Reportagem: Em Toronto, os bósnios saboreiam um Mundial caído do céu

Adeptos da Bósnia em Toronto
Adeptos da Bósnia em TorontoJon Blacker / Zuma Press / Profimedia

Milhares de adeptos vindos de toda a América do Norte reúnem-se para uma festa antes do jogo e uma marcha até ao estádio: a pequena comunidade bósnia de Toronto prepara-se para viver em euforia, esta sexta-feira, o encontro entre o Canadá e a Bósnia-Herzegovina.

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No dia 31 de março, quando a Bósnia eliminou a Itália, os adeptos reunidos na mesquita do bairro de Etobicoke, no oeste de Toronto, passaram da tensão à "euforia" num instante, conta à AFP Anes Dzumhur, responsável de programa no Centro Islâmico Bósnio.

"Foi inacreditável", relata este homem alto, magro e de trato muito afável, que serviu no exército jugoslavo antes de se instalar no Canadá aos 22 anos. Alegra-se por a proclamação da vitória ter permitido dissipar, por algum tempo, as tensões que por vezes existem na comunidade.

"Nesse dia, toda a gente se abraçava. Mostrei as fotos a alguns e disse: 'Oh meu Deus, vê lá quem estás a abraçar!'", lembra.

"Eles tinham problemas"

Uma noite, pelo contrário, terrível para a vasta comunidade italiana de Toronto. Estavam prontos, nessa noite, para explodir de alegria, sair a buzinar pelas ruas da cidade, reunidos em grande número nos bares do bairro da Pequena Itália... Mas foi mesmo a desilusão e a consternação que prevaleceram após a eliminação da Squadra Azzurra.

"Estava tão ansioso por ver a Itália jogar aqui, no Canadá", lamentou Alessandro Aureli à imprensa canadiana após o encontro. Esta desilusão italiana abriu, no entanto, uma oportunidade para os poucos milhares de bósnios de Toronto: a ocasião de reafirmar uma identidade comum que se foi diluindo ao longo dos anos, como reconhece Anes Dzumhur.

As pessoas eram antigamente "mais dedicadas à comunidade", diz.

"Tenho a sensação de que isso se foi perdendo um pouco", acrescenta, esperando que o torneio proporcione uma rara oportunidade de se reunirem enquanto bósnios. Foi nos anos 80 que a comunidade bósnia de Toronto se desenvolveu, antes de o conflito na ex-Jugoslávia, nos anos 90, marcar um ponto de viragem.

Com a chegada dos refugiados, foram criadas instituições para os acolher e a mesquita tornou-se o epicentro da vida comunitária. A antiga biblioteca foi entretanto convertida numa sala de atividades para os jovens, e um grande ecrã foi instalado para os jogos de qualificação.

"Uma cultura diferente"

Mirza Durak, canadiano de origem bósnia, deslocou-se a Zénica para o jogo contra a Itália. Presidente da Associação Cultural Bósnia de Toronto, confessa que ver a sua seleção nacional "vir a Toronto, ao nosso bairro, é um sonho tornado realidade". Não quer deixar escapar a oportunidade.

Com bilhetes para o jogo de sexta-feira, organizou uma série de eventos para celebrar a presença da Bósnia-Herzegovina em Toronto: uma festa antes do jogo, uma marcha até ao estádio no próprio dia, e uma noite de convívio após o encontro. Milhares de bósnios vindos de toda a América do Norte, e alguns da Europa, convergem para a cidade, diz ele com entusiasmo.

"Queríamos mostrar a Toronto um pouco da nossa cultura, a forma como os adeptos europeus de futebol vivem isto", afirma Mirza Durak.

"Vai ser realmente fantástico de ver para os canadianos", acrescenta.