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Francesco Guccini faleceu aos 86 anos: a inicial aversão ao futebol, depois... Platini e a Juventus

Francesco Guccini
Francesco GucciniGIUSEPPE MAFFIA / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

Francesco Guccini, célebre cantautor emiliano, morreu aos 86 anos. Nas suas entrevistas, contou a sua relutância pelo mundo do futebol, que nem sequer o contagiou em Bolonha durante o título de 1964. Depois descobriu Platini e a simpatia pela Juventus.

"Sou um dos pouquíssimos italianos que em criança nunca deu um pontapé numa bola".

Francesco Guccini deixou-nos. O célebre cantautor emiliano, autor de temas poéticos e repletos de questões sociais e políticas que marcaram a história da música italiana como "La Locomotiva", "Dio è morto" ou "Cirano" e de mais de vinte álbuns, faleceu esta manhã em Pavana, na província de Pistóia, aos 86 anos. 

Nascido em 1940 em Modena, quatro dias após a entrada de Itália na guerra, o jovem Guccini, ao contrário dos seus colegas, não tinha paixão pelo futebol, bem pelo contrário. Como gostava de recordar: "Sou um dos pouquíssimos italianos que em criança nunca deu um pontapé numa bola". 

Nem sequer em Bolonha, para onde se mudou para estudar línguas na Universidade, nesse longínquo 1964, ano glorioso para a cidade que celebrou o segundo título do clube após o desempate frente ao Inter, a euforia contagiou-o: "Lembro-me que tinha de fazer o exame de italiano, era 64, do futebol não me interessava nada, ao contrário dos meus amigos fervorosos adeptos do Bolonha e que ainda por cima jogavam futebol. A certa altura ouço um barulho enorme na rua. Mas o que é este barulho? O Bolonha tinha acabado de vencer o Inter no desempate, o do título. Eu tinha de estudar..." 

O Bolonha do título em 1964 no desempate contra o Inter
O Bolonha do título em 1964 no desempate contra o InterTopFoto / Topfoto / Profimedia

Nem sequer tentar convencê-lo a ir ao estádio resultou: "Um primo do meu primo, Maino Neri, que depois jogou no Inter, na altura em que vestia a camisola do Modena arranjou-me bilhetes e, em criança, fui ver um Modena-Sampdoria 0-0. Que seca, minha nossa. Um tédio tal que durante anos não voltei a ver um jogo. Só voltei a interessar-me depois dos Mundiais ganhos em 82". 

A simpatia pela Juve e Platini

Aquele ano mágico para as cores azuis mexeu com algo no coração do poeta, e quando Michel Platini chegou a Turim, a sua classe, inteligência e uma certa arrogância snobe conquistaram-no e aproximaram-no ainda mais do futebol: "Sempre tive uma simpatia distante pelo Platini. Há anos que vejo todos os jogos da Juve. Em Bolonha não gostam muito da Juve? Muitas vezes falo com o meu amigo Giorgio Comaschi, fervoroso adepto do Bolonha. Quando a Juve venceu o Barcelona, disse-me: “Eh pá, mas eles jogavam muito abertos…”. Agora, sempre que o Bolonha perde, ligo ao Comaschi: “Então, por que jogaram tão abertos?".

Michel Platini em ação contra o Argentinos Juniors na Taça Intercontinental de 1985
Michel Platini em ação contra o Argentinos Juniors na Taça Intercontinental de 1985AFP PHOTO (Photo by AFP)

A história de Faragò: camisola em sua homenagem

Uma simpatia, essa pelos bianconeri, que Guccini guardou para si e para os amigos, mantendo-a desconhecida dos adeptos. Tanto que, como contou numa entrevista à Gazzetta dello Sport, quando o defesa calabrês Paolo Faragò se transferiu para o Bolonha vindo do Cagliari e pediu o número 43 em homenagem a "Via Paolo Fabbri 43", canção e álbum de Guccini, o cantautor ficou surpreendido: "Nunca na vida teria pensado numa coisa destas. Inusitado e bonito. Engraçado, simpático, original. No passado, outros dois futebolistas já tinham declarado publicamente que apreciavam as minhas canções: um que jogava no Inter, que até foi a um concerto meu, e outro no Pescara. Depois o Zoff: no seu livro conta que ouvia sempre as minhas músicas. Mas que alguém me dedicasse o número da camisola, bem, isso sinceramente é inédito. Nunca na vida teria pensado numa coisa destas…".

O encontro com Sarri

Entre os fãs de Guccini não estavam apenas futebolistas, mas também treinadores. O jornalista Marino Bartoletti recorda nas redes sociais o encontro à mesa, entre copos de vinho e café, entre o cantautor e Maurizio Sarri, que pediu ao cronista esse favor. O novo treinador da Lazio queria há muito tempo conhecer, como velho fã, o artista nascido em Modena e Bartoletti tratou de organizar o encontro. Falou-se de futebol e música, entre prognósticos para o campeonato e perguntas sobre Cristiano Ronaldo. Quando o técnico lhe perguntou se nasce primeiro o texto ou a música, Guccini respondeu-lhe: "O que nasce é sempre uma ideia, caro Maurizio”. Ideias, mas também ideais de que precisamos não só para enriquecer a música, mas também a vida e o próprio futebol. Guccini sabia-o bem.

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