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No bairro de Little Haiti, no Brooklyn, as cores azul e laranja da equipa nova-iorquina de basquetebol, campeã da NBA desde sábado, continuam a dominar a paisagem. Estão presentes nas montras dos estabelecimentos comerciais e nas T-shirts vendidas à saída do metro.
"Agora que toda esta história dos Knicks chega ao fim, vão ver sobretudo as cores do Haiti", acredita Vladimir Calixte, ator de 42 anos, com a bandeira haitiana ao pescoço.
Minado pela instabilidade política e pela criminalidade dos gangues, o Haiti viu o governo norte-americano suspender todos os vistos de turismo ou imigração. A administração tenta ainda revogar o estatuto de proteção temporária – que impede qualquer expulsão para um país considerado perigoso – concedido a cerca de 520.000 haitianos.
Equipa da diáspora
Assim, em Nova Iorque, onde a comunidade conta com cerca de 200.000 pessoas (nascidas no Haiti ou descendentes), a presença da equipa em solo norte-americano é motivo de júbilo e orgulho.
"Aqui, toda a gente fala disto o tempo todo", conta Maélie Misidor, que gere um pequeno comércio de proximidade no bairro.
"Os bilhetes estão caríssimos. Se fossem mais baratos, claro que ia. Mas assim, vamos ver o jogo com o meu marido, amigos, no pátio atrás da loja", acrescenta.
Com muitos jogadores oriundos da diáspora, nascidos e formados fora do país, a composição da equipa reflete o que muitos haitianos vivem, observa Lyne Lucien, uma artista residente no Brooklyn.
"O Haiti vai muito além do seu território", diz.
"A nossa comunidade assemelha-se a esta equipa: é composta por pessoas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, mas que continuam a reunir-se como um só povo", acrescenta.
Ao repetir que a polícia de imigração mantinha a possibilidade de intervir nas imediações dos estádios, a administração norte-americana acabou por lançar um clima de apreensão entre as populações migrantes.
Vencer o Brasil?
"Tenho a sensação de que isto cria um clima de medo desnecessário", considera Lyne Lucien, que realizou ilustrações para a Global Artist Series da Fox Sports, um projeto colaborativo para o Mundial.
"Mesmo pessoas que têm cartão de residente nos Estados Unidos, ou que acabaram de obter a cidadania americana, têm receio de ir", afirma.
Pelo acaso do sorteio, a seleção nacional, derrotada no primeiro jogo frente à Escócia (1-0), ficou no grupo do Brasil, que muitos haitianos costumam apoiar.
"É uma questão de cultura: sentimo-nos mais ligados e próximos de quem se assemelha a nós. E são eles que estão na vanguarda do futebol. Como não podíamos jogar, admirávamos quem podia", explica Vladimir Calixte.
Sentado num banco em frente a um salão de cabeleireiro, à espera da sua vez, Sonny Etienne, 43 anos, considera impossível que a equipa haitiana vença este sábado.
"Os brasileiros são os líderes, o que é que podemos fazer? É pena defrontá-los, já fazia tanto tempo que não estávamos neste Mundial!", lamenta.
