O quebra-cabeças de Ancelotti no Mundial-2026: quem assume as laterais do Brasil?

Ancelotti tem um problema para resolver
Ancelotti tem um problema para resolverREUTERS

Carlo Ancelotti tem de ultrapassar um obstáculo histórico se quiser cumprir a missão de dar ao Brasil a sua sexta estrela no Mundial-2026: um défice na posição de lateral, que durante décadas foi marca registada do "jogo bonito" brasileiro.

Acompanhe o Brasil no Flashscore

O treinador italiano já testou 24 jogadores nesta posição desde que assumiu o comando da Seleção há um ano, segundo uma contagem do site Globo Esporte. No sábado, a uma semana da estreia do Brasil frente a Marrocos em East Rutherford (Nova Jérsia), no grupo C, perdeu por lesão Wesley, o jogador que mais se aproximava das características que fizeram do Brasil uma referência nessa zona do campo.

"Toda a gente sabe: falta aquilo que nunca faltou, os laterais. O Brasil tinha laterais fantásticos, agora há alguma carência", admitiu o selecionador em março. O antigo treinador do Real Madrid referiu na altura "o jovem Wesley, que joga muito bem na Roma" para essa posição, órfã desde a era Marcelo e Dani Alves. É o quarto grande ausente no caminho para o Mundial, depois de Rodrygo, Estevão e Eder Militão.

Polivalência

Wesley, de 22 anos, é muito rápido e forte ofensivamente, na linha dos lendários Roberto Carlos e Carlos Alberto. O lateral ganhou notoriedade no Brasil ao conquistar oito troféus pelo Flamengo, incluindo as Libertadores de 2022 e 2025. A sua ausência deixa a Seleção, que também aguarda o regresso de Neymar, sem um lateral de vocação ofensiva, já que para o substituir Ancelotti chamou o médio da Atalanta, Ederson.

Neste sábado frente a Marrocos, o Brasil vai apresentar-se com três laterais de raiz: o canhoto Douglas Santos e os veteranos Danilo e Alex Sandro, cujas carreiras internacionais muitos consideravam terminadas após a desilusão no Catar em 2022.

O gráfico de Wesley na Serie A 2025/26
O gráfico de Wesley na Serie A 2025/26Opta by Stats Perform

Os defesas-centrais Bremer e Ibañez também podem atuar como laterais direitos, mas, devido à sua natureza defensiva, os pentacampeões mundiais perderiam capacidade ofensiva. O mesmo se aplica a Danilo, que normalmente joga como defesa-central no Flamengo.

"Posso fazer outras coisas: dar a primeira saída limpa, atacar por dentro, mas as minhas características são muito diferentes" das de um jogador como Wesley, reconheceu o antigo jogador do Manchester City e do Real Madrid.

O efeito Guardiola

A falta de laterais tem sido atribuída por especialistas à saída precoce dos talentos para a Europa, o que impede a sua formação adequada na escola brasileira. E Ancelotti, que está a descobrir o banco de um Mundial depois de ter ganho tudo como treinador de clubes, não é o único selecionador do Brasil a ter dores de cabeça com os laterais.

No Catar, onde a Seleção foi eliminada pela Croácia nos quartos de final, Tite apostou no defesa-central Militão para o lado direito após a lesão de Danilo. Tinha também à disposição Bremer e um Dani Alves já no final da carreira, com 39 anos.

Privado dos canhotos Alex Sandro e Alex Telles, Tite teve de recorrer à polivalência de um Danilo recuperado para cobrir o flanco esquerdo nos oitavos e nos quartos de final. "Que um defesa-central jogue como lateral não é assim tão diferente. É preciso saber defender e gerir bem a bola", considerou Ibañez na terça-feira em conferência de imprensa em Morristown, Nova Jérsia.

Acompanhe o relato no site ou na app
Acompanhe o relato no site ou na appFlashscore

Tite recompôs o puzzle por necessidade, mas no futebol atual, alguns treinadores optam por alinhar defesas-centrais ou laterais de pé trocado para ocupar a posição de lateral. Foi o que fizeram Pep Guardiola no Manchester City e Mikel Arteta no Arsenal, campeão da Premier League esta época.

"Esta posição evoluiu graças à influência de treinadores como Pep Guardiola", afirmou em 2023 à BBC o antigo lateral alemão Philipp Lahm, que trabalhou com o técnico catalão no Bayern Munique.

"Na defesa, é preciso deixar o mínimo de espaço possível ao adversário, cobrindo muito terreno e mantendo-o sob controlo, explicava. "No ataque, é preciso aproveitar os espaços, criando o máximo de espaço possível e gerando tantas oportunidades quanto possível para os seus colegas."