Quando Juri Knorr optou por deixar a Bundesliga alemã e o Rhein-Neckar Lowen para assinar um contrato de três anos com o Aalborg Handball a partir do verão de 2025, surpreendeu o mundo do andebol, pois é raro uma estrela alemã de topo, no auge da carreira, trocar a Bundesliga pela liga dinamarquesa.
Com 26 anos, Knorr já se afirmou como um dos maiores nomes do andebol. No Campeonato do Mundo de 2023, foi o melhor marcador da Alemanha com 53 golos, somou 52 assistências e foi eleito pela primeira vez para a Equipa All-Star como Melhor Jovem Jogador.
No Euro-2024, marcou 50 golos e foi nomeado melhor central da Equipa All-Star. Nos Jogos Olímpicos de Paris-2024, onde conquistou a prata com a Alemanha, terminou em segundo nas assistências, foi o 10.º melhor marcador e voltou a integrar a Equipa All-Star.
Tradicionalmente, os melhores jogadores transferem-se de clubes dinamarqueses para os poderosos clubes alemães, e não o contrário. Knorr era amplamente visto como o rosto e a maior promessa do andebol alemão, tornando inesperada a sua saída da liga nacional mais forte do mundo.
Hoje, após apenas uma época no Aalborg, Knorr é considerado um dos jogadores-chave de uma equipa que esteve a centímetros de alcançar a final da Liga dos Campeões em 2026. Mas como é que o internacional alemão viveu a sua primeira temporada na Dinamarca?
- Ao fim de apenas três meses, já falava quase fluentemente dinamarquês, uma língua que muitos dizem ser difícil de aprender. Era importante mostrar esse compromisso?
Sim, era muito importante para mim porque quero mesmo integrar-me dentro e fora do campo. É mesmo o mais importante quando se muda para o estrangeiro: aprender a língua. Ainda não estou exatamente onde quero, pois nem sempre percebo as piadas no balneário e isso frustra-me um pouco porque queremos sentir-nos parte do grupo, mas está a melhorar; leva tempo.
- Está na Dinamarca há cerca de um ano. A estadia correspondeu às suas expectativas? E qual foi a maior adaptação que teve de fazer?
Sempre soube que ia ser difícil. Claro que é um grande passo. No início, é preciso conhecer os outros jogadores. Quando se chega a um clube ou a uma equipa em que se é o único que não consegue falar na sua própria língua, é complicado. E acabamos sempre por ser um pouco outsiders. Mas é preciso ultrapassar isso. É uma boa sensação quando sentimos que já nos adaptámos, também dentro de campo. O sistema de jogo aqui é diferente do que estava habituado. Naturalmente, o meu papel também mudou um pouco em relação ao Rhein-Neckar Lowen. É simplesmente um estilo de andebol diferente. Temos táticas distintas, em que a bola tem de circular mais rápido, e não jogamos tanto com pivô.

- Muitos jogadores dizem, também noutros desportos, que se estiverem felizes fora do campo, também jogam melhor dentro de campo. Sente-se mais feliz em campo na Dinamarca do que na Alemanha?
É difícil dizer. Não diria que estou tão integrado como estava em Heidelberg (Alemanha), onde vivia antes. É preciso ser aberto, sair e falar com as pessoas. Tento, mas claro que também é complicado por causa da barreira linguística, mas tenho algumas pessoas com quem convivo fora do andebol. O desporto tem muitos altos e baixos. Às vezes estamos felizes, outras vezes estamos em baixo; pode mudar em poucos dias, e aqui é igual ao que era na Alemanha. Já tive bons momentos no Aalborg, mas também passei por fases difíceis.
- Obviamente, a comida é uma parte importante de uma cultura diferente. Gosta da comida dinamarquesa?
Gosto muito da tradição do smørrebrød (sandes dinamarquesa aberta com vários ingredientes sobre uma fatia de pão de centeio escuro e denso). Sou vegetariano, mas fiquei realmente surpreendido com a quantidade de carne que se come na Dinamarca, especialmente porco. Os dinamarqueses dizem sempre que os alemães comem muita carne, mas acho que aqui comem ainda mais. A comida faz parte de conhecer um país. Muitos turistas alemães vêm de férias à Dinamarca, mas não conhecem verdadeiramente o país. Só se conhece um país vivendo nele, e era isso que eu queria fazer."
- É visto como um dos jogadores-chave do Aalborg e também da seleção alemã. A pressão que sente é mais fácil de gerir na Dinamarca do que era na Alemanha?
Não, não diria isso. Sei que foi um dos grandes temas na comunicação social quando saí, mas na verdade nunca disse isso, porque sabia que ao assinar pelo Aalborg ia jogar num dos cinco melhores clubes do mundo neste momento. Aqui há menos atenção mediática, mas as expectativas em relação a mim são mais altas do que na Alemanha. É preciso ganhar todos os jogos na liga dinamarquesa e na taça. Claro que o principal objetivo do clube é vencer a Liga dos Campeões, por isso a pressão é grande.
- Acha que os media e os adeptos alemães sentem que o melhor jogador alemão deve jogar na Bundesliga?
No fim de contas, foi a minha decisão, e as pessoas podem pensar o que quiserem. A Bundesliga é a melhor liga do mundo, e cada vez mais jogadores estrangeiros querem ir para a Alemanha. A liga está realmente a crescer em qualidade. Mas quando era mais novo, admirava muitos jogadores que não jogavam na Bundesliga, e também quis sair porque queria um desafio fora da Alemanha.
- Ficaram muito perto de chegar à final da Liga dos Campeões, mas foram eliminados pelo Barcelona no final da última época. Essa derrota ainda dói?
Sim, sem dúvida, estivemos muito perto. Ficámos felizes e orgulhosos por termos chegado a Colónia (palco da Final Four). Mas claro, quando lá estamos, queremos ganhar, e estivemos mesmo perto. Ainda penso que não fizemos o nosso melhor jogo nesse dia, o que torna tudo ainda mais doloroso. Cada época traz uma nova oportunidade, mas claro que o caminho é longo. Espero que este clube consiga alcançar esse objetivo um dia.
- O Campeonato do Mundo de Andebol, que vai decorrer no seu país no início do próximo ano, deve ser algo muito especial para si. Está ansioso por esse momento?
Na verdade, tento sempre não pensar muito no futuro porque nunca se sabe; tudo pode mudar rapidamente. Espero conseguir manter-me saudável, fazer parte da equipa e estar à altura. Claro que falta apenas meio ano, mas ainda há muitos jogos para disputar. Quero concentrar-me em todos eles e fazer o meu trabalho aqui o melhor possível, e claro, quero também ajudar a seleção nacional.
