Reportagem Flashscore: Enquanto o Mundial lota estádios, Cosmos de Pelé recomeça do zero

Clube que mudou o futebol dos EUA renasce durante o Mundial
Clube que mudou o futebol dos EUA renasce durante o MundialFlashscore / Josias Pereira

Enquanto os olhos do planeta do futebol se viram para os Estados Unidos, com arenas hipermodernas lotadas por até 80 mil adeptos vibrando na elite do futebol mundial, a poucos quilómetros do gigante MetLife Stadium, a história do desporto no país tenta reescrever as suas páginas num cenário bem mais modesto.

É nas bancadas de cimento e na atmosfera comunitária do Hinchliffe Stadium, em Paterson, Nova Jérsia, que o mítico New York Cosmos ensaia o seu mais novo e desafiador capítulo.

O Cosmos, que ficou décadas desativado após o colapso da liga original nos anos 80, chegou a ensaiar regressos anteriores, mas foi no ano passado que o clube estruturou de facto o seu retorno oficial ao futebol profissional, integrando agora os relvados da USL (equivalente à terceira divisão norte-americana). No último domingo, a reportagem do Flashscore acompanhou de perto um marco desta nova era: o primeiro amigável internacional do clube em Nova Jérsia desde a reativação.

Assista abaixo à reportagem do Flashscore:

Cosmos, antiga equipa de Pelé, renasce na USL, a terceira divisão norte-americana
Josias Pereira / Flashscore

O adversário era o tradicional Santos Laguna, do México. O resultado final de 2-1 para os mexicanos acabou por ficar em segundo plano diante do peso simbólico do encontro. Foi a primeira vez que o Cosmos enfrentou uma equipa mexicana desde 1973, quando mediu forças com o Veracruz, ainda nos tempos em que Pelé dominava a América do Norte.

Entre o sonho e a realidade: Menos de 3 mil no estádio

Se no auge da década de 1970 o Cosmos arrastava multidões de 70 a 80 mil pessoas, transformando o futebol num espetáculo pop na terra do Tio Sam, a realidade atual exige pés assentes na terra. Esperava-se uma presença maciça de público no Hinchliffe Stadium - um local com capacidade para pouco mais de 10 mil espetadores -, especialmente pela força e apelo do futebol mexicano na região. No entanto, compareceram menos de 3 mil adeptos.

Cosmos e Santos Laguna mediram forças no último fim de semana
Cosmos e Santos Laguna mediram forças no último fim de semanaSantos Laguna/X/Reprodução

Ainda assim, o que faltou em quantidade sobrou em orgulho. A tímida massa associativa presente carregava consigo a memória afetiva de um clube que, no fundo, plantou a semente de tudo o país colhe hoje com o sucesso da MLS. Se os Estados Unidos respiram futebol, é porque nomes como Pelé, Franz Beckenbauer, Giorgio Chinaglia e o magriço português António Simões vestiram esta camisola e provaram que o soccer tinha espaço no coração dos norte-americanos. É exatamente nesse histórico de lendas que o novo Cosmos se apoia para procurar a sua relevância no mapa atual.

Dentro de campo, o teste contra uma equipa da elite mexicana mostrou que o projeto tem brio. Mesmo sendo uma equipa de terceira divisão em reconstrução, o Cosmos bateu-se de frente com o Santos Laguna e conseguiu marcar, um golo muito celebrado que valida o esforço técnico de um plantel que tenta queimar etapas.

"Nunca imaginei enfrentar o Cosmos": O peso do emblema

O impacto de ver o equipamento do New York Cosmos novamente em campo mexe até com quem está no banco de suplentes adversário. O treinador do Santos Laguna, o português Renato Paiva, não escondeu a sensação de nostalgia e o respeito institucional ao pisar o relvado de Nova Jérsia.

"Este Cosmos faz parte da minha infância. Lembro-me perfeitamente de quando este projeto começou nos Estados Unidos para trazer as estrelas para cá, com o objetivo de implementar e desenvolver o futebol. Depois o Cosmos acabou por desaparecer, foi uma tentativa de certa forma fracassada na época, mas que agora está a ganhar força novamente com a MLS e com o investimento que está a ser feito", disse Paiva ao Flashscore.

Renato Paiva, técnico do Santos Laguna, fala sobre o encontro com o Cosmos, lendário equipa do benfiquista Simões.
Josias Pereira / Flashscore

"É um clube histórico. Se me perguntasse antes se eu pensava em jogar um dia contra o Cosmos, eu diria que não, porque de facto é um clube da minha infância que marcou muito por essa questão do Pelé, do Beckenbauer e do próprio Simões (ex-jogador do Benfica). Mas pronto, é um clube que está a tentar reorganizar-se, nota-se isso, e parece-me que está a dar passos interessantes para poder chegar à MLS no futuro", acrescentou o técnico português.

A reativação do New York Cosmos no ano passado não é apenas o regresso de uma empresa ou de uma marca de prestígio; é a tentativa de provar que a tradição pode florescer mesmo partindo do degrau mais baixo da pirâmide do futebol americano.

Reconstrução e o sonho de um amigável com uma equipa brasileira

O New York Cosmos sonha reviver a sua histórica ligação ao futebol brasileiro. Responsável pela reconstrução do clube, o head scout José Angulo revelou ao Flashscore que pretende trazer uma equipa do Brasil para um amigável em Nova Jérsia no futuro.

"Este é um clube que existe há muitos anos, mas este projeto começou há apenas seis meses, por isso ainda estamos a construir tudo. Sabemos que temos muitos adeptos à volta do mundo, especialmente no Brasil, por causa do Pelé e de toda a história do Cosmos. Temos consciência dessa ligação e queremos aproximar-nos cada vez mais da comunidade brasileira. Quem sabe, no futuro, possamos trazer um clube brasileiro para jogar aqui. Seria muito divertido. Com toda a nossa ligação ao Pelé e à história do Cosmos, acho que seria algo muito bonito", afirmou.

José Angulo, o head scout do Cosmos, sonha em jogar contra um emblema brasileiro
Josias Pereira / Flashscore

Ex-jogador do Fort Lauderdale Strikers, equipa que teve Ronaldo Fenómeno como proprietário, Angulo conhece bem a influência brasileira no futebol norte-americano. Durante a carreira, atuou ao lado de Léo Moura e Kléberson e agora quer fortalecer esse vínculo também no Cosmos.

ADN brasileiro e o chamamento do Rei

A ligação histórica entre o New York Cosmos e o Brasil é umbilical, eternizada pelos pés de Pelé na década de 1970. Décadas mais tarde, esse mesmo ADN verde e amarelo volta a pulsar no plantel através de Nick Mendonça.

Filho de pais brasileiros, o jovem médio nasceu nos Estados Unidos, mas traz na bagagem uma formação moldada no coração do futebol sul-americano. Fez boa parte da formação no Rio de Janeiro, acumulando passagens por grandes clubes cariocas, com destaque para o Flamengo.

Filho de pais brasileiros, Nick Mendonça é o ADN verde e amarelo no novo New York Cosmos.
Josias Pereira / Flashscore

"Nasci na Flórida e vivi lá até aos 14 anos. Joguei na formação nos Estados Unidos e, depois, decidi mudar-me para o Brasil. Fiz um teste no Flamengo, passei e fiquei dois anos no clube. Depois fui para o Vasco e, já nos sub-20, disputei o Campeonato Goiano pelo Trindade. Fiz grande parte da minha formação no Brasil e, após seis ou sete anos no país, resolvi voltar para os Estados Unidos, onde dei sequência à minha carreira como profissional", contou à reportagem.

Quando recebeu o convite para integrar o projeto do Cosmos, o peso da história falou mais alto. Criado num ambiente familiar que sempre reverenciou o futebol brasileiro, Nick não pensou duas vezes antes de aceitar o desafio de vestir a mítica camisola nova-iorquina.

"A primeira coisa que vem à cabeça quando se fala no Cosmos é o Pelé. No ano passado, quando eu estava à procura de um novo clube, o Cosmos fez uma proposta. O meu empresário ligou-me, conversámos sobre o projeto e eu nem pensei duas vezes. Disse: 'Pá, vai ser o Cosmos no próximo ano. Vai ser uma honra'. E está a ser muito bom jogar aqui esta temporada e representar esta camisola", exaltou.

Nick Mendonça, a presença brasileira no New York Cosmos
Nick Mendonça, a presença brasileira no New York CosmosJosias Pereira / Flashscore

Para o jovem, defender as cores do clube onde o maior de todos os tempos encerrou a carreira é mais do que um passo profissional: é uma forma de homenagear o maior ídolo da história do futebol.

"O Pelé é o Rei do Futebol. É uma honra representar o Cosmos este ano, depois de tanto tempo fora da liga. Ver o clube a voltar ao ativo e poder competir novamente é muito especial. É uma honra vestir esta camisola. Estamos a dar o nosso melhor para colocar o Cosmos de volta no topo", salientou o jogador de 25 anos.

Do apelo global ao orgulho da comunidade local 

Se dentro das quatro linhas o New York Cosmos encara a realidade da terceira divisão, fora delas a marca continua a ser uma das mais icónicas do futebol mundial. No Hinchliffe Stadium, essa tradição reflete-se na movimentada loja oficial, ponto de encontro de adeptos e turistas que procuram levar para casa um pedaço da história eternizada por Pelé.

Jamie Ponce, o administrador da loja do Cosmos, fala sobre a importância do clube para a comunidade.
Josias Pereira / Flashscore

Responsável pela operação do espaço, Jamie Ponce afirma que o regresso do Cosmos vai muito além do merchandising. Para ele, o clube voltou a exercer um papel importante na comunidade de Paterson.

"O Cosmos é muito importante para a comunidade. Somos apenas o segundo clube profissional a jogar no Hinchliffe Stadium, um estádio que existe desde 1932. É muito especial reunir as pessoas novamente através do futebol. Esse é um dos principais objetivos do projeto que estamos a construir aqui, em Paterson, Nova Jérsia", explicou o administrador.

Segundo Ponce, a ligação histórica com Pelé continua a ser um dos principais ativos da marca e desperta o interesse até de turistas que visitam os Estados Unidos durante o Mundial.

Pai e filho com a 10 de Pelé, o rei do futebol
Pai e filho com a 10 de Pelé, o rei do futebolJosias Pereira / Flashscore

"A associação ao Pelé gera um reconhecimento imediato. Isso aproxima-nos da comunidade e também dos novos adeptos. Muita gente que está nos Estados Unidos por causa do Mundial vem conhecer o Cosmos e entender a história do clube. É muito bonito ver que ainda existe tanto carinho pelo legado que o Pelé deixou aqui", relatou.

Apesar do peso da camisola, o clube optou por recomeçar a sua trajetória desportiva a partir da terceira divisão da USL. A estratégia, segundo Ponce, é reconstruir a instituição de forma sustentável antes de voltar às principais competições do país.

"Hoje disputamos a USL League One, mas tomámos a decisão de começar na divisão mais baixa e construir o nosso caminho de volta. Sabemos da força da marca, mas primeiro precisamos de reconquistar a comunidade, ampliar a nossa base de adeptos e atrair patrocinadores. O objetivo é crescer passo a passo e, nos próximos anos, disputar novamente as divisões superiores", explicou.

Cliente observa a camisa 10 de Pelé na loja do New York Cosmos
Cliente observa a camisa 10 de Pelé na loja do New York CosmosJosias Pereira / Flashscore

Na loja oficial, os equipamentos oficiais do Cosmos são vendidos por 95 dólares, enquanto o modelo de adepto custa 75 dólares. A loja também oferece bonés, camisolas com capuz, chaveiros, autocolantes e outros produtos licenciados.

Entre todos os artigos, porém, nenhum desperta mais interesse do que a camisola 10 de Pelé. Ao lado da histórica camisola 9 de Giorgio Chinaglia, ela integra o seleto grupo de números retirados pelo Cosmos e permanece como o produto mais procurado pelos visitantes da loja oficial.

Loja oficial conta com várias opções de produtos
Loja oficial conta com várias opções de produtosJosias Pereira / Flashscore

Legado que passa de pai para filho

Se a estrutura física e comercial do clube tenta readaptar-se aos novos tempos, a paixão de quem está na bancada permanece intacta, movida por laços hereditários de afeto. Para lá dos números modestos de público na USL, são histórias como as de Edwin Torres que justificam a existência do novo Cosmos.

"Esta paixão é uma herança pura. O meu pai torcia fanaticamente pelo Cosmos nos anos 70 e eu cresci a ouvir as histórias dele. Ele falava do Pelé como se fosse um super-herói, descrevia os golos, a atmosfera mágica dos estádios lotados", relembra Edwin à reportagem do Flashscore.

Edwin Torres vê o Cosmos como um legado de família
Edwin Torres vê o Cosmos como um legado de famíliaJosias Pereira / Flashscore

"Poder estar aqui hoje, a vestir esta camisola e a trazer esta paixão que era do meu pai, é algo incrivelmente bonito e significativo", acrescentou.

Esse orgulho ganha ritmo e força através de uma pequena mas incansável banda que ecoa pelas bancadas de cimento durante os 90 minutos de jogo. Com bombos, caixas e instrumentos de sopro, os adeptos ditam o compasso do jogo num estilo que remete diretamente para as tradicionais hinchadas sul-americanas.

A banda do Cosmos não parou um minuto
A banda do Cosmos não parou um minutoJosias Pereira / Flashscore

O repertório é embalado por cânticos de apoio incondicional, com destaque para o grito que ecoa em looping pelo estádio: "Come on, Boys in Green! Come on, Boys in Green!" (Vamos, Rapazes de Verde!), uma alusão direta à tradicional cor do equipamento do clube. Entre batucadas e rimas que decretam que "Nova Iorque é verde", a banda garante que o Cosmos nunca jogue em silêncio, transformando o ambiente modesto num caldeirão de pura nostalgia e resistência.

Claque do Cosmos garante a festa em Paterson, Nova Jersey
Claque do Cosmos garante a festa em Paterson, Nova JerseyJosias Pereira / Flashscore

Renascimento no histórico Hinchliffe Stadium

Para além das quatro linhas e do peso das camisolas retiradas, o cenário escolhido para abrigar esta nova era do New York Cosmos carrega um simbolismo profundo para o desporto e para a cultura dos Estados Unidos. O Hinchliffe Stadium não é apenas um campo de futebol de betão fincado às margens do Rio Passaic, em Paterson; ele é um monumento histórico nacional que, assim como o próprio clube, sabe exatamente o que significa ressurgir das cinzas.

Placa celebra memorial da Negro League no histórico estádio do Cosmos
Placa celebra memorial da Negro League no histórico estádio do CosmosJosias Pereira / Flashscore

O visual ao redor do estádio é emoldurado por um cenário natural impressionante: as imponentes quedas d'água do rio, conhecidas na região como as Great Falls do Rio Passaic. O som das cascatas e o clima fresco do parque ecológico que circunda o complexo criam uma atmosfera única e quase poética para quem caminha em direção às bancadas, oferecendo um contraste de beleza natural e paz bem ao lado do cimento do estádio.

Hinchliffe Stadium, o estádio renascido que abriga o novo New York Cosmos.
Josias Pereira / Flashscore

Inaugurado na década de 1930, o estádio foi um dos grandes palcos da lendária Negro League de basebol - a liga profissional estruturada por e para atletas negros americanos num período em que a segregação racial os impedia de atuar nas ligas principais (Major Leagues). Por aquele relvado passaram mitos do desporto que desafiaram o preconceito e moldaram a história norte-americana. Com o fim da segregação e as mudanças urbanas, o Hinchliffe Stadium acabou por cair num doloroso ostracismo, ficando completamente abandonado e em ruínas durante décadas.

Mas o espaço ganhou nova vida com a chegada do Cosmos e obras fundamentais que fizeram a arena ganhar uma nova oportunidade de sobrevivência. Nas paredes e nos arredores do estádio, marcas e memoriais da Negro League ainda estão gravados, servindo de lembrança constante da resiliência humana e desportiva. Para quem caminha por ali, a atmosfera exala o passado.

Jamie Ponce, administrador do Cosmos, fala sobre a história do Hinchliffe Stadium e as cascatas do Rio Passaic
Josias Pereira / Flashscore

Ao apito final do amigável contra o Santos Laguna, fica a certeza de que a jornada do New York Cosmos na USL está longe de ser apenas uma busca por títulos ou subidas de divisão. Entre os acordes da banda que canta pelos "Boys in Green", o suor de jovens com raízes brasileiras como Nick Mendonça e o garimpo técnico de profissionais como José Angulo, o Cosmos prova que o futebol não é feito apenas de arenas de milhares de milhões de dólares e recordes de bilheteira no Mundial.

Às vezes, a verdadeira alma do jogo repousa no orgulho de uma massa associativa de 3 mil pessoas que, num templo sagrado de Nova Jérsia, ao som das cascatas, se recusa a deixar o manto de Pelé virar apenas uma lembrança num livro de história.

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