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Feminino: Tabitha e Temwa, as irmãs Chawinga que fazem o Malawi sonhar alto

Tabitha e Temwa, as irmãs Chawinga
Tabitha e Temwa, as irmãs ChawingaCAF Online

Nada fazia prever que Temwa e Tabitha Chawinga se tornariam as maiores figuras do desporto malawiano. Outrora castigadas pelos pais por ousarem jogar à bola, as duas avançadas conduziram a sua nação a um feito retumbante frente à Nigéria (3-2) na CAN-2026. A história fascinante de um duo que carrega às costas o destino de todo o Malawi.

Recorde as incidências do encontro

Este é um momento para recordar durante muito tempo. Na terça-feira à noite, em Rabate, o Malawi protagonizou um dos maiores feitos da história da Taça das Nações Africanas feminina ao derrotar a Nigéria, vencedora da prova por dez vezes, por 3-2. Uma vitória inteiramente atribuída a uma só família: as irmãs Chawinga. Temwa, avançada do Kansas City Current, bisou na partida. A sua irmã mais velha, Tabitha, capitã da seleção e jogadora do OL Lyonnes, assinou o golo do 2-0. Juntas, marcaram todos os golos do Malawi naquele que ficará como um dos maiores choques desde a criação do torneio, há vinte e oito anos.

Na sua estreia absoluta na Taça das Nações Africanas feminina, o Malawi defrontava, em teoria, o adversário mais difícil possível. A Nigéria ocupa o 36.º lugar do ranking mundial, enquanto o Malawi está na 153.ª posição, uma diferença de 117 lugares entre as duas nações. As Super Falcons participaram em todas as 13 edições do torneio e venceram 10, incluindo a última, frente ao país anfitrião, Marrocos. Tinham perdido apenas três jogos da fase de grupos em 37 tentativas. O Malawi, por sua vez, estava simplesmente a descobrir a competição.

Notas das jogadoras
Notas das jogadorasFlashscore

O desenrolar do jogo durante muito tempo fez crer numa resistência heroica mais do que num feito histórico. No Estádio Al Medina, em Rabate, as duas equipas anularam-se durante uma hora e um quarto. Depois, tudo mudou. Aos 73 minutos, Temwa Chawinga, de 27 anos, ultrapassou a guarda-redes nigeriana Chiamaka Nnadozie, considerada a melhor do continente, antes de marcar num ângulo apertado. Seis minutos depois, a sua irmã Tabitha venceu um duelo frente à mesma Nnadozie e empurrou a bola para o fundo das redes, ampliando a vantagem.

A Nigéria, campeã em título e grande favorita desta edição de 2026, reagiu de imediato. Num período de compensação interminável, a capitã nigeriana Rasheedat Ajibade reduziu a diferença aos 90+2 minutos, de grande penalidade, após uma mão assinalada na área. No entanto, as celebrações nigerianas duraram pouco: logo a seguir, Temwa Chawinga voltou a isolar-se frente a Nnadozie e fez um chapéu à guarda-redes, que saiu em falso, fixando o resultado em 3-1. A Nigéria ainda reduziu a diferença uma última vez, com a guarda-redes malawiana Mercy Sikelo a conseguir apenas desviar um remate de Uchenna Kanu, que acabou por entrar, mas a árbitra ugandesa apitou para o final do jogo quase de imediato após o recomeço, sem dar tempo à Nigéria para procurar o empate.

Graças a este triunfo, o Malawi ocupa provisoriamente o segundo lugar do grupo C, em igualdade pontual com a Zâmbia, mas atrás na diferença de golos. Foi precisamente a outra nação da África Austral a dar nas vistas no mesmo dia: com um poker de Barbra Banda, a Zâmbia goleou o Egito por 6-0 noutro estádio de Rabate. Malawi e Zâmbia vão defrontar, respetivamente, o Egito e a Nigéria no sábado, com a perspetiva de garantirem a qualificação para os quartos de final em caso de vitória.

As irmãs que carregam uma seleção inteira

A vitória do Malawi não foi obra do acaso. De todos os golos oficialmente registados na história da seleção feminina do Malawi, fundada em 2002, as irmãs Chawinga marcaram cerca de um terço, entre 32 e 35% segundo os relatórios. Desde 2002, a seleção apontou 152 golos em todas as competições oficiais (Taça COSAFA, qualificação para CAN, qualificação olímpica). Uma estatística resume bem o seu domínio no futebol malawiano: na COSAFA Cup 2020, o Malawi marcou 12 golos no torneio... e todos foram obra do duo Temwa-Tabitha.

Antes de defrontar a Nigéria, Temwa já tinha avisado que a sua seleção não iria a Rabate apenas para assistir. "Vencer as campeãs em título significaria imenso para nós", disse à ESPN. "É o nosso primeiro jogo, por isso dar-nos-ia um grande impulso e confiança para o que vem a seguir. Porque se começarmos bem, vencendo uma equipa como a Nigéria logo no primeiro jogo, o grupo começa a acreditar".

Ciente de que as atenções estavam centradas nela e na irmã, fez questão de lembrar que o Malawi não se resumia ao duo Chawinga: "Elas conhecem-nos, a Tabitha e a mim. Mas não conhecem as nossas outras jogadoras, nem a nossa forma de jogar. Se se focarem em nós, temos outras jogadoras capazes de fazer o trabalho". Acrescentou ainda uma ambição mais distante: a qualificação para o Mundial-2027, reservado às quatro semifinalistas da CAN: "Sabemos que somos outsiders, mas toda a gente sabe que é preciso trabalhar muito para conquistar tudo. Se nos qualificarmos para este torneio, podemos ir ao Mundial. Não estamos aqui só para participar. Estamos aqui para competir".

Por seu lado, Tabitha Chawinga abordou esta estreia com entusiasmo declarado: "Era o meu sonho jogar a Taça das Nações Africanas. O momento chegou. Conhecemos o valor da Nigéria, é uma grande nação, mas temos de nos concentrar em nós próprias. As nossas jogadoras têm de competir sem qualquer complexo de inferioridade".

Uma história familiar forjada na adversidade

Nascidas com poucos anos de diferença no distrito rural de Rumphi, no norte do Malawi, Tabitha a 22 de maio de 1996, Temwa a 20 de setembro de 1998, as duas irmãs pertencem a uma família de cinco filhos e à etnia tumbuka. Nada, à partida, as destinava a uma carreira profissional. Tabitha começou a chutar uma bola aos cinco anos, jogando com os rapazes da aldeia, antes de ingressar, aos 13, no clube DD Sunshine, em Lilongwe, a capital. Chegou mesmo a ser obrigada a despir-se um dia, pois as adversárias recusavam-se a acreditar que uma rapariga pudesse jogar tão bem.

Estatísticas da partida
Estatísticas da partidaFlashscore

Os pais, por sua vez, viam as coisas de forma bem diferente. Numa entrevista ao Guardian em outubro de 2023, Tabitha contou: "Os meus pais não apoiavam a ideia de eu querer jogar futebol. Queriam que me concentrasse apenas na escola". Foi ela quem levou a irmã mais nova, Temwa, para o futebol. "Sempre que voltava a casa, tinha de enfrentar a mão pesada dos meus pais", recordou. "Batiam-me muito severamente. Claro que não desisti. Disse aos meus pais que o dia em que deixassem de me bater seria o dia em que eu deixaria de jogar futebol". 

Temwa confirmou esta oposição familiar à SHE Scores Bangers em julho de 2024: "A minha mãe disse-nos para não jogarmos, que o futebol não era para raparigas". Em adolescente, os seus dias resumiam-se a "ir à escola, ir trabalhar, lavar a loiça", sobrando pouco tempo para o desporto. "A minha mãe impediu a Tabitha de jogar, mas ela continuou, e eu segui-a. Quando ela saía para jogar, eu acompanhava-a. A minha mãe acabou por ter de aceitar".

Por falta de estruturas femininas perto de casa, as duas irmãs percorriam mais de 400 quilómetros desde Rumphi até Lilongwe para integrarem uma equipa feminina, sendo a capital também o local onde os selecionadores nacionais as observavam. "Eles achavam que não era possível uma família ter duas jogadoras tão boas", recorda Tabitha, a rir. "Tínhamos tanto medo de jogar à frente das pessoas que faziam parte da seleção nacional. Foi aí que começámos a acreditar em nós". As duas irmãs receberam, aliás, a sua primeira convocatória para a seleção ao mesmo tempo, em 2011.

Duas trajetórias europeias e um reencontro

Tabitha abriu caminho. Aos 18 anos, em 2014, ingressou no clube sueco da terceira divisão Krokom/Duvereds IF, onde brilhou com 39 golos em 18 jogos e tornou-se a primeira futebolista malawiana a jogar num clube europeu. Seguiu-se o Kvarnsvedens IK, que levou à Damallsvenskan, a elite sueca, graças aos seus 43 golos em 24 jogos, antes de rumar à China, para o Jiangsu Suning, numa transferência recorde para o futebol feminino sueco em 2018. Eleita jogadora do ano logo na primeira época na China, com 31 golos em todas as competições, manteve o prémio na época seguinte e ajudou o Jiangsu a conquistar um histórico quadruplo.

Temwa seguiu os passos da irmã, rumando à Suécia e ao Kvarnsvedens IK em 2017, que a irmã acabara de deixar. Em janeiro de 2020, assinou também pela China, pelo Wuhan Jianghan, com um contrato de dois anos, enquanto Tabitha representava então os rivais do Jiangsu, campeões em título. As duas irmãs foram, assim, adversárias no campeonato. O calendário de Temwa foi, no entanto, afetado pelo confinamento imposto em Wuhan no início da pandemia da covid-19. Assim que o campeonato recomeçou, marcou nove golos logo na primeira época, um total apenas superado pela zambiana Barbra Banda, contribuindo para o título de campeã do Wuhan.

Últimos jogos de Tabitha
Últimos jogos de TabithaFlashscore

Em 2021, Tabitha juntou-se também ao Wuhan, depois de o patrocinador do Jiangsu Suning ter deixado de financiar a equipa feminina: as duas irmãs tornaram-se então colegas de equipa. Nessa época, Temwa marcou 7 golos, enquanto Tabitha terminou como melhor marcadora do campeonato, com 9 golos, e o Wuhan manteve o título. Mas já em 2022, Tabitha rumou a Itália, ao Inter de Milão, por empréstimo, tornando-se a primeira africana a ser melhor marcadora da Serie A, com 23 golos. Temwa assumiu então o ataque do Wuhan, terminou como melhor marcadora da liga com 10 golos e ajudou o clube a conquistar o terceiro título consecutivo. Em 2023, teve uma época explosiva: 51 golos em todas as competições pelo Wuhan, 12 pelo Malawi, tornando-se a melhor marcadora mundial do ano, em ambos os géneros, e dando ao clube o quarto título seguido.

Entretanto, Tabitha continuou a sua aventura europeia: depois do Inter de Milão, foi emprestada ao Paris Saint-Germain, onde se tornou a primeira malawiana a jogar e marcar na Liga dos Campeões feminina, antes de assinar em definitivo pelo OL Lyonnes, sem regressar à China.

Temwa, por sua vez, voou em 2024 para os Estados Unidos e assinou pelo Kansas City Current. Tornou-se de imediato a primeira malawiana a marcar na história da NWSL, antes de bater o recorde de golos numa época regular (20 golos, superando o anterior recorde de Sam Kerr) e de conquistar de seguida o título de melhor marcadora e o de MVP da liga. Repetiu o feito em 2025, ao conquistar novamente a Bota de Ouro, tornando-se apenas a segunda jogadora da história da NWSL, depois de Sam Kerr, a conseguir este duplo consecutivo, e sendo eleita MVP pela segunda época seguida: um feito inédito na história da liga. Nesse ano, contribuiu também para o título de campeã da época regular (NWSL Shield) conquistado pelo seu clube.

Forma de Temwa
Forma de TemwaFlashscore

Pioneiras para o Malawi

Em 2024, Tabitha e Temwa Chawinga eram as únicas duas jogadoras malawianas, de ambos os sexos, a jogar profissionalmente fora do continente africano. Um estatuto de pioneiras que assumem sem reservas. "Espero que, quando os clubes me veem a destacar-me, pensem: ela vem do Malawi, talvez devêssemos olhar para as jogadoras de lá, e que comecem a aparecer mais nomes a ir para a Europa", disse Temwa à SHE Scores Bangers. Um desejo parcialmente concretizado: outras jogadoras malawianas já seguiram para a Europa e assinaram contratos profissionais, como Rose Kadzere no Montpellier ou Faith Chinzimu no BK Häcken.

Resta, contudo, um prémio que continua a escapar a Tabitha Chawinga: o título de Jogadora Africana do Ano da CAF, apesar de uma regularidade excecional há oito anos e de títulos de melhor marcadora em todos os campeonatos por onde passou. "Não sei porque nunca o ganhei", confessou ao Guardian. "Talvez seja porque venho do Malawi, e porque a nossa seleção nunca jogou as grandes competições. Mas penso que o mereço". Ao derrotar a Nigéria, decacampeã da CAN e campeã em título, no primeiro jogo da história do Malawi na CAN, a sua seleção acaba de lhe dar um argumento de peso.