Recorde as incidências da partida
Os Camarões protagonizaram este domingo, em Casablanca, um dos maiores feitos da sua história no futebol feminino. Lideradas por Bihina ao mais alto nível, as Leoas Indomáveis eliminaram a Nigéria (1-0) nos quartos de final da CAN, pondo fim a um jejum de 13 anos frente às Super Águias em provas oficiais e quebrando um domínio quase absoluto das nigerianas desde 1998.
Os Camarões inauguraram o marcador aos 20 minutos, com um excelente livre direto de Myriam Nyadjou, apanhando Chiamaka Nnadozie completamente desprevenida. Mas a verdadeira história da noite desenrolou-se em frente à baliza camaronesa.
Durante mais de 70 minutos, a Nigéria lançou ataque atrás de ataque, com cantos e oportunidades claras, mas nunca conseguiu ultrapassar uma Bihina em estado de graça – decisiva logo aos dois minutos perante Ajibade e sempre presente até ao fim, especialmente com uma defesa dupla crucial antes do intervalo e uma série de intervenções vitais na segunda parte perante Kanu, Ucheibe e Okoronkwo.
Mesmo com a equipa camaronesa completamente esgotada fisicamente no final, a guarda-redes dos quadros do Benfica manteve-se firme até ao apito final.

O muro
Ao longo do jogo, a guarda-redes camaronesa terminou com uma avaliação Flashscore de 9,6, nove defesas, três ocasiões claras negadas, 2,93 golos esperados evitados, três saídas aéreas bem-sucedidas em quatro, dois alívios a soco e 45 toques na bola.
Estes números refletem uma exibição que permitiu a uma equipa que nem sequer tinha convite inicial para esta CAN – foi repescada pelo ranking FIFA após o alargamento do torneio – superar o colosso nigeriano.
Ao apito final, a guarda-redes camaronesa foi a primeira a ser felicitada por toda a equipa, que correu pelo relvado para celebrar a presença nas meias-finais e a qualificação para o Mundial 2027, já que as semifinalistas garantem automaticamente o apuramento para o torneio no Brasil. Bihina desfez-se em lágrimas, dominada pela emoção.
"É um sentimento de orgulho, a nossa qualificação que tanto desejávamos. Conseguimos quebrar a maldição contra a Nigéria, demos a volta por cima. É o trabalho de toda a equipa, não só meu. Estamos muito gratas pelo apoio de Marrocos e pela calorosa receção que tivemos", insistiu ao microfone da CAF.
Justamente eleita jogadora do jogo, foi transportada em ombros por todas as colegas assim que terminou a entrevista – símbolo da incrível exibição que a guarda-redes de 22 anos acabara de assinar.
As suas inúmeras defesas incendiaram de imediato as redes sociais camaronesas. Muitos utilizadores compararam-na a Manuel Neuer e André Onana, elogiando a sua leitura de jogo e autoridade na área, enquanto outros não hesitaram em afirmar que era melhor do que Devis Epassy, o guarda-redes titular da seleção masculina.
No Facebook, um jornalista camaroonês foi ainda mais longe, escrevendo que o país não se entusiasmava tanto com uma guarda-redes desde a exibição de Fabrice Ondoa frente ao Senegal na CAN 2017.
Outros limitaram-se a chamá-la de "heroína nacional".
A guarda-redes que os Camarões esperavam
Nascida a 28 de dezembro de 2003, Kyria Inès Michaely Bihina estreou-se na primeira divisão pelo Canon de Iaundé antes de rumar ao Nkoldongo, clube com o qual conquistou a medalha de prata nos Jogos Africanos de 2019 em Rabate, com apenas 15 anos.
No dia 9 de outubro do mesmo ano, deixou oficialmente o Canon e assinou por duas épocas com o Eclair FF de Sa'a, onde se tornou imediatamente titular.
A sua polivalência destacou-se: em várias ocasiões chegou mesmo a jogar como avançada, onde a sua veia goleadora não passou despercebida.
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Foi também em Sa'a que cruzou caminho com Onana, que, nas suas visitas a casa, partilhou conhecimentos com as guarda-redes do clube sobre saída de bola, leitura de jogo e tomada de decisão sob pressão – experiência que explica em grande parte a sua atual serenidade com a bola nos pés.
Graças a estas exibições, tornou-se presença habitual nas seleções jovens dos Camarões, primeiro nos sub-17 e depois nos sub-20, antes de se estrear pela seleção principal em setembro de 2023 frente ao Quénia nas qualificações para a CAN – partida vencida por 1-0, mantendo já aí a baliza inviolada.

Após terminar contrato com o Eclair FF, desapareceu dos holofotes durante algum tempo, antes de reaparecer em agosto de 2022 em Portugal, onde assinou pelo Racing Power, então na segunda divisão.
A jovem guarda-redes afirmou-se rapidamente como titular indiscutível e rubricou exibições de alto nível: em maio de 2023, ajudou o clube a conquistar o título da segunda liga e a garantir uma histórica subida à primeira divisão. Um ano depois, foi eleita melhor guarda-redes da primeira liga portuguesa, com 14 balizas invioladas, enquanto o Racing Power terminou num notável terceiro lugar na época 2023-2024.
Estas prestações de excelência chamaram a atenção do Benfica, gigante europeu e presença habitual na Liga dos Campeões feminina, que a contratou a 1 de fevereiro de 2026, tornando-a a segunda opção para a baliza. Nos primeiros meses com as águias, já conquistou a dobradinha: Liga e Taça de Portugal.
Com os seus imponentes 1,77 metros e uma carreira que só tem acelerado época após época, Michaely Bihina já era apontada como uma das estrelas desta CAN 2026 mesmo antes do início do torneio.
O jornalista Charles Armel Mbatchou vê-a agora como a sucessora natural de Annette Ngo Dom na baliza das Leoas Indomáveis, à frente de Cathy Biya ou Ange Bawou:
"Sai confiante da baliza, lê bem o jogo e antecipa quando a defesa está subida." Aos 22 anos, com esta qualificação suada frente ao colosso nigeriano, Bihina acaba de atingir um novo patamar numa carreira que parece agora destinada ao topo do futebol africano.
