Empate do Catar com a Suíça, Cabo Verde a travar Espanha, a RD Congo a retirar dois pontos a Portugal e o Haiti a discutir o jogo com a Escócia para lá daquilo que o resultado final mostra, são sinais de um futebol mais nivelado, mais preparado e menos obediente às hierarquias habituais.
O que se viu, acima de tudo, foi a dificuldade de várias equipas europeias em impor o seu jogo perante adversários compactos, agressivos e emocionalmente preparados. Ter bola foi, muitas vezes, insuficiente. Faltou criatividade interior, ocupação entre linhas e capacidade para transformar domínio em perigo real.
Mas a jornada não viveu apenas de tropeções. Também houve equipas que deixaram água na boca: o México pela pressão e plasticidade tática, a Coreia do Sul pela forma como atacou um bloco baixo sem perder equilíbrio, a Noruega pela força vertical e pela ameaça constante, e a Colômbia por um futebol de passe, movimento e liberdade que fez lembrar os melhores dias de 2014.
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Entre confirmações, avisos e surpresas, a primeira jornada deixou uma certeza: este Mundial começou bem mais interessante do que muitos imaginavam.
México: pressão, hibridismo e agressividade organizada
Recorde aqui o México 2-0 África do Sul
Uma das equipas que deu mais gosto ver jogar nesta primeira jornada foi o México. Não apenas pelo resultado, mas pela forma como se apresentou: intenso, agressivo, vertical quando necessário e taticamente flexível.
A sua pressão em 4-1-3-2 foi um dos pontos mais interessantes do jogo. Uma pressão intensa, coordenada, que resultou num golo e criou condições para que outros pudessem surgir. O México conseguiu muitas vezes condicionar a primeira fase de construção da África do Sul, forçando decisões precipitadas e recuperando a bola em zonas onde podia atacar rapidamente.

Mas o mais interessante foi perceber que este 4-1-3-2 não era uma estrutura rígida. Era um sistema híbrido, capaz de se transformar em 5-4-1 quando a equipa baixava no terreno. Essa elasticidade permitiu ao México pressionar alto em determinados momentos e proteger-se melhor quando o jogo pedia contenção.
Com bola, a equipa também mostrou bons sinais. Conseguiu ligar várias vezes por dentro, envolvendo muitos jogadores na construção e procurando apoios frontais para sair da pressão, nem sempre organizada, da África do Sul. Jiménez foi importante nesse papel, funcionando como referência para ligar o jogo e permitir que a equipa respirasse.
Outro ponto muito interessante foi a liberdade dada a Quiñones. A sua capacidade para fugir a marcações, aparecer em zonas diferentes e andar solto no campo criou problemas constantes. O lance do segundo golo nasce precisamente dessa combinação de fatores: apoio frontal, ligação interior e liberdade posicional. É verdade que a África do Sul já estava em inferioridade, mas a forma como o México interpretou o momento merece destaque.

O México deixou a sensação de ser uma equipa a seguir com atenção. Não é apenas uma seleção intensa; é uma equipa com mecanismos, com agressividade e com capacidade para adaptar a sua estrutura aos diferentes momentos do jogo.
Coreia do Sul: uma aula sobre como atacar blocos baixos
Recorde aqui o Coreia do Sul 2-1 República Checa
A Coreia do Sul foi outra das equipas que mais impressionou nesta primeira jornada. E impressionou, sobretudo, pela maturidade coletiva.
Defensivamente, revelou-se uma equipa muito segura. A reação à perda foi uma das suas grandes armas. A capacidade de recuperar a bola no meio-campo ofensivo, e até já no último terço, permitiu-lhe manter o adversário longe da sua baliza e atacar de forma continuada. Mas o mais interessante foi que essa agressividade após perda nunca pareceu desorganizada. Havia sempre equilíbrio. Havia sempre jogadores preparados para controlar as referências adversárias e evitar transições.
Com bola, os sul-coreanos deram uma verdadeira aula de como atacar um bloco baixo. Não caíram na tentação de acelerar sempre. Não confundiram velocidade com pressa. Circularam, atraíram, movimentaram, esperaram e encontraram espaços entre linhas com enorme qualidade.

A facilidade com que a equipa descobria jogadores em zonas interiores foi um dos aspetos mais fortes do jogo. Contra um adversário que se colocou muitas vezes num bloco baixo, tiveram paciência para ir desmontando a estrutura rival sem se partir. Os jogadores mais recuados estavam sempre preocupados em ocupar posições que impedissem a saída adversária e, ao mesmo tempo, garantissem linha de passe para continuar a circulação.
O resultado final, 2-1, não traduz totalmente aquilo que o jogo foi. Não é exagero dizer que podia ter sido bem mais dilatado. A Coreia do Sul criou, controlou e manipulou o adversário com uma qualidade coletiva muito interessante.
Houve grande mobilidade, mas sempre com equilíbrio. A equipa tocou o jogo de forma harmoniosa, com inteligência para entender quando devia atrair e quando devia atacar o espaço. A forma como enganou a defesa adversária, alternando movimentos de ataque à bola com movimentos de ataque ao espaço, foi fantástica.

O primeiro golo nasce de um desses momentos de paciência. Depois de uma circulação longa, com mobilidade constante no meio-campo, Hwang In-Beom, teoricamente o médio mais defensivo, aparece em zona de finalização. O segundo golo volta a mostrar essa inteligência nos contra-movimentos: apoio seguido de rutura, atração seguida de ataque ao espaço. E, mais uma vez, Hwang In-Beom aparece numa zona que, à partida, não seria dele.
A Coreia do Sul deixou a sensação de ser uma equipa muito bem trabalhada. Segura, móvel, agressiva na reação à perda e muito competente a atacar blocos baixos. Uma seleção para acompanhar de perto.

Noruega: uma seta apontada às defesas adversárias
Recorde aqui o Iraque 1-4 Noruega
A Noruega confirmou na primeira jornada muito daquilo que já tinha mostrado no apuramento. É uma equipa forte, vertical, poderosa e com uma capacidade enorme para colocar os seus avançados em situações de finalização.
É quase uma seta apontada às defesas adversárias. Tem força, velocidade e médios capazes de encontrar os avançados no momento certo. Quando consegue acelerar, torna-se extremamente difícil de controlar. Não precisa de muitas ações para criar perigo. Às vezes, bastam dois ou três passes bem orientados para colocar alguém na cara do golo.
Mas reduzir a Noruega à força e à velocidade seria injusto. Neste primeiro jogo, mostrou capacidade para marcar de diferentes formas: cruzamento rasteiro, cruzamento aéreo, pressão, bola parada. Essa variedade torna a equipa mais difícil de anular, porque obriga o adversário a defender vários tipos de ameaça.

A bola parada merece destaque especial. É claramente uma arma importante. A Noruega tem jogadores fortes, altos, agressivos no ataque à bola e conta com batedores muito eficazes. Num torneio curto, onde tantos jogos se decidem em detalhes, este tipo de recurso pode valer muito.
A Noruega pode não partir na primeira linha das candidatas ao título, mas tem argumentos para ser um outsider muito perigoso. Pela força física, pela profundidade, pela eficácia e pela forma como consegue transformar momentos aparentemente simples em situações de golo.
Colômbia: a equipa que mais apetece voltar a ver
Recorde aqui o Uzbequistão 1-3 Colômbia
Se há uma equipa que deixou vontade imediata de ver o próximo jogo, essa equipa foi a Colômbia.
Fez um jogo de controlo quase total e, em muitos momentos, maravilhou pelo futebol praticado. A sua forma de jogar a passe e movimento, com jogadores a correrem em direção à bola, dava por vezes a sensação de estarem a jogar ao meio em mobilidade pelo campo fora. Havia proximidade, havia relação, havia prazer em ligar o jogo.
As entradas e saídas constantes dos jogadores da largura para zonas interiores tornaram muito difícil a tarefa defensiva do adversário. Quem marcava quem? Quem acompanhava quem? Quem saltava na pressão e quem protegia o espaço? A Colômbia criou esse tipo de dúvidas de forma permanente.

James Rodríguez continua a ter liberdade para andar por onde quiser. E continua a justificar essa liberdade. A sua qualidade de decisão, a sua relação com a bola e a sua capacidade para aparecer nos espaços certos mantêm-se num nível altíssimo. Há jogadores que perdem velocidade, intensidade ou disponibilidade física com o tempo. James pode ter perdido algumas coisas, mas não perdeu qualidade.
Luis Díaz também foi muito interessante pela forma como alternou comportamentos. Podia fixar à largura, entregando o corredor interior a Johan Mojica, ou aparecer por dentro para fazer últimos passes. No lance do primeiro golo, é precisamente essa capacidade de aparecer em zonas interiores que faz diferença. Depois, Muñoz, lateral direito, surge numa zona dificílima de controlar e finaliza com enorme qualidade.

Luis Suárez, mesmo com alguns passes falhados, mostrou uma grande capacidade para se ligar com os colegas. Esteve constantemente disponível, deu apoios, procurou tabelas e ajudou a equipa a ter continuidade.
Esta Colômbia entusiasma como já não entusiasmava desde o Mundial-2014. Tem talento, mobilidade, criatividade e uma relação com a bola que dá prazer ver. E deixa uma sensação muito clara: este James, por mais anos que passem, não consegue perder a qualidade.

Argentina e França: candidatas que fizeram o que tinham de fazer
Num Mundial que começou com tropeções, surpresas e algumas favoritas em dificuldades, Argentina e França fizeram aquilo que se esperava delas. E isso, por si só, já merece destaque.
Não precisaram de inventar. Não facilitaram. Entraram com responsabilidade de candidatas e fizeram o seu trabalho com mestria.

Há algo muito importante nestes contextos: os grandes torneios não se ganham apenas nos jogos épicos. Também se constroem nos jogos em que é preciso ser sério, competente e eficaz. Argentina e França mostraram essa maturidade. Colocaram os seus jogadores mais importantes a brilhar, controlaram os momentos do jogo e não permitiram que a primeira jornada se transformasse numa armadilha.
Num arranque em que várias equipas sentiram dificuldade para transformar favoritismo em domínio real, Argentina e França reforçaram a ideia de que continuam a ser candidatas muito fortes ao título.

Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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