O que prevê o projeto da FIFA?
O projeto da FIFA prevê a criação de uma empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE), responsável por gerir as suas atividades comerciais (difusão, patrocínios, venda de bilhetes, concessão de licenças) e de eventos (Mundial, Mundial de Clubes, etc).
Os investidores privados poderão deter ações da FFE, mas serão minoritários, garantiu a instituição.
A entidade pretende angariar até 4,2 mil milhões de dólares, valor baseado numa estimativa para a futura empresa de 20 mil milhões de dólares, o que corresponde a uma participação externa de pouco mais de 20%.
A FIFA assegura que manterá o controlo exclusivo desta sociedade, além de "a autoridade exclusiva" sobre a governação do futebol, as competições, o calendário, as decisões regulamentares...
Se o projeto avançar, cada uma das 211 federações poderá receber um pagamento extra de 20 milhões de dólares no início de 2027, enquanto a dotação para o período 2027-2030 aumentaria de oito para 20 milhões de dólares.
Quais são os argumentos da FIFA?
Na quarta-feira, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, defendeu o projeto e referiu-se a "uma oportunidade de ouro para dinamizar o desenvolvimento do desporto à escala mundial".
Considerou que "apenas uma parte demasiado reduzida do crescente valor comercial do futebol chega aos intervenientes deste desporto que mais precisam. É uma oportunidade, mas não uma obrigação" que se enquadra "num processo democrático", afirmou.
Leia também - Membros da UEFA votam de forma unânime para boicotar FIFA: "O Mundial não está à venda"
Segundo o italo-suíço, a iniciativa representa "uma etapa lógica" na avaliação da FIFA e permitirá reforçar o desenvolvimento do futebol "em todos os cantos do mundo, tanto no futebol masculino como feminino".
"Queremos contribuir para que surjam os próximos Cabo Verde", garantiu Infantino, numa referência à seleção do pequeno estado africano que, no Mundial 2026, chegou aos 16 avos de final na sua primeira participação.
"Uma maior fatia de receitas pagas às federações membros significa mais investimento em melhores relvados, em seleções mais fortes e em mais oportunidades para os jovens rapazes e raparigas de todo o mundo", afirmou Infantino.
O dirigente garantiu que a FIFA continuará a reger o futebol "sem qualquer interferência externa".
Quem se opõe ao projeto?
A principal oposição vem da UEFA, que vê neste projeto um novo exemplo da mercantilização do desporto, com um pano de fundo de risco de conflito de interesses.
"A FIFA não pode continuar a usar o nosso desporto para que ela e os seus amigos se enriqueçam", criticou na quarta-feira a instituição, após uma reunião de urgência dos seus membros.
A crítica incide sobre a participação do fundo de investimento Thrive Eternal, criado por Joshua Kushner, irmão de Jared, genro de Donald Trump. Infantino demonstrou regularmente a sua proximidade com o presidente norte-americano antes e durante o Mundial 2026.
Crítica habitual da FIFA, a UEFA foi apoiada pelas suas federações, pela União Europeia, pela associação de clubes europeus e pelo sindicato de jogadores profissionais FIFPro Europe.
Elevando o tom, esta quinta-feira, 30 de julho, a UEFA anunciou mesmo que existe "unanimidade" entre os seus membros para boicotar as competições da FIFA, incluindo o Mundial, enquanto o projeto estiver em cima da mesa.
Leia também - Ligas Europeias contestam proposta da FIFA e acusam organismo de opacidade
Outras confederações, no entanto, mostraram-se mais cautelosas. A Confederação da América do Norte, Central e Caraíbas (Concacaf) e a Confederação Asiática (AFC) lamentaram que o projeto tenha sido tornado público sem que os membros da FIFA fossem consultados, embora não se tenham pronunciado sobre o fundo da questão.
Por sua vez, a Confederação Africana de Futebol (CAF) apelou às suas associações membros para "analisarem" e "avaliarem" o projeto, afirmando estar "comprometida em prosseguir as consultas (...) para apoiar o aumento dos recursos financeiros destinados ao desenvolvimento e crescimento do futebol em África e no mundo".
Que calendário?
A FIFA explica que só lançará o seu projeto "se a maioria das associações membros decidir apoiá-lo e se o Conselho da FIFA aprovar as atualizações regulamentares" necessárias para criar a FFE.
A data em que o Conselho da FIFA, o principal órgão de decisão da entidade, se pronunciará ainda não é conhecida. Mas as federações têm até 19 de setembro para se pronunciarem, segundo uma carta enviada por Infantino às 211 federações, revelada por vários meios de comunicação.
De acordo com a Sky News, que consultou um documento de apresentação da FIFA, o projeto já está bastante avançado, com investidores prontos a transferir fundos até 4,2 mil milhões de dólares a partir de outubro.
Este calendário é muito apertado e explica-se também pelos próximos prazos eleitorais de Infantino, que pretende ser reeleito em março de 2027.
Para já, a sua perspetiva de continuar no cargo parece desimpedida, pois é o único candidato em disputa.
O braço-de-ferro com a UEFA poderá motivar o surgimento de uma candidatura alternativa para travar Infantino, que, no entanto, mantém numerosos apoios, especialmente nas confederações asiática e africana.
