Reportagem: Em Nova Iorque, um raro momento de alegria para a comunidade haitiana

Comunidade haitiana em Nova Iorque
Comunidade haitiana em Nova IorqueREUTERS

Atingidos em cheio pela política migratória de Donald Trump, os haitianos de Nova Iorque encontram um raro motivo de alegria na participação da sua seleção no primeiro Mundial desde 1974, antes de defrontarem ese sábado o Brasil.

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No bairro de Little Haiti, no Brooklyn, as cores azul e laranja da equipa nova-iorquina de basquetebol, campeã da NBA desde sábado, continuam a dominar a paisagem. Estão presentes nas montras dos estabelecimentos comerciais e nas T-shirts vendidas à saída do metro.

"Agora que toda esta história dos Knicks chega ao fim, vão ver sobretudo as cores do Haiti", acredita Vladimir Calixte, ator de 42 anos, com a bandeira haitiana ao pescoço.

Minado pela instabilidade política e pela criminalidade dos gangues, o Haiti viu o governo norte-americano suspender todos os vistos de turismo ou imigração. A administração tenta ainda revogar o estatuto de proteção temporária – que impede qualquer expulsão para um país considerado perigoso – concedido a cerca de 520.000 haitianos.

Equipa da diáspora

Assim, em Nova Iorque, onde a comunidade conta com cerca de 200.000 pessoas (nascidas no Haiti ou descendentes), a presença da equipa em solo norte-americano é motivo de júbilo e orgulho.

"Aqui, toda a gente fala disto o tempo todo", conta Maélie Misidor, que gere um pequeno comércio de proximidade no bairro.

"Os bilhetes estão caríssimos. Se fossem mais baratos, claro que ia. Mas assim, vamos ver o jogo com o meu marido, amigos, no pátio atrás da loja", acrescenta.

Com muitos jogadores oriundos da diáspora, nascidos e formados fora do país, a composição da equipa reflete o que muitos haitianos vivem, observa Lyne Lucien, uma artista residente no Brooklyn.

"O Haiti vai muito além do seu território", diz.

"A nossa comunidade assemelha-se a esta equipa: é composta por pessoas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, mas que continuam a reunir-se como um só povo", acrescenta.

Ao repetir que a polícia de imigração mantinha a possibilidade de intervir nas imediações dos estádios, a administração norte-americana acabou por lançar um clima de apreensão entre as populações migrantes.

Vencer o Brasil?

"Tenho a sensação de que isto cria um clima de medo desnecessário", considera Lyne Lucien, que realizou ilustrações para a Global Artist Series da Fox Sports, um projeto colaborativo para o Mundial.

"Mesmo pessoas que têm cartão de residente nos Estados Unidos, ou que acabaram de obter a cidadania americana, têm receio de ir", afirma.

Pelo acaso do sorteio, a seleção nacional, derrotada no primeiro jogo frente à Escócia (1-0), ficou no grupo do Brasil, que muitos haitianos costumam apoiar.

"É uma questão de cultura: sentimo-nos mais ligados e próximos de quem se assemelha a nós. E são eles que estão na vanguarda do futebol. Como não podíamos jogar, admirávamos quem podia", explica Vladimir Calixte.

Sentado num banco em frente a um salão de cabeleireiro, à espera da sua vez, Sonny Etienne, 43 anos, considera impossível que a equipa haitiana vença este sábado.

"Os brasileiros são os líderes, o que é que podemos fazer? É pena defrontá-los, já fazia tanto tempo que não estávamos neste Mundial!", lamenta.