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A primeira memória de Mundial de Antonio Nusa remonta a 2014, e tem um nome: o Mineirazo. Nesse 8 de julho, em Belo Horizonte, o Brasil desmorona-se por 7-1 frente à Alemanha na meia-final. "Acho que a minha primeira memória de um Mundial é o Brasil, em 2014. Lembro-me especialmente do jogo em que o Brasil perde 7-1 contra a Alemanha, porque eu apoiava o Brasil. Marcaram tantos golos que ainda hoje me recordo disso", confessou recentemente num vídeo para o seu clube, o RB Leipzig. O jovem norueguês seguia então a Seleção por uma única razão: Neymar. "Já disse muitas vezes que gosto do Neymar, adoro vê-lo jogar, é o meu ídolo. Quando era pequeno ficava tão feliz por o ver jogar. E espero que as pessoas também fiquem felizes quando me veem jogar".
A admiração acabou por transformar-se numa ligação futebolística. Muito cedo, logo que se destacou no Stabæk, Nusa já assumia essa inspiração: "O Neymar é o meu modelo porque cria o caos em campo com os seus dribles, tal como eu. É um dos melhores jogadores do mundo". Mais recentemente, numa entrevista ao seu clube, explicou o que o atraía para além da técnica: "A minha maior inspiração continua a ser o Neymar. Não só pela técnica, mas pelo espetáculo e pela alegria que traz ao jogo. Adoro situações de um contra um. É o que mais gosto no futebol: driblar, ter liberdade para criar algo em campo".
O apelido de "Neymar norueguês" acompanha-o desde o início da carreira profissional, uma etiqueta que diz aceitar com alguma ambivalência, tanto o honra como o incomoda. Questionado sobre as comparações constantes, tenta manter a distância: "Ouvi dizer que as pessoas falam dele e de mim, e é engraçado, mas não me comparo com os outros. Não penso muito no que os outros faziam quando tinham 16 anos".
Já teve oportunidade de cruzar-se com o seu ídolo em campo, numa digressão de verão do RB Leipzig ao Brasil contra o Santos, a 29 de maio de 2025, que terminou com vitória alemã por 3-1 e troca de camisolas. "Conhecer o Neymar foi simplesmente irreal, para ser honesto. Não conseguia acreditar. Foi a primeira vez na vida que conheci realmente alguém que admiro tanto. Tento aprender com ele... os seus gestos técnicos e aquele instinto único de se expressar em campo", contou. A camisola em questão está hoje em destaque na sua sala de estar.
O dia em que Chivu previu a sua carreira
Se o Mineirazo alimentou a sua paixão pelo futebol brasileiro, outro episódio, menos conhecido, moldou o jogador que viria a ser. Em 2018, com 13 anos, nos sub-14 do Stabæk, disputou um torneio internacional frente ao Inter Milão e conseguiu um empate. Após o jogo, onde brilhou, o treinador da Primavera milanesa entrou no balneário norueguês. Chamava-se Cristian Chivu, antigo defesa romeno vencedor da Liga dos Campeões em 2010 e atualmente treinador do clube interista. Perguntou quem usava o número 10. Impressionado, Nusa levantou a mão. "Parabéns. Grande jogo. Vais ter uma grande carreira", disse-lhe então Chivu. Uma bênção que o jogador nunca esqueceu e que antecedeu uma ascensão fulgurante na sua carreira.
Estreia no campeonato norueguês em 2021, transferência para o Club Brugge aos 16 anos, primeiro golo na Liga dos Campeões aos 17, primeira internacionalização aos 18 com direito a golo: tudo aconteceu rapidamente para Nusa. Por vezes, demasiado rápido para quem o rodeava. Formado no Stabæk, era tão superior aos colegas que o seu treinador da altura, Morten Albertsen, teve de reinventar a forma de o treinar. "Ele podia receber a bola, driblar três jogadores, recuar, e depois driblar outros três. Era tão forte com a bola que, por vezes, tínhamos de lhe dar tarefas e regras completamente diferentes das dos outros jogadores para que pudesse evoluir", explicava Albertsen, que por vezes limitava Nusa a dois toques na bola ou obrigava-o a assistir um colega antes de poder marcar ele próprio.

Este talento precoce, o Stabæk foi buscá-lo gratuitamente ao pequeno clube do seu bairro, o Langhus IL. A regulamentação norueguesa, que controla rigorosamente as transferências de jogadores muito jovens para evitar especulação, fez com que o clube formador fosse compensado não em dinheiro, mas em material desportivo: dezenas de bolas de treino e coletes.
Este equilíbrio constante entre os estudos e o alto rendimento valeu-lhe um apelido entre os colegas de turma em Langhus: "Spøkelset", O Fantasma, porque chegava muitas vezes atrasado devido às viagens de comboio ou desaparecia a meio da tarde para treinar com os adultos. Os professores, no entanto, sublinhavam que entregava sempre os trabalhos de casa a tempo. O seu primeiro jogo como profissional na Eliteserien, com apenas 16 anos, foi improvisado à última hora devido a uma vaga de lesões no plantel: na pressa, Nusa esqueceu-se das suas chuteiras preferidas no centro de treinos e teve de jogar com um par emprestado por um colega mais velho, um pouco grande demais para os seus pés.
Aprender a viver no silêncio
A transferência para Brugge aos 16 anos marcou, no entanto, uma viragem mais dolorosa. No seu livro "Tudo começa com um sonho", dedicado ao desenvolvimento pessoal e à saúde mental no futebol, recordou esse período de isolamento: "Sentia o ambiente. O silêncio. As conversas de bastidores. Pessoas a olhar para mim e a falar uma língua que eu não compreendia. Tentem imaginar: estão sentados sozinhos no balneário e toda a gente vos observa. Dois ou três rapazes, que deviam ser vossos colegas de equipa, estão ali e falam sobre vocês, mas não convosco". Acrescenta que passou por essa fase sozinho: "Não podia falar com ninguém sobre isso, e acho que isso tornou tudo ainda mais difícil. Foi, em muitos aspetos, um círculo vicioso". O livro, publicado na Noruega, vendeu mais de 21.000 exemplares no país, um número considerado elevado para um livro de desporto numa nação de 5,5 milhões de habitantes.
Desta experiência, diz ter retirado uma lição que aplica desde então, até à chegada a Leipzig: "Cabe-vos adaptar-vos aos outros, não o contrário". Esta maturidade também a cultivou fora dos relvados, através de um ritual pessoal que revelou num documentário: no início de cada ano, escreve uma carta a si próprio com objetivos concretos e secretos, que volta a abrir no final da época para avaliar a sua evolução.
Precocidade e etapas ultrapassadas uma a uma
Marcando na Liga dos Campeões aos 17 anos e 149 dias frente ao FC Porto, só é superado pelo barcelonista Ansu Fati na lista dos mais jovens marcadores da história da competição. Aos 18 anos, no mercado de verão de 2023, recusou uma proposta do Chelsea, preferindo continuar a somar minutos em Brugge em vez de dar um salto demasiado grande. Uma transferência para o Brentford acabou por falhar à última hora em janeiro de 2024, depois de a avaliação médica ter detetado pequenos problemas no joelho, antes de assinar finalmente pelo RB Leipzig no verão desse ano por 21 milhões de euros, sem contar com bónus.
À chegada à Alemanha, os dirigentes do clube esperavam ver chegar uma jovem estrela com os códigos do futebol moderno. Nusa apresentou-se aos treinos numa bicicleta velha, preferindo as ciclovias alemãs a um carro desportivo, fiel à humildade adquirida nos anos em Stabæk.
Esta precocidade também ficou confirmada na seleção antes mesmo deste Mundial. Com a camisola norueguesa, assinou dois golos marcantes nas eliminatórias frente à Itália. Na primeira mão, no Ullevaal Stadion de Oslo, numa vitória norueguesa por 3-0, ultrapassou facilmente dois adversários pela esquerda, entrou para o meio e disparou um remate potente de pé direito (34'). Na segunda mão, em San Siro, a Itália vencia por 1-0 quando Nusa deixou Politano para trás e disparou um míssil para o ângulo superior de Donnarumma, empatando o jogo (64'): a Noruega acabaria por vencer por 4-1. Tudo isto reforça uma ideia frequentemente associada a Nusa: até agora, tem-se destacado mais pela Noruega do que pelos clubes por onde passou, um fator que pode acelerar a transferência para um dos maiores clubes europeus depois do Mundial.
Um golo para a avó
Na terça-feira, frente à Costa do Marfim, Nusa marcou o seu primeiro golo num Mundial, com um remate em arco e potente que fez dele, aos 21 anos e 74 dias, o mais jovem marcador norueguês da história de um grande torneio, Mundial e Europeu incluídos. A sua celebração, com os dedos apontados ao céu, foi uma homenagem à avó falecida, de quem era muito próximo e que o incentivou, em criança, a acreditar nos seus sonhos desde os campos de Langhus.
É precisamente a Langhus que Nusa regressa sempre, mentalmente, quando a pressão se torna demasiado forte. Depois de uma vitória expressiva da Noruega por 4-1 frente ao Iraque, enquanto os colegas regressavam ao balneário sob aplausos, foi visto sentado sozinho no meio do relvado, ao telefone. Questionado sobre essa chamada, explicou que estava a conversar com os seus melhores amigos de infância, que tinham acabado de sair de um jogo de hóquei em Oslo: "Langhus não é Los Angeles, não esqueço de onde venho".
Neymar vai estar em campo?
Resta saber se o tão aguardado duelo com Neymar se vai mesmo realizar. O número 10 brasileiro, melhor marcador da história da Seleção com 79 golos, só participou num dos quatro jogos do Brasil neste Mundial, travado por uma lesão muscular nos dois primeiros jogos da fase de grupos. Reapareceu frente à Escócia, mas ficou no banco contra o Japão nos oitavos. "Se não tivéssemos empatado antes do minuto 60, ia pô-lo em campo", explicou Carlo Ancelotti, acrescentando que também ponderou lançá-lo no prolongamento. "Ele está bem", garantiu o selecionador italiano.
Para Nusa, a qualificação da Noruega já é "muito especial" para uma seleção que esteve durante muito tempo afastada das grandes competições: "A Noruega é um país muito bom em muitos desportos, mas no futebol, nos últimos anos, não tem estado tão bem. Por isso, conseguir qualificar-se para o Mundial... Acho que é um desporto que todo o país adora, é o desporto mais popular. Por isso é que foi tão especial". Mas a ambição não fica por aqui: "Podemos sonhar. Quem não sonha em levantar a Taça do Mundo? Eu sonho com isso". No domingo, ao defrontar Neymar, o menino de Langhus, o "Neymar norueguês", poderá viver um dos jogos mais simbólicos da sua jovem carreira.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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