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"Se subirmos, seremos as pessoas mais felizes do mundo", afirma Ercan Simsek, um adepto de 52 anos habituado a ver a sua equipa nas divisões inferiores.
Viajou até Istambul no mês passado para tentar assistir a um jogo importante, mas ficou à porta do estádio com o seu cachecol vermelho e verde porque não tinha bilhete.
"Não faz mal, não estamos aqui apenas pelo futebol. Estamos aqui porque isto é uma questão de orgulho", explicava então à AFP. "O Amedspor é o orgulho de Diyarbakir, o orgulho do sudeste, o orgulho dos curdos!", entusiasmava-se.
"Somos mais do que um clube, não somos apenas uma simples equipa de futebol", afirmou por sua vez Nahit Eren, o presidente do Amedspor, que costuma jogar em casa perante cerca de 18.000 adeptos, um número sete vezes superior à média dos estádios da segunda divisão turca.
"O Amedspor é uma identidade. São cores, valores, uma posição", resume à AFP o presidente do clube, que há uma década recuperou o nome histórico curdo de Diyarbakir, "Amed", algo que ainda hoje lhe vale a ira de muitos adeptos nacionalistas turcos.

"Propaganda"
O Amedspor, que utiliza tanto o turco como o curdo – uma língua sem estatuto oficial na Turquia – nas suas mensagens nas redes sociais, foi sancionado no final de janeiro pela Federação Turca de Futebol após ser acusado de fazer "propaganda" dos combatentes curdos.
O motivo desse castigo foi a realização de um vídeo em apoio a uma combatente curda cuja trança foi cortada e exibida como troféu por um soldado do exército sírio no norte da Síria.
O presidente do clube, que denuncia "as tentativas de envolver o Amedspor em várias polémicas", lamenta também os insultos que recebem em quase todas as deslocações, que, na sua opinião, são sintoma da discriminação contra os curdos, que representam um quinto dos 86 milhões de habitantes do país.
Enquanto em Espanha o Athletic orgulha-se de contar apenas com futebolistas nascidos ou formados na sua região, o País Basco, no Amedspor os jogadores curdos – maioria no plantel – partilham o balneário com outros estrangeiros, como o seu melhor marcador, o senegalês Mbaye Diagne.
"O Athletic é um clube centenário. O Amedspor só tem 10 anos", defende o presidente Eren, que não esconde a sua admiração pelo clube basco, embora defenda a sua decisão de "não praticar qualquer tipo de discriminação" na construção da equipa.
"O representante dos curdos"
Uma subida do Amedspor à Süper Lig turca coincidiria com o lento processo de paz em curso entre Ancara e a guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), iniciado no final de 2024.
A velha cidade de Diyarbakir ainda tem feridas desse conflito, que se agravou em 2015 e 2016 entre o exército turco e esse grupo armado curdo. O conflito já provocou mais de 50.000 mortos desde 1984.
Não seria o primeiro clube curdo a chegar à primeira divisão da Turquia, embora o último tenha sido há quase duas décadas.

O que torna o caso do Amedspor especial é o facto de ser uma entidade com "identidade curda assumida", explica Ceylan Akça, deputado do DEM (partido pró-curdo) de Diyarbakir, que recorda que a cidade "é considerada pelos curdos de todo o mundo como a capital do Curdistão".
Como reflexo deste fenómeno na diáspora curda, vai abrir-se a meio de maio uma loja oficial do clube em Hannover (Alemanha).
Ceylan Akça, que costuma ir às bancadas do estádio do Amedspor, considera que "todas as instituições do Estado (turco) se opõem ao sucesso desta equipa", citando, por exemplo, as multas "absurdas" impostas pela Federação Turca de Futebol ao clube.
"Ganhe ou não, este clube continuará a ser o representante dos curdos dispersos pela região e pelo mundo inteiro", assegura.
