Reportagem: Com a retirada oficial, terá o LIV Golf sido um fracasso para a Arábia Saudita?

LIV Golf na Cidade do México
LIV Golf na Cidade do MéxicoHECTOR VIVAS / GETTY IMAGES SOUTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Injetar mais de 5 mil milhões de dólares num novo circuito divisivo para acabar por abandoná-lo ao fim de cinco temporadas não parece, à primeira vista, um bom negócio. No entanto, o LIV Golf não trouxe apenas más notícias para a Arábia Saudita.

Injetar mais de 5 mil milhões de dólares num novo circuito divisivo para acabar por abandoná-lo ao fim de cinco temporadas não parece, à primeira vista, um bom negócio. No entanto, o LIV Golf não trouxe apenas más notícias para a Arábia Saudita.

Financiado pelos petrodólares, o LIV - que roubou as principais estrelas e deixou o establishment do golfe em sobressalto - ajudou a colocar o reino conservador sob o olhar do mundo, um dos seus principais objetivos, segundo os especialistas. A saída, confirmada na passada quinta-feira após semanas de especulação, não sinaliza uma fuga do capital saudita do desporto, mesmo após o conflito no Médio Oriente que desencadeou ataques iranianos no Golfo.

"A Arábia Saudita não está a perder o interesse no desporto. Está a avaliar o trabalho feito até agora, o que falta entregar e o que funcionou (ou não). A trajetória continua a ser a mesma", afirmou à AFP Simon Chadwick, professor de desporto afro-euroasiático na Emlyon Business School, em Xangai.

O Fundo de Investimento Público (PIF), avaliado em 900 mil milhões de dólares, gastou fortunas no desporto para elevar o perfil do país, atraindo superestrelas do futebol como Cristiano Ronaldo. Mais tarde, a Arábia Saudita garantiu o direito de organizar o Mundial-2034.

A monarquia do deserto, o maior exportador mundial de crude, utiliza a riqueza do PIF para diversificar o seu portefólio económico, incentivando o turismo, os negócios e o consumo interno, protegendo-se assim de uma queda esperada na procura de combustíveis fósseis.

"Talvez os planos sauditas tenham sido demasiado grandiosos no início, mas, da mesma forma, os oportunistas do desporto global tentaram tirar partido dos gastos desportivos do país", referiu Chadwick.

Cheque em branco

O LIV (54 em numeração romana), financiado pelo PIF, prometeu revolucionar o golfe quando se estreou em 2022 com torneios de 54 buracos, partidas em simultâneo (shotgun starts), música nas competições e estrelas como Dustin Johnson e Phil Mickelson com contratos de nove dígitos.

A disputa com o PGA Tour (circuito norte-americano) esteve prestes a chegar aos tribunais, até que os dois rivais anunciaram conversações surpresa para uma fusão que se arrastaram por anos sem resolução. Entretanto, o LIV falhou a conquista de um grande contrato de transmissão televisiva ou a construção de uma base sólida de adeptos.

Os investimentos sauditas no desporto - por vezes criticados como sportswashing, uma tentativa de desviar as atenções dos direitos humanos - cresceram desde que o LIV foi anunciado em outubro de 2021.

O PIF adquiriu o Newcastle United na mesma altura, o Grande Prémio de F1 da Arábia Saudita começou dois meses depois e Ronaldo chegou com pompa e circunstância em janeiro de 2023.

"Essa fase serviu principalmente para dar visibilidade e posicionar a Arábia Saudita como um grande player global. O que mudou não foi o objetivo, mas o valor marginal de continuar a gastar ao mesmo nível num único projeto como o LIV", explicou Amro Elserty, analista desportivo de assuntos do Médio Oriente.

A nova fase inclui cortes que vão além do golfe. A Liga saudita de futebol, que outrora era um cheque em branco para futebolistas veteranos, travou as grandes contratações, e o PIF vendeu no mês passado a sua participação maioritária no Al Hilal, um dos principais clubes do país.

O PIF "afirmou desde o início que o apoio financeiro à liga saudita não seria sustentável", disse Amir Abdelhalim, analista de futebol egípcio.

Fim da extravagância

Entretanto, as finais do circuito feminino de ténis (WTA) terminam este ano o seu ciclo de três temporadas no país, e o Saudi Arabia Snooker Masters foi cancelado no mês passado, apenas dois anos após um acordo previsto para dez edições.

Este abrandamento desportivo é consistente com os cortes noutros projetos, como estâncias turísticas e a NEOM, a cidade futurista orçada em 500 mil milhões de dólares, numa altura em que a Arábia Saudita recua nas suas aventuras mais extravagantes.

Elserty considera que abandonar o LIV tem um "impacto reputacional", mas dificilmente será visto internamente como um retrocesso significativo. "Na lógica da estratégia do PIF, isto deve ser entendido como uma saída controlada de uma fase experimental, e não como um fracasso no sentido convencional".

De acordo com Chadwick, "são os observadores e críticos que transformaram o suposto desinvestimento desportivo num melodrama".