Acompanhe o London City Lionesses no Flashscore
A sua carreira tem sido repleta de êxitos, desde o Brescia e a Fiorentina até ao Atlético de Madrid e à Roma, culminando num verão extraordinário no EURO 2025.
A Itália chegou às meias-finais pela primeira vez em 28 anos, mas acabou por sofrer uma derrota dolorosa frente à Inglaterra, que viria a sagrar-se campeã, sofrendo o golo decisivo aos 119 minutos do prolongamento. Linari foi também a única jogadora italiana escolhida para a Equipa do Torneio oficial da UEFA, ao lado de estrelas como Aitana Bonmatí, Alexia Putellas e Lucy Bronze.
Hoje, a defesa italiana abraça um novo desafio em Inglaterra ao serviço do London City Lionesses, um clube ambicioso dedicado exclusivamente ao futebol feminino. Nesta entrevista exclusiva ao Flashscore, Linari recorda a sua carreira, revive as emoções do torneio continental disputado na Suíça e aborda os desafios que o futebol feminino ainda enfrenta em Itália.
Fala também sobre a decisão de deixar a AS Roma, o ambicioso projeto do London City e a visão da proprietária do clube, Michele Kang, cujo nome chegou a ser apontado como possível candidata à presidência da FIFA no futuro.
- Como começou a jogar futebol e quando percebeu que poderia tornar-se a sua profissão?
Comecei a jogar futebol aos cinco anos, mas, como digo muitas vezes, penso que comecei realmente a jogar quando ainda estava no ventre da minha mãe. Os meus pais tinham lugares de época no Estádio Franchi, em Florença, quando a minha mãe estava grávida de mim, e continuaram a ir aos jogos até pouco antes de eu nascer. Tendo em conta a ligação entre o ventre e o ambiente exterior em que um bebé se desenvolve, gosto de pensar que o futebol já me corria nas veias antes mesmo de nascer.
Aos cinco anos, também praticava natação, além de jogar futebol. Mas, a certa altura, a minha mãe disse-me que tinha de escolher entre os dois desportos, porque já não conseguia levar a minha irmã e a mim à natação e depois conduzir-me também aos treinos de futebol. Por isso, decidi calçar as botas e guardar o fato de banho para o verão, ou para quando me apetecesse voltar à piscina, porque continuo a adorar nadar.
A partir desse momento, o futebol tornou-se a minha paixão, desde a primeira vez que calcei um par de botas.
- Teve uma carreira de enorme sucesso, conquistou cinco títulos da liga em Itália e jogou em Espanha e noutros países. Qual foi a vitória mais importante para si?
A vitória mais importante para mim é, simplesmente, ter continuado a acreditar que era possível. Não gostaria de reduzir toda a minha carreira aos títulos ou troféus que conquistei, individualmente ou com as minhas equipas. Gosto de pensar que o meu maior êxito foi ter acreditado nesse sonho de infância de me tornar futebolista até ao fim.
Nunca imaginei que pudesse realmente tornar-me futebolista profissional e transformar o futebol, a minha paixão, no meu trabalho. Houve muitas dificuldades e momentos de desânimo em que cheguei a pensar em desistir, momentos de lágrimas, mas também muitos momentos maravilhosos, repletos de risos, vitórias e recordes.
Para mim, essa é a maior lição, porque o futebol é o meu trabalho, mas também é algo que nos deve ensinar lições sobre a vida. E é exatamente isso que está a acontecer.
A minha maior vitória foi ter chegado onde estou hoje sem nunca desistir, apesar de todas as dificuldades. Mas, acima de tudo, é poder continuar a divertir-me todos os dias. Jogar futebol é maravilhoso, embora por vezes se torne exigente devido a todas as escolhas que temos de fazer para manter um nível tão elevado.
Quanto a mim, apesar de estar longe de casa e sozinha, continuo a divertir-me; amo cada vez mais este desporto e, acima de tudo, continuo a aprender algo novo com ele.
- O que lhe ensinaram as experiências no estrangeiro, primeiro em Espanha, depois em França, no Bordéus, e agora em Inglaterra?
As experiências no estrangeiro ensinaram-me o que significa ser apenas mais uma jogadora entre muitas, em vez de receber o tratamento especial que muitas vezes tinha em Itália. No estrangeiro, somos uma entre muitas, ou pelo menos foi assim em todos os clubes que representei. Em Itália, ser italiana pode facilitar um pouco as coisas, sobretudo por causa da língua e das relações que se conseguem construir com os treinadores e os restantes elementos da equipa técnica.
No estrangeiro, é preciso um período de adaptação, que no meu caso sempre durou entre seis meses e um ano. Essas experiências ensinaram-me a adaptar-me mais rapidamente, a descobrir novas culturas e, acima de tudo, a nunca desistir. Ficar no banco não foi fácil para mim, tal como não foi fácil ficar de fora da convocatória pela primeira vez, chegando por vezes a sentar-me na bancada. Aceitar essas decisões foi extremamente difícil, porque nunca tinha vivido nada semelhante.
Não mudaria uma única coisa do que fiz. Na verdade, faria tudo de novo, porque essas experiências permitiram-me tornar-me na pessoa que sou hoje. Tenho muito orgulho no meu percurso, incluindo nos momentos em que passei por dificuldades.
O que estou a aprender agora, sobretudo aqui em Inglaterra, é a não me concentrar exclusivamente nesses 90 minutos ou no facto de jogar ou não uma determinada partida, mas olhar para o quadro geral e pensar mais a longo prazo. Tento melhorar todos os dias. Não quer dizer que não o fizesse antes, mas costumava estar muito focada nos jogos individuais e em disputar os 90 minutos completos.
Esse continua a ser um dos meus objetivos, mas agora existe uma vontade maior de crescer e melhorar diariamente. Porque, se conseguirmos melhorar todos os dias, inclusive mentalmente, sentimo-nos melhor connosco próprios. E, mesmo quando não jogamos com regularidade, podemos manter a mente tranquila, energia positiva, entusiasmo e um elevado nível de intensidade.
Jogar no estrangeiro também me ensinou isso: a perceber o que significa estar no banco.
- No EURO 2025, a Itália ficou muito perto da final e foi escolhida para a Equipa do Torneio. Como viveu essa experiência por dentro?
Penso que o EURO 2025 foi um momento mágico para todas nós, para o futebol feminino italiano e para a seleção nacional, sobretudo tendo em conta o apoio que recebemos dos adeptos, tanto na Suíça como em casa.
Foi especial porque criámos uma energia única, um espírito de união no grupo que ultrapassou todas as dificuldades e desafios físicos que enfrentámos. A preparação para o Europeu foi dura, com sessões de treino intensas sob o calor de Florença, muitas vezes bem cedo de manhã para evitar as horas mais quentes do dia. Depois, houve todo o esforço físico que fizemos durante o próprio torneio.

Não foi igualmente fácil para todas. Tive a sorte de jogar todos os encontros, mas havia uma energia muito positiva no grupo e uma enorme determinação de todas as jogadoras para manter esse espírito, independentemente de jogarem ou não. Se conseguimos alcançar esse resultado, foi também, e sobretudo, graças às jogadoras que tiveram menos oportunidades no relvado, mas que ainda assim deram um contributo enorme a todas nós que tivemos a sorte de ser titulares.
Do ponto de vista físico e tático, disputámos aquilo que descreveria como um Campeonato da Europa quase perfeito, o que nos permitiu competir de igual para igual com todas as adversárias que defrontámos.
Haverá sempre alguma amargura por termos falhado a final por apenas alguns segundos, mas penso que o que alcançámos foi extraordinário.
Agora, porém, se quisermos dar continuidade a esse sucesso, precisamos de garantir a qualificação para o Mundial. Seria uma oportunidade importante para continuar a desenvolver todo o movimento do futebol feminino, dar continuidade aos projetos iniciados tanto pela Federação Italiana de Futebol como na liga nacional e permitir que os clubes italianos continuem também a crescer.
- Apesar desse feito notável, a atenção dos meios de comunicação à seleção italiana feminina continua a parecer limitada. Existe um problema cultural?
Sim, penso que ainda existe uma questão cultural, talvez também alguma relutância em dar espaço e atenção a desportos que não aqueles que tradicionalmente têm maior visibilidade.
Penso, por exemplo, no voleibol, no basquetebol, no andebol ou nos desportos de inverno, que alcançaram resultados extraordinários. E, no entanto, por vezes parece ser necessário um feito excecional apenas para conseguir a cobertura e o reconhecimento que estes desportos merecem. Pergunto-me porque tem de ser sempre tão difícil. Muitas vezes, dá-se mais atenção a aspetos da vida privada dos atletas do que às conquistas dos atletas e das seleções que representam o nosso país.
Isto também tem consequências para as gerações mais jovens. Há muitos desportos que as crianças raramente têm oportunidade de ver na televisão e, se não encontrarem professores ou educadores na escola que lhes apresentem essas modalidades, correm o risco de nunca as descobrir. E isso deixa-me triste.
Acredito que ainda há muito trabalho a fazer também no futebol feminino, sobretudo quando se trata de aproveitar momentos em que o interesse e a atenção do público aumentam, como aconteceu depois do Europeu. São oportunidades importantes que devem ser aproveitadas para manter essa visibilidade e aproximar cada vez mais pessoas do desporto.
Quando olho para outras seleções europeias, como os Países Baixos ou a Inglaterra, vejo estádios cheios e um forte sentimento de pertença entre os adeptos. Em Itália, conseguimos sobretudo atrair famílias e clubes de futebol jovem, o que é maravilhoso porque cria um ambiente positivo e seguro. Mas gostaria que fôssemos além disso e chegássemos a um público ainda mais vasto e apaixonado.
O que gostaria mesmo de ver é um sentimento de pertença mais forte em relação às nossas seleções, independentemente do desporto que praticam. Porque, quando uma equipa representa a Itália, deve ser algo com que todos nos possamos identificar.
- Escolheu juntar-se ao London City Lionesses, um clube inteiramente dedicado ao futebol feminino. O que a convenceu e quais são as ambições do clube?
O que me convenceu no London City foi, sem dúvida, o projeto, extremamente ambicioso e com o objetivo de criar algo único e histórico no futebol, não apenas no futebol feminino. Quando recebi o telefonema, senti-me muito honrada e pensei imediatamente que poderia ser uma oportunidade única na vida.
Não foi fácil decidir deixar a Roma, porque sentia que era a minha casa e passei lá quatro anos extraordinários, conquistando tudo o que era possível conquistar. Mas também penso que, a certa altura, os ciclos podem chegar ao fim e que provavelmente tinha chegado a uma fase da carreira em que sentia necessidade de mudar algo para continuar a crescer.
Até agora, juntar-me ao London City foi uma decisão maravilhosa e voltaria a fazer a mesma escolha, apesar de algumas dificuldades. É um clube novo, construído praticamente do zero, por isso é normal que ainda haja alguns aspetos a aperfeiçoar. O percurso iniciado no ano passado e que continuou esta temporada é ambicioso. Existe vontade de vencer, mas, acima de tudo, de ajudar as jogadoras a desenvolverem-se individual e coletivamente. Para mim, esse é o aspeto mais importante.

O clube e a sua administração estão determinados a investir em todas as áreas, não apenas na equipa principal, mas também na formação e nas equipas técnica e de apoio. O número de pessoas que trabalham à nossa volta aumenta dia após dia e, por vezes, as minhas colegas e eu rimo-nos porque, ao pequeno-almoço ou ao almoço, damos por nós a olhar para pessoas que nunca vimos antes e a perguntar quem são.
Isso dá uma ideia da determinação do clube em procurar a excelência. A atividade do clube no mercado de transferências deste verão também demonstra os seus objetivos a curto e a longo prazo.
Não queremos colocar demasiada pressão sobre nós próprias, porque sabemos como a liga é competitiva e difícil. Ao mesmo tempo, todas temos consciência das nossas responsabilidades e do que precisamos de fazer no relvado para construir algo único, não apenas em Inglaterra, mas em todo o mundo.
No final da época, o clube avaliará o que foi alcançado e o que ainda precisa de ser feito. Não tenho dúvidas quanto à sua determinação em ajudar-nos a continuar a desenvolver-nos em todas as áreas. E não devemos esquecer que o novo centro de treinos ainda está em construção e poderá ficar concluído dentro de cerca de um ano, proporcionando ainda mais oportunidades de desenvolvimento às jogadoras.
Neste momento, não sei se o meu futuro continuará a passar por Londres, porque o meu contrato está a terminar. Mas, por agora, só penso em dar o meu contributo para a história do London City, levando comigo a experiência que adquiri no passado e tudo o que continuo a aprender aqui, dia após dia.
- Michele Kang, proprietária do London City, foi apontada por alguns como possível candidata à presidência da FIFA. Conhece-a pessoalmente. O que pensa?
Em primeiro lugar, penso que traria uma perspetiva diferente, colocando as mulheres e o seu papel no desporto mais no centro das atenções. Seria maravilhoso ver uma mulher a liderar uma instituição tão importante, alguém capaz de trazer ideias novas e contribuir para uma mudança cultural. Não sei quais seriam as possibilidades concretas do ponto de vista regulamentar, mas, independentemente de ser a presidente do meu clube, penso que isso poderia enviar uma mensagem muito importante a todo o movimento do futebol feminino.
Michele Kang é visionária, uma das primeiras pessoas a reconhecer o futebol feminino como uma verdadeira oportunidade de investimento, não apenas no futuro, mas também no presente. É claro que existe também uma dimensão empresarial e financeira, e com toda a legitimidade. O que aprecio na sua visão é precisamente a capacidade de olhar para além dos retornos imediatos e investir no crescimento e no desenvolvimento de um movimento que ainda tem um potencial enorme.
De um modo geral, acredito que também é importante abrir espaço a novas ideias, perspetivas diferentes e prioridades distintas nos níveis mais altos das instituições desportivas. Depois de tantos anos, é natural sentir necessidade de renovação e de novas fontes de inspiração.
Gostaria muito de ver cada vez mais mulheres a assumir posições de responsabilidade e liderança, incluindo nos níveis mais altos da FIFA. Seria um passo importante rumo a uma representação mais equilibrada e poderia ajudar a reforçar ainda mais a posição do futebol feminino no panorama internacional.
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