Reportagem: Como o caos contra o Flamengo levou o Atlético-MG a revolucionar a segurança na Arena MRV

Reconhecimento facial antes de entrada na Arena MRV
Reconhecimento facial antes de entrada na Arena MRVAtlético-MG

As cenas de confusão e tentativas de invasão na final da Taça do Brasil de 2024, contra o Flamengo, tornaram-se o divisor de águas tecnológico da Arena MRV. Após enfrentar falhas críticas nos sistemas de acesso naquela decisão, o Atlético-MG reformulou os seus protocolos de segurança, implementando um sistema de reconhecimento facial integral e parcerias com gigantes globais do setor.

Em entrevista exclusiva ao Flashscore, o diretor de Tecnologia e Informação da Arena MRV, Leandro César Evangelista, detalhou como o estádio se reorganizou para erradicar as brechas exploradas no passado.

"O gatilho foi um erro de tecnologia de um parceiro antigo que gerou as confusões. Foi realmente o pior momento da Arena até hoje, o que nos deixou muito tristes, mas precisávamos dar uma resposta imediata ao adepto", revelou o diretor.

Falha na final e a reformulação

Segundo Leandro César Evangelista, o clube sempre priorizou a segurança e já possuía a visão de um estádio tecnológico desde 2020. No entanto, o jogo contra o Flamengo expôs uma fragilidade no antigo fornecedor de software. Quando os portões abriram, uma lentidão no sistema impediu a leitura dos ingressos, tanto na esplanada quanto nas entradas internas.

"Os ânimos acabaram por ficar inflamados e as pessoas que não querem torcer, os marginais, descobriram essa falha, essa demora, e começaram a comunicar entre si: 'vamos invadir porque eles não estão a ler os bilhetes'. O caos instalou-se", contou o diretor. 

Perante este episódio, a direção do Atlético-MG rompeu o contrato anterior e procurou no mercado internacional a Fortress (empresa inglesa que atende arenas da NFL e da Premier League) e a NewC (gigante dinamarquesa que trabalha na comercialização de ingressos e outras soluções de matchday). O objetivo foi adaptar o controlo de acesso às particularidades da Arena, onde o fluxo entre os torniquetes e as bancadas é muito curto.

O ingresso é o rosto: Controlo total do perímetro

Ao contrário de outros estádios que mantêm sistemas híbridos (QR Code e facial), a Arena MRV adotou uma postura radical: o acesso para adultos é 100% via reconhecimento facial. O diferencial começa logo no exterior, antes mesmo do adepto chegar aos torniquetes.

"Somente nós, no mundo, temos esses telemóveis específicos que leem a face das pessoas fora do perímetro. Se acontecer algo com os torniquetes, eu sei que as pessoas que estão a entrar são seguras e compraram ingressos. Esta questão do controlo total do perímetro somente nós temos", revelou Leandro César Evangelista.

A campanha do Atlético-MG para o cadastro da Biometria Facial
A campanha do Atlético-MG para o cadastro da Biometria FacialSite Oficial/Atlético-MG

O hardware para isso, curiosamente, já estava lá. O estádio foi o primeiro do mundo a exigir torniquetes com leitores faciais nativos ainda em 2021, mas a tecnologia de software só atingiu a maturidade necessária após a reestruturação com os novos parceiros.

Acesso dos adeptos na Arena MRV
Acesso dos adeptos na Arena MRVSite Oficial/Atlético-MG

Resultados: Adeptos banidos e regresso das famílias

A eficiência do novo sistema é medida em números e na mudança do perfil do público. Com o auxílio de câmeras de alta resolução, inéditas no Brasil, instaladas nas bancadas, o clube já identificou e baniu cerca de 80 infratores desde a reinauguração do sistema.

"A pessoa não consegue mais entrar, porque a face dela é banida do sistema", explica Leandro César Evangelista.

Essa "blindagem" tecnológica tem incentivado a presença de públicos mais vulneráveis: o Atlético-MG já possui no seu sistema mais de 500 mil faces cadastradas, não apenas de adeptos do próprio clube, mas também dos adeptos visitantes. 

Atlético-MG tem visto o aumento da presença de famílias e crianças na Arena MRV desde as mudanças
Atlético-MG tem visto o aumento da presença de famílias e crianças na Arena MRV desde as mudançasPedro Souza / Atlético-MG

Famílias e Jovens: Em jogos de 30 mil pessoas, por exemplo, cerca de 4 mil presentes são menores de 16 anos.

Novos adeptos: No duelo contra o São Paulo, para o Brasileirão, 10 mil pessoas visitaram a Arena pela primeira vez.

Regresso: Metade do público presente não havia ido a nenhum jogo no ano corrente, indicando uma reconquista da confiança.

Mais segura, Arena MRV é exemplo de gestão
Mais segura, Arena MRV é exemplo de gestãoLuís Amaral / Atlético-MG

Para Leandro César Evangelista, a Arena MRV hoje posiciona-se entre as melhores do mundo no que diz respeito à segurança.

"Não posso dizer que é a mais segura da América do Sul porque não conheço todas, mas tenho a certeza que somos uma das Top 3. Todos esses processos proporcionam um ambiente seguro, as pessoas sentem-se mais relaxadas para apoiar de uma maneira mais efusiva, como a gente quer", conclui o diretor. 

Leandro Evangelista, diretor de tecnologia e informação do Atlético-MG
Leandro Evangelista, diretor de tecnologia e informação do Atlético-MGAtlético-MG/Reprodução