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Talvez pela primeira vez na história, a seleção nacional parte para um Campeonato do Mundo com a sensação de que vai dar Portugal. Pedro Proença deu o mote das meias-finais, os jogadores falam abertamente do sonho, Roberto Martínez recusa favoritismo, mas a expectativa é inegável.
Depois dos triunfos diante do Chile (2-1) e Nigéria (2-1), Portugal parte esta sexta-feira para os Estados Unidos da América, onde vai defrontar a RD Congo, Uzbequistão e Colômbia no Grupo K. A esperança é muita, mas existem questões por resolver.
É comum ouvir-se dizer que a perfeição não existe no futebol. Contudo, os dois particulares deixaram à vista três problemas para os quais Roberto Martínez terá de encontrar solução se quiser levantar o troféu a 19 de julho.
Transição defensiva
Portugal sofreu golos em ambos os jogos particulares e esse é um sintoma, mais do que uma casualidade. Desde o Euro-2024, a seleção disputou 20 jogos e só não sofreu golos em quatro: Escócia (0-0), Arménia (0-5), República da Irlanda (1-0) e México (0-0).
E um dos problemas que salta à vista é as dificuldades na transição defensiva, problemático para uma seleção que se espera que passe grande parte do tempo na posse da bola e no meio-campo contrário.
O golo sofrido diante da Nigéria, que começou com um pontapé de baliza, em que os defesas lusos estavam numa marcação individual 3x3, ajuda a explicar isso. A RD Congo e a Colômbia, com jogadores velozes e tecnicamente capazes, podem aproveitar.
Centrais
Diretamente ligado ao primeiro problema está aquele que parece ser o ponto menos bom de uma seleção recheada de talento. Do meio-campo para a frente, as opções podem ser rodadas sem grande decréscimo de qualidade, e mesmo nas faixas laterais não é descabido argumentar que Cancelo e Nuno Mendes estão entre os melhores laterais no mundo. No centro da defesa, o caso muda de cenário.
Rúben Dias é o patrão da defesa, herdando esse papel de Pepe, mas chega depois de uma época marcada por problemas físicos e poucos minutos no Manchester City, onde fez quatro jogos entre março e maio.
A seu lado a vaga deve ser ocupada entre Gonçalo Inácio e Renato Veiga. O central do Sporting é exímio com bola, mas sente dificuldades nos duelos, algo visível no golo sofrido com a Nigéria. O jogador do Villarreal não se consegue impor no ar e perante avançados mais possantes vai sempre sentir dificuldades.
O lote fica completo com Tomás Araújo, um central também marcado por questões físicas.
Um problema a contornar pela organização coletiva.
Cristiano Ronaldo
Aos 41 anos, Cristiano Ronaldo não é o mesmo que se estreou em Mundiais, nos relvados da Alemanha, quando corria o ano de 2006. Mudou de um extremo desconcertante para um goleador nato, mas a idade não perdoa e estes dois particulares mostraram uma quebra evidente.
Não conseguiu ganhar a confiança desejada com pelo menos um golo diante de Chile ou Nigéria, sendo que contra os africanos até teve boas oportunidades, mas desperdiçou e chega ao Mundial como um quebra-cabeças.
Ponto assente: Portugal campeão do Mundo passará sempre pelo contributo de Cristiano Ronaldo. Prova disso foi a importância na conquista da Liga das Nações, diante da Espanha.
A questão é de que forma ele vai dar esse contributo e como influencia a forma de jogar da equipa. Pese embora toda a preparação física, não tem capacidade para pressionar alto constantemente e isso obriga a sacrificar Bruno Fernandes, que é quem salta linhas. Para ser servido, Roberto Martínez opta por extremos mais tradicionais e isso obriga a deixar um de João Neves, Vitinha, Bruno Fernandes ou Bernardo Silva de fora, jogadores que podem ser mais influentes neste momento.
Por último existe a questão dos golos, o derradeiro argumento para a titularidade inquestionável de Cristiano Ronaldo. Mas em 22 jogos em Mundiais, Ronaldo marcou 8 golos, todos na fase de grupos. Neste registo, Gonçalo Ramos apresenta melhor marca, com três em quatro jogos, todos nos oitavos de final de 2022, diante da Suíça.
Um equilíbrio delicado entre estatuto e capacidade que poderá fazer a diferença na questão do título.
