese-Parma de 1 de março de 2025. Nessa ocasião, segundo os investigadores, o supervisor do VAR terá influenciado a avaliação do responsável pelo VAR, Daniele Paterna, que inicialmente não pretendia assinalar o penálti. 

Uma mudança repentina de critério que levou depois à revisão no ecrã por parte do árbitro Fabio Maresca. O ponto central é precisamente este: o regulamento não permite que o designador intervenha nas decisões durante o jogo.

A sala de Lissone

A sala VAR de Lissone, criada para garantir independência e transparência, corre o risco – segundo a acusação – de se transformar num local de condicionamento, traindo o espírito da tecnologia introduzida para reduzir erros. Entretanto, os investigadores estão a analisar material áudio e vídeo recolhido nos últimos dois anos dentro da sala de controlo. Um trabalho minucioso que poderá esclarecer se por detrás do chamado "Gioca Jouer" existe apenas folclore ou uma prática sistemática.

No seio do coletivo de árbitros, entretanto, surgem testemunhos contraditórios. Há quem garanta que estas dinâmicas eram conhecidas, mesmo não sendo permitidas pelo protocolo, e quem sublinhe que a ausência de figuras de peso na sala VAR, após a introdução de controlos mais rigorosos, coincidiu com um aumento dos erros. Uma contradição que alimenta ainda mais o debate sobre o equilíbrio, o controlo e a autonomia na arbitragem moderna.

Os ex-árbitros

Os investigadores estão a rever materiais de áudio e vídeo recolhidos nos últimos dois anos para apurar eventuais responsabilidades. Ao mesmo tempo, também vêm a público testemunhos do universo da arbitragem. O ex-árbitro Daniele Minelli declarou à Agi que já se falava destas dinâmicas no meio, e destacou outro aspeto: desde que a presença da procuradoria federal alterou os procedimentos em Lissone, o número de erros de arbitragem terá aumentado de forma notória.

"Os toques na porta na sala VAR? No meio comentava-se e sabia-se que o protocolo não o permitia – garante o ex-colegiado –. Desde que Rocchi e os seus adjuntos deixaram de ir a Lissone, porque a Federação impôs a presença da procuradoria federal na Sala VAR após a denúncia de Rocca, os erros de arbitragem multiplicaram-se de forma devastadora".

Gianluca Rocchi
Gianluca RocchiAFP

Um sistema de sinais codificados, composto por gestos repetidos e partilhados nas concentrações de árbitros, sobre o qual também falou à Agi o ex-árbitro Pasquale De Meo, que o descreve como uma prática que, segundo ele, "todos no meio conheciam". De acordo com a sua versão, tratava-se de uma linguagem gestual utilizada por Rocchi e Gervasoni para orientar as intervenções do VAR. "Eram gestos combinados nas reuniões reservadas dos árbitros que se realizavam todas as semanas. Por exemplo, um deles era o de 'pedra-papel-tesoura'. Fazer gestos a partir das janelas era um hábito. Todos sabiam e viviam isso com desconforto".

Uma dinâmica que, se confirmada, iria contra os princípios do protocolo VAR. "O VAR e o AVAR estão designados precisamente para serem autónomos: ninguém pode intervir de fora", sublinha De Meo. O problema, contudo, não seria apenas a existência do sistema, mas a sua aplicação seletiva. "Por que razão em alguns jogos se dava esse sinal e noutros não? Assim acabava-se por adulterar a Liga".

Quanto aos motivos, o ex-árbitro não fala numa orientação para favorecer clubes concretos, mas aponta para uma lógica interna relacionada com as avaliações profissionais: os eventuais erros não corrigidos podiam afetar a carreira dos árbitros.