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São poucos os jogadores que conhecem a English Football League (segundo ao quarto escalão de Inglaterra) tão bem como Adomah. Passou quase duas décadas a percorrer os vários escalões do futebol inglês. Começou fora das ligas profissionais no Harrow Borough e chegou à Premier League com o Aston Villa, passando ainda por Bristol City, Middlesbrough, Nottingham Forest, QPR e Cardiff City ao longo do percurso.
Raramente era o nome mais sonante no balneário, mas quase sempre era dos mais fiáveis: um extremo incansável, com qualidade técnica e, como se veio a comprovar, uma longevidade fora do comum.
Agora, com 38 anos e a jogar pelo Walsall, da League Two, Adomah tem uma perspetiva única sobre a época europeia de 2025/26. Duas das suas antigas equipas, Aston Villa e Nottingham Forest, vão defrontar-se nas meias-finais da Liga Europa.
Falou em exclusivo à Flashscore sobre este duelo, o seu registo extraordinário na EFL e o padrão agridoce das promoções que marcaram a sua carreira.
Duas antigas equipas, um troféu
O sorteio das meias-finais da Liga Europa não podia ter sido mais simbólico para Adomah. O Villa, a atravessar um excelente momento sob o comando de Unai Emery e a lutar por mais um troféu europeu numa época em que já esteve perto da qualificação para a Liga dos Campeões, vai enfrentar um Forest que luta pela permanência na Premier League.
É um contraste que não passa despercebido a quem ajudou ambos os clubes em diferentes fases das suas histórias.
"O Aston Villa está a fazer uma época fantástica. O Emery tem estado muito bem desde que assumiu o comando, levou-os à Liga Europa, à Liga dos Campeões e, com sorte, esta época podem até vencer a Liga Europa ou voltar a qualificar-se para a Liga dos Campeões" disse Adomah à Flashscore: "Portanto, ele fez um trabalho excecional pela equipa e o clube tem-se destacado desde que subiu da Championship. Têm estado muito bem e espero que assim continue. Estou sempre atento ao que fazem porque vivo em Birmingham. O Aston Villa continua a ter um lugar especial no meu coração, sou da zona, por isso tento ver alguns jogos quando posso e acompanho sempre os resultados."
O carinho por Forest, por sua vez, é igualmente genuíno, mesmo que o contexto antes da meia-final seja bem diferente.
"Não desejo a descida a nenhum clube, mas no caso do Forest, porque também joguei lá, quero obviamente que se mantenham, pois fizeram um grande trabalho ao conseguir a promoção. Quero que fiquem na Premier League, é mais um antigo clube meu. Só lhes posso desejar o melhor. É verdade que estão a passar dificuldades na Premier League, mas também fizeram uma boa campanha na Europa."
Previsão para a Liga Europa
O emparelhamento das meias-finais oferece uma das histórias mais interessantes do futebol: um clube a lutar pelos lugares da Liga dos Campeões contra outro que tenta evitar a descida.
Adomah reconhece bem este contraste, mas defende que, quando se chega a esta fase de uma competição a eliminar, tudo muda.
"Acho que é um contraste. Um está a lutar pelo top quatro, o outro pela sobrevivência. Mas espero que o Forest se mantenha na Premier League e consiga dar continuidade na próxima época", afirmou.
"Quando se chega às meias-finais de uma taça, o objetivo é tentar vencer o troféu. Ninguém está a pensar na sobrevivência. O pensamento é que existe uma oportunidade de conquistar um título. Por isso, acredito que vão lutar pelo troféu. Se conseguirem, depois concentram-se no campeonato. Se não conseguirem na taça, então o foco volta a ser o campeonato."
A razão pela qual acredita que o Forest pode sonhar está na imprevisibilidade das provas a eliminar.
"Acho que vão dar prioridade à taça porque estão perto do fim. E numa taça, não interessa se és a melhor equipa; qualquer um pode vencer. Por isso, penso que vão estar focados na taça. Existe uma oportunidade de ganhar. E depois, sim, pensam na permanência."
Quanto ao vencedor? Adomah hesita e solta uma gargalhada.
"O futebol é um desporto maravilhoso, tudo pode acontecer. Joguei nos dois clubes, por isso agora não sei por quem torcer. Mas quem ganhar, ganhou. Se for sincero, prefiro que o Aston Villa vença."
O paradoxo da promoção
Muito antes de qualquer um destes clubes chegar ao futebol europeu, Adomah já tinha tido um papel fundamental a tirá-los, e a outros, da Championship. Foi peça-chave na promoção do Middlesbrough em 2016, sob o comando de Aitor Karanka, e três anos depois, foi um dos protagonistas na subida dramática do Aston Villa em 2019, no play-off de Wembley.
Duas promoções. Dois clubes. E em ambas as ocasiões, o mesmo desfecho: não fez parte do plantel da Premier League que se seguiu.
No Middlesbrough, um desentendimento com o treinador Karanka levou à sua saída pouco depois do regresso ao principal escalão. No Villa, foi dispensado no final do contrato, considerado excedentário para a reconstrução do plantel.
Seguiu para o Nottingham Forest e depois para o QPR, mantendo o estatuto de um dos extremos mais fiáveis da Championship, mesmo quando os clubes que ajudou a subir avançaram sem ele.
Adomah olha para este padrão com a serenidade de quem já teve tempo para aceitar a realidade do futebol.
"No futebol, isto acontece, é um negócio no fim de contas. No meu caso, subi de divisão e tive a oportunidade de jogar na Premier League, mas apareceu outro clube e, em termos desportivos, era uma opção melhor. Por isso, mudei-me". explicou sobre a saída do Middlesbrough.
Sobre a saída do Villa, é ainda mais direto: "A segunda promoção foi diferente porque estava sem contrato. Não quiseram renovar comigo. Pode-se ver de outra forma; talvez achassem que não tinha qualidade suficiente para a Premier League. É o futebol, tive de seguir em frente. Fazer um bom trabalho por uma equipa não significa que lá fiques para sempre."

Não guarda ressentimentos. Vê as coisas com clareza.
"Todos querem jogar ao mais alto nível, mas às vezes é preciso olhar para a situação. Escolhi sair porque sabia que seria melhor para mim e para a minha família. Podia jogar na Premier League, mas se não tivesse nada para mostrar no fim, não valia a pena. O futebol é um negócio. Faz-se todo o esforço para chegar à Premier League e, por vezes, não te querem lá. É um negócio, no fim de contas. Se acharem que podem contratar jogadores melhores, é isso que vão fazer. Por isso, quando chega a tua altura de sair, é mesmo a tua altura," acrescentou.
Fazer história na EFL
O que Adomah alcançou ao longo destes anos de quase conquistas, promoções e épocas na Championship foi algo sem precedentes. Tornou-se o primeiro jogador na história da EFL a somar 100 jogos por seis clubes diferentes: Bristol City, Middlesbrough, Aston Villa, Nottingham Forest, QPR e Cardiff.
Um feito que é quase um mapa da segunda divisão inglesa dos últimos 15 anos. É um registo que reflete não só longevidade, mas também consistência, profissionalismo e uma notável resistência ao longo de vários clubes e épocas.
"É uma marca incrível. Jogar 100 partidas por seis clubes diferentes é extraordinário. Nem sequer sabia deste feito até me informarem. É um grande orgulho e é bom ficar na história", afirmou.
E ainda não terminou. A vontade de continuar está intacta.
"Quero jogar até não conseguir andar. Quero parar de jogar futebol quando eu decidir. Quando já não conseguir mexer-me bem no relvado, aí saberei que chegou a minha hora. Mas acredito que ainda posso continuar. Levo época a época e vejo como me sinto. Se estiver bem, continuo. Também depende se algum clube me quiser."
Do Harrow Borough ao feito histórico na EFL. De herói das promoções a figura constante da Championship. Albert Adomah construiu uma carreira que ninguém teria previsto no início, e é uma carreira que, por decisão própria, ainda não terminou.

