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O futebol moderno exige aos laterais duas funções em simultâneo: controlar o corredor e criar jogo. Durante grande parte da sua passagem por Roma, Nuno Tavares deu a impressão de conseguir cumprir apenas metade da missão, com lampejos de talento seguidos de desconcentrações e de uma consistência emocional que levantava dúvidas.
No entanto, frente à Juventus, contou uma história diferente. E fê-lo a partir de uma zona do campo onde normalmente não se encontra um lateral.

A posição
O momento-chave surgiu aos 66 minutos, com a Lazio a vencer por 0-1. O número 17 já estava no coração do campo, antes mesmo de muitos dos seus companheiros ofensivos terem ocupado as suas posições.
A Juventus tenta defender de forma compacta e Tavares lê a vantagem no lado mais débil. Com a qualidade técnica de um médio puro, lança um passe diagonal que rasga o bloco da equipa de Turim e encontra Isaksen, que flete da direita para o centro e bate Vicario. É o 0-2 que acaba com as esperanças da equipa de Spalletti.
O que impressiona não é a qualidade do passe, mas o pensamento que o antecede. Tavares sabe onde os companheiros vão estar porque conhece os esquemas ofensivos da equipa. É aí que se nota o trabalho de Gattuso, que voltou a colocá-lo em condições de participar também na fase ofensiva.

Um lateral que entra no terreno
O golo frente ao Monza, a outra imagem marcante da época, conta a mesma história a partir de um ângulo diferente. Nos primeiros minutos, Nuno Tavares deixa o corredor livre e desloca-se para uma zona morta do campo, um movimento impensável com Sarri.
O movimento para dentro baralha a defesa da equipa da Lombardia: os adversários não se apercebem da superioridade numérica que se forma no centro e ele fica livre para rematar a 29 metros.
São dois movimentos com a mesma origem. Gattuso ampliou-lhe o raio de ação e, assim, o português atua como organizador de jogo oculto ou como médio que surge por dentro, em vez de ser apenas um homem de corredor.

Os números
Os números do campeonato confirmam o cenário. Tavares já soma um golo e três assistências e é o melhor assistente da equipa. Atinge os 36 km/h, o valor mais elevado do plantel, e faz quase 16 sprints por jogo. O seu volume de jogo subiu para 73,6 toques, contra 61,1 na época passada, com 38,6 passes certos, metade dos quais no meio-campo adversário.
A fase defensiva também beneficia: 4,4 bolas recuperadas por jogo, contra 3,5 na época passada, confirmando que, ao defender mais adiantado e pressionar para a frente, recupera-se mais vezes a bola.
Frente à Juventus, o balanço foi de cinco bolas recuperadas, seis duelos ganhos, três passes-chave e dez quilómetros percorridos. Para fechar a noite, faltou apenas o golo, negado pela trave aos 44’.
Cabeça e músculos
Por detrás da transformação tática está também uma mudança de mentalidade, algo que Gattuso nunca procurou esconder. O antigo selecionador italiano soube alternar entre a exigência e o incentivo para tirar o melhor do jogador. O início, porém, esteve longe de ser fácil, com alguns momentos de tensão pelo caminho. A razão está resumida numa frase: "custa-me suportar quem tem talento e o desperdiça". Essa exigência retirou a Tavares a desculpa da indolência e fê-lo sentir-se o líder técnico do corredor esquerdo.
Depois, há uma parte do trabalho que não se vê. A carreira do português foi marcada por contraturas e problemas musculares que lhe quebravam o ritmo. Esta época, a rotina física foi reformulada para preparar os isquiotibiais para suportarem o elevado número de quilómetros a alta velocidade.

O próximo desafio
Agora, a Lazio tem dois desafios para vencer. O primeiro é o duelo com o Parma, para dar continuidade ao percurso vitorioso e manter-se no topo da classificação após oito jornadas. O segundo diz respeito a Nuno Tavares: acompanhá-lo no seu crescimento, para ter um jogador-chave capaz de continuar a proporcionar muitas alegrias aos adeptos da Lazio.
Fica uma pergunta, a mesma que acompanhou o lateral formado no Benfica ao longo de toda a carreira: se o motor vai aguentar. Os números dizem que a evolução tática está completa. Agora, cabe ao campo demonstrar que a resistência também está.
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