Mais ausente nos últimos tempos, o britânico regressa ao Tour num novo papel de embaixador da Skoda e confirma, entretanto, que está mesmo afastado do pelotão, apesar de nunca ter anunciado verdadeiramente a sua retirada.
- O que sente ao regressar ao Tour?
- Enquanto corredor, vê-se a corrida de uma determinada forma, mas há tantas coisas que se perdem. Estou ansioso por poder acompanhar a corrida com o olhar de adepto, por estar no carro no percurso, por parar para ver o pelotão passar. Vai trazer-me muitas recordações.
- Nunca anunciou oficialmente a sua retirada como corredor. Está mesmo efetivada?
- Sim. Sabia, ao assinar o meu último contrato, que seria o último e terminou no final do ano passado. Infelizmente, houve aquela queda no final de agosto. Não era de todo a forma como queria terminar. Mas, nesse momento, não havia qualquer dúvida na minha cabeça de que estava acabado.
- Quão difícil foi aceitar que nunca mais voltaria ao seu antigo nível depois da queda no Dauphiné em 2019?
- Foi duro. Mas fico satisfeito por ter tentado e por não ter terminado com aquela queda. Senti, em certos momentos, que estava a progredir, mas nunca voltei a sentir-me da mesma forma.
- Tadej Pogacar procura a quinta vitória no Tour. Já esteve na mesma posição. Até que ponto é um desafio?
- Não creio que o número em si seja o que torna a tarefa difícil. O verdadeiro desafio é conseguir manter-se consistente durante um período tão longo. O Tadej é muito mais novo do que eu era quando tentava alcançar esse quinto triunfo. Já fez uma época incrível e, a este ritmo, é difícil imaginar o que o poderá travar. Se conseguir manter-se em cima da bicicleta, temos a sensação de que já tem este Tour garantido. É extremamente impressionante.
- Quantos Tours mais poderá vencer?
- Neste desporto, tudo pode mudar num instante e aprendi isso da pior forma. Potencialmente, poderia continuar mais cinco anos. Mas será que vai ter vontade, motivação? Não sei. Vai ter de encarar as coisas dia após dia.
- Jonas Vingegaard tenta o duplo Giro-Tour como fez em 2018. Também é um grande desafio?
- Depois de ter vencido as três grandes Voltas num período de 12 meses em 2017/2018, quando regressei ao Tour, foi simplesmente demasiado para mim. Não sei em que estado de espírito está o Jonas – parecia fantástico no Giro – mas fazer quatro Grandes Voltas seguidas a lutar sempre pela vitória é enorme. Também achei que a transição Giro-Tour era muito mais difícil de gerir do que a do Tour para a Vuelta. Quando cheguei à última semana do Tour, estava completamente esgotado.
- O que pensa de Paul Seixas?
É um talento enorme. Tem um futuro brilhante pela frente. Tem claramente um motor impressionante. Mas só tem 19 anos. Se tivesse de lhe dar um conselho, diria: 'é fantástico estares no Tour este ano, mas limita-te a isso, aproveita ao máximo, aprende, absorve tudo'. Na sua cabeça, deve pensar que o verdadeiro objetivo será daqui a dois ou três anos, quando vier aqui para tentar lutar pela vitória. Por agora, não deve colocar demasiada pressão sobre si próprio. Sobretudo com toda a França a depositar nele as suas esperanças, é um peso bastante grande para carregar. É o meu único receio para ele: que, se não vencer, isso seja visto como uma desilusão, quando ainda é apenas um miúdo. Pode ser que me faça engolir estas palavras e esteja já na luta. Mas, aos 19 anos, é pedir-lhe muito."
