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Membros da UEFA votam de forma unânime para boicotar FIFA: "O Mundial não está à venda"

Atualizado
Presidente da UEFA, Aleksander Ceferin
Presidente da UEFA, Aleksander CeferinGrzegorz Wajda/SOPA Images / Shutterstock Editorial / Profimedia

Os 55 membros da UEFA votaram por unanimidade a favor do boicote ao Mundial da FIFA, em protesto contra os planos do organismo para criar uma subsidiária de 20 mil milhões de dólares para gerir o Mundial.

A decisão histórica foi tomada durante uma reunião de emergência realizada online, na sequência das revelações sobre a criação da FIFA Forward Enterprise - uma subsidiária destinada a gerir o Campeonato do Mundo e outros eventos, alienando até 20% do capital a fundos externos. Noticiada inicialmente pelo The Times e pela BBC, a posição de força da Europa foi confirmada logo de seguida pela UEFA em comunicado oficial.

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"Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações de propriedade do Campeonato do Mundo e de outras competições da FIFA para investidores privados", pode ler-se no início do documento.

"Nenhuma seleção da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto estas propostas se mantiverem de pé", garantiu o organismo que rege o futebol europeu, exigindo o abandono total do projeto e garantias vinculativas de que a FIFA "nunca mais abrirá a sua governação ou competições à propriedade privada".

"Este modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo primeiro dever é maximizar o retorno financeiro. Nem os interesses das associações nacionais, ligas, clubes, jogadores e adeptos podem ficar subordinados aos lucros dos investidores. O futebol não pode hipotecar o seu futuro em troca de ganhos financeiros. A posição da Europa é clara. Nunca daremos legitimidade a este modelo. Ninguém tem a autoridade moral para vender aquilo que apenas detém por confiança para a próxima geração", critica o organismo presidido por Aleksander Ceferin.

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UEFA acusa FIFA de "governação por intimidação"

No comunicado emitido após a reunião, a UEFA acusou a FIFA de "governação por intimidação" e de ter idealizado a proposta em segredo, classificando o plano como "uma abdicação do dever da FIFA enquanto guardiã do futebol mundial".

"O Campeonato do Mundo não pode ser tratado como um produto de investimento. É um dos maiores legados desportivos do futebol. Foi construído ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e adeptos em todos os continentes. Nenhuma parte dele deve ser entregue a investidores privados. O Mundial não está à venda", pode ler-se na nota, que avisa ainda para os riscos de sujeitar o calendário e os formatos das provas à pressão de acionistas em busca de retorno financeiro.

A posição unânime dos 55 países europeus abre uma crise sem precedentes no futebol mundial e lança incerteza sobre os próximos torneios da FIFA, incluindo o Campeonato do Mundo de 2030, cuja organização está atribuída largamente a Portugal, Espanha e Marrocos.

"Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a comprometer. Este é um desses momentos. Algumas coisas são simplesmente importantes demais para serem vendidas. O Campeonato do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Pertencerá sempre. E enquanto a Europa tiver voz, nunca estará à venda", conclui o organismo europeu.

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Comunicado na íntegra: 

"A UEFA e as suas 55 associações-membro mantêm-se unidas como uma só. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações de propriedade do Campeonato do Mundo e de outras competições da FIFA para investidores privados.

O Campeonato do Mundo não pode ser tratado como um produto de investimento. É um dos maiores legados desportivos do futebol. Foi construído ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e adeptos em todos os continentes. Nenhuma parte dele deve ser entregue a investidores privados. O Mundial não está à venda.

É simultaneamente irresponsável e indefensável que uma proposta de tal relevância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada ao limite da aprovação sem qualquer consulta significativa com aqueles a quem foi confiada a tutela da modalidade. Isto não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial.

As associações nacionais de todo o mundo são agora confrontadas com um ultimato: aceitar a captura irreversível das maiores competições do futebol ou arcar com as consequências. Isto não é uma "decisão democrática", mas sim uma governação por intimidação — um ato de coação indigno de uma instituição encarregada da gestão do futebol global.

Mas a nossa oposição vai muito além do processo.

No momento em que investidores externos adquirem participações de propriedade nas competições da FIFA, o futebol muda para sempre. O retorno comercial torna-se uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores tornam-se uma pressão diária. A partir desse momento, cada decisão sobre o calendário internacional, cada decisão sobre formatos de competição e cada decisão que molda o futuro do futebol deixa de ser orientada pelo que melhor serve a modalidade, passando a ser ditada pelo que melhor serve os acionistas.

Este modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo primeiro dever é maximizar o retorno financeiro. Nem os interesses das associações nacionais, ligas, clubes, jogadores e adeptos podem ficar subordinados aos lucros dos investidores. O futebol não pode hipotecar o seu futuro em troca de ganhos financeiros.

A posição da Europa é clara. Nunca daremos legitimidade a este modelo. Ninguém tem a autoridade moral para vender aquilo que apenas detém por confiança para a próxima geração.

Em resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto estas propostas se mantiverem vivas, a menos que esta proposta seja totalmente abandonada e sejam dadas garantias vinculativas de que a FIFA nunca mais abrirá a sua governação ou competições à propriedade privada.

Ninguém deve ter dúvidas: a UEFA e as suas associações nacionais vão opor-se a estes planos com absoluta determinação.

Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a comprometer. Este é um desses momentos.

Algumas coisas são simplesmente importantes demais para serem vendidas. O Campeonato do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Pertencerá sempre. E enquanto a Europa tiver voz, nunca estará à venda."