Nketia registou os 100 metros mais rápidos da Austrália, com 9,84 segundos, numa competição universitária nos Estados Unidos no mês passado, embora o vento a favor tenha invalidado o tempo para efeitos de recorde.
Os australianos, que já se entusiasmavam com o enorme potencial de Gout, de 18 anos, e de Lachlan Kennedy, de 22, podem agora contar com mais uma estrela no sprint.
Para Nketia, de 24 anos, que compete pela University of Southern California (USC), o entusiasmo gerado na Austrália desde o seu 9,84 nos Mt SAC Relays tem sido quase tão avassalador como a própria corrida.
"Sinceramente, foi mesmo uma surpresa, porque nunca pensei que conseguiria correr 9,84 na minha vida", disse à Reuters numa entrevista em vídeo a partir da sua base na Califórnia.
"E é como, 'Vejam onde chegámos agora'. O meu nome está em todo o lado na Austrália. É muita coisa para assimilar. É uma loucura".
Antes desta corrida, Nketia era praticamente desconhecido na Austrália, apesar do renovado interesse do país no atletismo graças às prestações de Gout.
Nascido em Auckland, Nketia só mudou de nacionalidade da Nova Zelândia para a Austrália em dezembro, após cumprir o período obrigatório de afastamento das grandes competições internacionais.
Passou grande parte da infância em Camberra, mas regressou à Nova Zelândia para concluir o ensino secundário.
O seu pai ganês, Gus Nketia, também foi velocista e deteve o recorde neozelandês dos 100m (10,11) durante 28 anos, até o filho o superar com 10,08 nos Mundiais de 2022 — com a ajuda do próprio Gus como treinador.
Foi um momento marcante, celebrado pela comunicação social neozelandesa, mas a relação de Nketia com a federação de atletismo do país já estava tensa.
A Nova Zelândia tem critérios rigorosos para a seleção olímpica, escolhendo apenas atletas com capacidade comprovada para terminar entre os 16 primeiros das respetivas provas.
Nos Jogos da Commonwealth, menos competitivos, só são considerados atletas com potencial para terminar entre os seis primeiros.
Esta política tem causado descontentamento entre vários atletas neozelandeses ao longo dos anos, e Nketia criticou publicamente os selecionadores olímpicos depois de ficar de fora de Tóquio-2020.
Após também ter falhado os Jogos da Commonwealth de 2022 em Birmingham, Nketia tomou a sua decisão.
"As circunstâncias estavam sempre a arruinar as minhas hipóteses de me tornar um atleta melhor", afirmou.
Virar costas ao país natal foi uma decisão difícil para Nketia, que continua orgulhoso das suas raízes neozelandesas e chegou a ser uma promessa do râguebi juvenil, sonhando jogar pelos All Blacks.
Chegou a abandonar por completo o atletismo para integrar o programa de futebol americano da Universidade do Havai, dizendo que precisava de um novo começo.
"Não era propriamente por estar farto do atletismo. Estava era cansado de falhar Jogos", explicou.
Com 1,90m e cerca de 97 kg, Nketia, de constituição imponente, jogou como wide receiver antes de regressar ao atletismo com a USC.
O seu treinador na USC, Brenton Emanuel, chama-lhe "Incrível Hulk" — fora da pista é tranquilo, mas em competição transforma-se. Acredita que Nketia pode vir a figurar entre os grandes nomes do sprint.
"Ele ativa o seu superpoder e simplesmente dispara", disse à Reuters, sentado ao lado de Nketia na videochamada.
Nketia quer conquistar medalhas em campeonatos e já assinalou os Jogos da Commonwealth, de 23 de julho a 2 de agosto, no seu calendário.
Primeiro, pretende quebrar oficialmente a barreira dos 10 segundos nos 100m durante a época da NCAA, antes de Glasgow.
Apenas dois australianos, Patrick Johnson (9,93) e Kennedy (9,96), conseguiram esse feito, enquanto o recorde pessoal de Gout é exatamente 10 segundos.
Gout vai faltar a Glasgow, mas Nketia imagina um duelo na Austrália no próximo ano contra o jovem e Kennedy.
A possibilidade de os três se juntarem nas estafetas entusiasma também Nketia, que acredita que podem transformar a Austrália numa potência do sprint ao nível dos EUA e da Jamaica.
"Quando chegarem os mundiais do próximo ano... e também os Jogos Olímpicos, é como se fôssemos dar tudo, fazer o possível para alcançar o maior número de pódios", afirmou.
