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Reportagem: Como a emoção de Walter Casagrande no berço de Martin Luther King definiu o adeus de Atlanta

"O Jogo do Povo": exposição marcou o Mundial-2026 em Atlanta
"O Jogo do Povo": exposição marcou o Mundial-2026 em Atlanta Josias Pereira / Flashscore

Há cidades que servem como meros cenários para grandes eventos, e há aquelas que se fundem à alma da competição. Na quarta-feira, 15 de julho, Atlanta se despediu apenas da sua participação no Mundial-2026, mas eternizou o seu nome na história do futebol. Justamente 30 anos depois de ter recebido outro grande evento marcante: os Jogos Olímpicos de Verão de 1996, um marco para o Olimpismo.

Com o Mercedes-Benz Stadium lotado, a eletrizante vitória por 1-2 da Argentina sobre a Inglaterra, com direito a reviravolta, nas meias-finais do Mundial-2026, foi o desfecho perfeito para uma jornada onde a bola dividiu o protagonismo com a história, a cultura e a incansável vocação da cidade para a transformação social.

Para quem acompanha o futebol apenas de longe, a enorme paixão dos adeptos locais pode parecer uma novidade. Mas a verdade é que a principal cidade do estado norte-americano da Geórgia respira futebol. 

Atlanta é a casa do Atlanta United, um dos clubes mais tradicionais da Major League Soccer (MLS). Com recordes sucessivos de público que rivalizam com grandes ligas europeias, a franquia alcançou a glória máxima ao conquistar a prestigiada MLS Cup em 2018, sob o comando tático do argentino Gerardo "Tata" Martino. 

Essa cultura de bancadas vibrantes pavimentou o caminho para que a cidade recebesse os maiores craques do planeta de braços abertos.

Exemplo global de legado 

A recetividade do povo de Atlanta foi um dos pontos mais elogiados por delegações, imprensa e adeptos de todo o mundo. Esse acolhimento caloroso ganhou forma no coração da cidade: a pulsante Fan Fest instalada no Centennial Olympic Park.

A escolha do local não foi por acaso, mas sim o símbolo de uma cidade que entende como poucas o real significado de "legado". Há 30 anos, Atlanta sediava os Jogos Olímpicos de 1996. Enquanto muitas sedes sofrem com o abandono das suas estruturas pós-evento, a cidade consolidou-se como um exemplo global de aproveitamento dos espaços olímpicos.

A Fan Festival de Atlanta no Centennial Park
A Fan Festival de Atlanta no Centennial ParkMI NEWS / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

O parque, criado originalmente para ser o ponto de encontro daquela Olimpíada, mantém-se vivo, integrado no quotidiano dos cidadãos e durante o Mundial foi o espaço perfeito para o encontro dos apaixonados por futebol. 

O espaço conectou perfeitamente o Mundial aos maiores postais locais. A poucos passos dali, os visitantes podiam explorar o fascinante Mundo da Coca-Cola e o imenso Georgia Aquarium. No entanto, foi a vizinhança com o Centro Nacional para os Direitos Humanos e Civis que deu ao evento uma profundidade que nenhuma outra cidade-sede conseguiu replicar.

O jogo do povo

Atlanta é o berço de Martin Luther King Jr., um dos maiores líderes negros dos Estados Unidos e vencedor do prémio Nobel da paz; além do epicentro histórico do movimento pelos direitos civis. Essa vocação para a justiça social e a igualdade conectou-se com o desporto através da exposição The People’s Game (O Jogo do Povo), abrigada temporariamente no Centro de Direitos Civis.

Camisolas autografadas dos craques do futebol mundial
Camisolas autografadas dos craques do futebol mundialJosias Pereira / Flashscore

A mostra apresentou uma homenagem histórica ao desporto mais popular do mundo, exibindo camisolas históricas e autografadas por lendas imortais e astros contemporâneos do futebol, como os brasileiros Pelé, Ronaldo e Vini Jr., além de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

Mais do que celebrar o talento dentro das quatro linhas, a curadoria da exposição reservou uma ala inteira para discutir o impacto do futebol como ferramenta de transformação e resistência política. Um dos destaques da seção foi a Democracia Corintiana, movimento liderado por atletas do Corinthians na década de 1980 em plena ditadura militar brasileira, demonstrando como o balneário e o campo podem tornar-se trincheiras pela liberdade.

Pelé e o Santos representados em Atlanta
Pelé e o Santos representados em AtlantaJosias Pereira / Flashscore

O ex-jogador brasileiro Walter Casagrande, um dos pilares daquele movimento e personagem retratado com destaque na exposição pela sua história de luta, visitou o museu durante a cobertura do torneio e não escondeu a emoção ao ver a história de resistência do futebol brasileiro, reverenciada no mesmo solo que gerou os discursos de Martin Luther King.

“Estou bastante emocionado, primeiro pelo lugar e por ser um apaixonado pela história do Dr. Martin Luther King. Ver o que nós fizemos nos anos 80 — os jogadores da Democracia Corintiana, a direção e os adeptos da época — em evidência neste museu, que não é de futebol, é o mais importante para mim. Este é um museu de direitos civis. A nossa história aqui não representa apenas um clube de futebol campeão ou atletas que foram para a seleção, disse. 

Walter Casagrande, ex-Corinthians, no Centro dos Direitos Civis em Atlanta.
Placar / Reprodução

“Aqui não tem golos; tem um movimento social, político e de inclusão. Ver o Magrão (Sócrates), o nosso clube e a faixa que colocamos em 1983... ver a mim mesmo com a camisola da Democracia Corintiana no meio dessa garotada que visita o espaço é incrível. Um dia, eles vão olhar para tudo isso, ter curiosidade de saber o que esse clube fez e quem foram esses jogadores. O mais interessante é que estou aqui física e historicamente, mas eles nem sabem quem eu sou. E isso é o mais legal de tudo”, concluiu. 

Após o apito final do Argentina-Inglaterra, Atlanta encerrou o seu ciclo de jogos, consagrando-se não apenas pela infraestrutura impecável ou pelo histórico golo de Lautaro Martínez que decidiu a meia-final. A cidade despede-se mostrando ao mundo que o futebol, quando praticado e vivido na sua plenitude, é muito mais do que tática e resultado. É representação e identidade. 

Mundial-2026

O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.

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