Talvez o momento mais marcante do corredor da UAE Emirates na ‘sua’ quinta Volta a França tenha sido, mais do que as cinco etapas ganhas ou o triunfo no Alpe d’Huez, o desconcerto que demonstrou após o abandono, por queda, de Jonas Vingegaard, o homem com que alternou os dois primeiros lugares da geral da prova francesa desde 2021.
Nesse dia, o da visita de madrugada dos inspetores da Agência Internacional de Testes (ITA) aos dois arquirrivais, Pogi pareceu perder a chama (ao ponto de deixar Remco Evenepoel vencer a etapa), reconhecendo: “O Tour não será o mesmo sem ele”.
Na ausência do dinamarquês, Pogacar apresentou menos killer instinct – a luta entre os dois visivelmente motiva-o -, talvez ciente de que nenhum dos ‘outros’ conseguiria sequer rivalizar com a sua supremacia, como foi bem evidente quando, sozinho, anulou mais de três minutos de desvantagem para se impor no Alpe d’Huez, onde estabeleceu um novo recorde de subida mais rápida, pulverizando a marca de Marco Pantani (1995).
Líder confortável desde o sexto dia, entreteve-se na última semana, após a desistência do líder da Visma-Lease a Bike, a ser mentor de Isaac del Toro, a quem já tinha oferecido a segunda etapa, convertendo-se mesmo em gregário do jovem mexicano de 22 anos, que aponta como seu sucessor, para o ajudar a segurar o terceiro lugar do pódio.
A superioridade de Pogacar é tal que o esloveno parece cansar-se dela numa prova de três semanas – o mesmo acontece com adversários e até com alguns adeptos -, tendo demonstrado novamente que nunca sentirá a mesma paixão pelo Tour que sente pelas suas adoradas clássicas e até pelos Mundiais, onde este ano espera sagrar-se tricampeão e igualar os recordistas de camisolas arco-íris.
Colecionar recordes continua a ser o que impele o líder da UAE Emirates, com o debate sobre quem é o melhor ciclista de sempre, ele ou Eddy Merckx, a pender cada vez mais para o lado de Pogi, que inaugurou o seu currículo na Volta ao Algarve, no já distante ano de 2019.
Pouco resta daquele tímido teenager, com a cara cheia de borbulhas e visíveis dificuldades em expressar-se em inglês, que venceu a Algarvia, com o esloveno convertido numa estrela que cruza fronteiras no desporto pelo seu carisma e desconcertante descontração, sendo um fenómeno mesmo entre outros desportistas de elite, como, por exemplo, o piloto de Fórmula 1 Carlos Sainz, o vizinho com quem costuma passear de bicicleta.
Apesar da fama, o líder da UAE Emirates continua a ser o maior motivador dos seus colegas de equipa, tanto na estrada como nas redes sociais, não se esquecendo de os parabenizar quando alcançam feitos pessoais, além de nunca poupar elogios aos adversários e delinear o seu próprio calendário.
Este ano, focou-se em preencher lacunas no currículo, dedicando-se apenas às clássicas na primeira parte da época: venceu finalmente a Milão-San Remo, um dos dois Monumentos que lhe faltava (tem agora 13), e sofreu a única derrota no outro, a Paris-Roubaix, magistralmente vencida pelo segundão Wout van Aert.
Esse é um dos sonhos por cumprir de alguém que já ganhou (quase) tudo, e que agora se dá ao luxo de optar quase apenas pelas provas que lhe faltam conquistar, como aconteceu em 2026 com as Voltas à Suíça e Romandia – assim, resta-lhe a Volta ao País Basco para ter no palmarés as sete principais corridas de uma semana.
Talvez por isso, e por Vingegaard ter completado a trilogia em grandes Voltas antes dele, com a vitória no Giro em maio, não seja de estranhar que o campeão de 2024 da corsa rosa esteja à partida para a próxima Vuelta, a única grande que ainda não venceu e na qual foi terceiro em 2019, na sua estreia em corridas de três semanas.
Neste percurso de sucesso, o mais curioso é que o primeiro amor do rapaz nascido em 21 de setembro de 1998, em Komenda, até nem foi o ciclismo, modalidade que apareceu quase por acaso na sua vida, quando era o futebol a força que o movia; foi o irmão Tilen, que se inscreveu no clube velocipédico de Liubliana, o grande responsável por hoje o esloveno ser tetracampeão do Tour.
“Quis imediatamente imitar o meu irmão, mas não tinham uma bicicleta tão pequena no clube”, revela no seu site pessoal.
Fazendo jus à perseverança evidenciada na sua carreira, não desistiu de seguir as pisadas de Tilen e, em pleno inverno, com apenas nove anos, começou a acompanhá-lo nos treinos, participando na sua primeira corrida logo em 2008, com bons resultados, para nunca mais parar.
O potencial tremendo, corroborado pela conquista da Volta a França do Futuro (2018), chamou a atenção da UAE Emirates, que lhe ofereceu um contrato (atualmente quase vitalício), com o desfecho que agora se conhece: o de igualar o recorde de cinco vitórias no Tour.
