Ir para o conteúdo principal

Da euforia do Tour à realidade: Será sustentável o ciclismo feminino?

 Demi Vollering
Demi Vollering NICOLAS TUCAT / AFP

Depois da euforia, surgem as perguntas. Terminada a Volta a França, o ciclismo feminino depara-se com a dura realidade da sua fragilidade económica e com a necessidade de transformar esta onda de entusiasmo num modelo rentável e duradouro.

Ciclistas, organizadores, adeptos, observadores... Todos partilhavam a mesma exaltação no final da quinta edição da Grande Boucle desde o seu renascimento em 2022: a Volta a França feminina foi um sucesso absoluto.

Em termos desportivos, coroou Demi Vollering como a melhor ciclista do mundo – já vencedora do Giro e de várias clássicas esta época – ao fim de um enredo digno de Hitchcock, nos antípodas da prova masculina, rapidamente anestesiada por um Tadej Pogacar ultradominante.

A Volta feminina arrancou no início de agosto, uma semana depois da chegada dos homens a Paris, e conseguiu convencer o público a prolongar a festa junto a estradas frequentemente repletas.

A chegada a Nice reforçou ainda mais esta sensação de multidão, com milhares de veraneantes, franceses e estrangeiros, a acotovelarem-se no sábado e no domingo ao longo da Promenade des Anglais para prestar homenagem às campeãs.

 Diferença salarial e falta de exposição 

As audiências televisivas estiveram à altura, com um recorde de quota de ecrã em França e um pico de mais de cinco milhões de espectadores na sexta-feira durante a subida ao Ventoux, apesar de a figura nacional Pauline Ferrand-Prévot não ter conseguido brilhar.

E os meios de comunicação que acompanham a corrida são cada vez mais numerosos, com 150 jornalistas acreditados face a 80 no ano anterior.

O quadro seria idílico se não fosse ensombrado pela realidade económica de uma modalidade frágil assim que se apagam os holofotes da Volta.

"Enquanto os homens beneficiam de exposição durante dez meses em doze, as mulheres têm de se contentar com entre 25 e 30 dias de corrida transmitidos na televisão", explicava na semana passada à AFP Richard Plugge, diretor das equipas masculina e feminina Visma-Lease a Bike, onde correm as estrelas Ferrand-Prévot e Jonas Vingegaard.

"Os investimentos (das equipas) tornaram-se demasiado elevados para que se possa estar satisfeito com o calendário atual", com muito poucas provas televisivas, acrescenta Philippe Roodhooft, responsável pela equipa feminina Fenix-Premier Tech e pela Alpecin na categoria masculina.

Para o chefe da figura Mathieu van der Poel, outro problema pesa sobre o ciclismo feminino: a escassez de ciclistas com imagem reconhecida, enquanto todos os patrocinadores já exigem secções femininas: "Hoje, que empresa que invista no ciclismo aceitará ficar apenas com uma equipa masculina? Nenhuma".

Problema: não há líderes de topo suficientes no mercado e as equipas disputam-nas a peso de ouro.

"Estamos a assistir a uma inflação dos salários, com algumas ciclistas sobrevalorizadas contra toda a lógica", considera Roodhooft.

Assim, enquanto as ciclistas mais modestas continuam a receber o salário mínimo (38.000 euros brutos em França), as melhores já podem aspirar a um cheque próximo de um milhão de euros anuais, como a espanhola Paula Blasi, a jovem vencedora da Volta a Espanha, cobiçada por todos.

Rumo a mais dias de corrida? 

Com tais investimentos, as melhores equipas (cujos orçamentos rondam os oito milhões) como FDJ-United (Vollering), SD Worx (Wiebes, Kopecky), UAE (Blasi), Movistar (Reusser), Visma (Ferrand-Prévot, Vos) ou Canyon (Niewiadoma) exigem maior visibilidade.

Esta semana, as redes sociais fervilharam: os telespectadores exigem a transmissão integral das etapas da Volta feminina, tal como acontece há dez anos na prova masculina.

"As raparigas merecem-no, mas tem um custo. Há uma reflexão real (entre a ASO, organizadora, e a France TV), esperamos avançar nesse sentido", declarou a diretora da Volta feminina, Marion Rousse.

No que diz respeito ao aumento do número de dias de corrida da Volta – nove por agora – que várias ciclistas reclamam, Rousse receia esgotar os plantéis, já que as equipas femininas contam em média apenas com 12 ciclistas (face a 30 nas masculinas), enquanto a densidade global do pelotão ainda precisa de ser reforçada.

"A Volta deve crescer ao mesmo tempo que o ciclismo feminino", repete incessantemente Marion Rousse.