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Exclusivo Flashscore: Morte de Jesús de Miguel (Tenerife) era "100% evitável", explica cardiologista do Fluminense

Jesús de Miguel faleceu aos 30 anos
Jesús de Miguel faleceu aos 30 anosProfimedia

A morte do avançado Jesús de Miguel, do Tenerife, que colidiu com o guarda-redes do Andorra, poderia ter sido evitada caso os protocolos de assistência a uma paragem cardíaca em campo tivessem sido seguidos. Essa é a avaliação de Fabrício Braga, cardiologista do Fluminense e uma das maiores referências em medicina desportiva no Brasil, em entrevista ao Flashscore.

O jogador espanhol sofreu um choque com o guarda-redes Jesus Owono nos descontos da partida de segunda-feira e desmaiou no relvado. De Miguel sofreu uma paragem cardíaca dentro da ambulância, foi reanimado, mas apresentou um agravamento neurológico durante a madrugada e morreu na manhã desta terça-feira.

Recorde as incidências da partida

Para Fabrício Braga, o episódio apresenta características de um quadro conhecido como commotio cordis, uma condição rara em que um impacto na região do tórax provoca uma alteração na atividade elétrica do coração, desencadeando uma arritmia potencialmente fatal.

“É algo incomum, mas está entre as causas de morte súbita associadas ao desporto”, explicou o médico após rever as imagens da colisão e a falta de assistência imediata a Jesús de Miguel.

Segundo o cardiologista, o mais provável é que a joelhada sofrida pelo atacante tenha atingido o tórax justamente num momento específico do ciclo elétrico do coração, provocando uma arritmia.

Nesses casos, o coração deixa de bombear sangue adequadamente, levando à paragem cardíaca.

Minuto de silêncio no treino do Arsenal após morte de Jesús de Miguel
Minuto de silêncio no treino do Arsenal após morte de Jesús de MiguelReuters

Fabrício Braga revela que, ao contrário do que poderia parecer pelas imagens do choque, não houve necessariamente uma lesão estrutural ou um rompimento de órgãos. Na maioria dos casos de commotio cordis, o coração é anatomicamente saudável, e o problema é essencialmente elétrico.

“Provavelmente foi uma morte elétrica, possivelmente reversível com o atendimento adequado”, afirmou, destacando que ainda não existem informações de necropsia que permitam confirmar a causa da morte.

Leia mais - Tragédia em Espanha: Morreu Jesús de Miguel após choque violento no Tenerife-Andorra

Falta de assistência em campo é fatal

O ponto mais importante levantado por Fabrício Braga é que, com assistência adequada, o jogador teria 100% de hipótese de sobreviver. O médico afirma que, de acordo com as imagens da transmissão, aparentemente não houve manobras de reanimação, a utilização de um desfibrilhador ou a entrada da ambulância no relvado.

“Você viu alguma ambulância? O que eu vi foi o rapaz colapsar e uma maca a sair em direção ao balneário. Isso é um absurdo”, criticou. "Ficaram preocupados em estabilizar o pescoço", acrescentou.

“Quando o desfibrilhador chega em 3 minutos, a hipótese de sucesso é de 100%, e certamente seria se isso porventura tivesse acontecido com o Jesús", garantiu Fabrício Braga, que foi um dos médicos do jogo da NFL no Rio de Janeiro.

Protocolo salva vidas

O protocolo internacional determina que um atleta que sofre um colapso em campo seja assistido imediatamente no próprio local, a menos que exista algum risco externo que impeça o procedimento.

“Ele cai com dor ainda, provavelmente ainda com um ritmo que gerava algum tipo de pulso, e depois perde a consciência e colapsa em paragem cardíaca”, analisou Fabrício Braga.

A primeira medida deve ser verificar a ausência de pulso e iniciar imediatamente a massagem cardíaca, enquanto outra pessoa providencia um desfibrilhador externo automático (DEA). O equipamento identifica se existe um ritmo cardíaco que exige choque elétrico e, quando necessário, aplica a descarga para tentar reverter a arritmia.

“Caiu em campo, os médicos detetam, já iniciam a massagem cardíaca, autorizam a ambulância a entrar. Começa a massagem ali, reverte, coloca na ambulância e leva para o hospital. Esse é o protocolo”, resumiu.

Jesús De Miguel era atacante do Tenerife desde 2025
Jesús De Miguel era atacante do Tenerife desde 2025REUTERS/Stringer

Fabrício Braga também lembrou que, pelas exigências da FIFA, os clubes devem ter desfibrilhadores disponíveis no banco de supkentes.

“O Fluminense não tem um jogo que não tenha o desfibrilhador ali no banco de suplentes”, contou o cardiologista, que também foi responsável pelo diagnóstico de miocardite do médio Paulo Henrique Ganso, há dois anos.

A rapidez na assistência é determinante, não apenas para recuperar os batimentos cardíacos, mas também para evitar danos neurológicos irreversíveis.

“Se passar cinco minutos, a hipótese de reversão fica muito remota. (...) O atraso no início dos procedimentos, largamente documentado como necessário, sobretudo no meio desportivo, é um desastre”, afirmou.

O médico também explicou que a pioria neurológica mencionada pelo Tenerife é compatível com a possibilidade de o coração ter permanecido parado por tempo prolongado antes de ser reanimado.

“Quanto mais tempo passa, mais as hipóteses de você voltar o coração, mas o cérebro está a ter danos irreversíveis”, explicou.

Eriksen sofreu paragem cardíaca em campo a continuar a jogar
Eriksen sofreu paragem cardíaca em campo a continuar a jogarProfimedia

Caso Eriksen é referência

Para ilustrar como a assistência em campo deve funcionar, Fabrício Braga citou o caso do dinamarquês Christian Eriksen, que sofreu uma paragem cardíaca durante o Europeu de 2021 e recebeu reanimação imediata ainda no relvado.

O cardiologista também mencionou Anthony Van Loo, ex-jogador belga que jogava com um desfibrilhador implantável devido a uma doença cardíaca diagnosticada ainda na formação. Durante uma partida, o equipamento identificou uma arritmia e aplicou automaticamente um choque, permitindo que o atleta recuperasse a consciência rapidamente.

“O Van Loo caiu, o desfibrilhador funcionou, ele levantou e queria cobrar o lançamento lateral", lembrou o médico do Fluminense.

Fabrício Braga, que também organiza o CardioFut, evento no Maracanã dedicado à discussão de saúde e medicina no futebol, reforçou que a tragédia não deve servir para afastar as pessoas da prática desportiva. “Desporto salva vidas. O que mata é o sedentarismo”, disse.

O cardiologista, no entanto, defende que episódios como o de Jesús de Miguel precisam de provocar uma reflexão sobre a preparação dos clubes e a aplicação dos protocolos de emergência.

“Impossível que não tenha ambulância lá. Por que ela não entrou em campo? Por que não tinha  desfibrilhador?”, questionou.

“Foi chocante. A maca a sair é uma imagem que vai virar referência em muitos congressos de cardiologia", concluiu.

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