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De herói olímpico a pedido de transferência: Carreira de Connor Hellebuyck deu uma reviravolta inesperada

Connor Hellebuyck durante uma pausa no jogo em que os Winnipeg Jets defrontaram os Dallas Stars
Connor Hellebuyck durante uma pausa no jogo em que os Winnipeg Jets defrontaram os Dallas Stars ČTK / AP / Tony Gutierrez / Profimedia

Há sete meses, Connor Hellebuyck defendia a baliza dos EUA nos Jogos Olímpicos de 2026. Os americanos defrontaram o Canadá na grande final, lutando pela medalha de ouro. Manteve-se firme na baliza, travando ataque após ataque. Remate após remate, permaneceu intransponível, frustrando cada vez mais os canadianos. Imparável.

Os EUA marcaram primeiro, inaugurando o marcador no primeiro período. Passados pouco mais de dois minutos do segundo, o defesa Cale Makar conseguiu finalmente encontrar espaço nas costas do guarda-redes, empatando a partida a uma bola.

Depois, o guarda-redes começou o seu espetáculo. A estrela Nathan MacKinnon, que liderou a NHL em golos no ano passado, rematou seis vezes. Nenhum entrou. O jovem talento Macklin Celebrini também rematou seis vezes, mas todos os seus esforços foram em vão. Brad Marchand. Mitch Marner. Connor McDavid. Todos jogadores consagrados, de topo, de elite. Ninguém conseguiu superar Connor Hellebuyck. 

A luta pela medalha de ouro foi para prolongamento, em que Jack Hughes, dos Estados Unidos, marcou o golo da vitória e colocou o seu país no topo.

Hellebuyck levou a sua equipa ao auge, tornando-se campeão olímpico. Também conquistou o prémio de melhor guarda-redes, depois de registar um percurso de 5-0-0, com uma média de 1,18 golos sofridos por jogo (GAA) e uma percentagem de defesas de .956 (SV%). Na final, defendeu 41 dos 42 remates. O país tinha um novo herói. 

Ascensão inesperada 

Hellebuyck cresceu no nevado Michigan, um estado conhecido pela sua paixão pelo hóquei. O seu irmão mais velho, Chris, também jogava hóquei, e Connor seguiu-lhe os passos. Idolatrava Olaf Kolzig e sonhava ser guarda-redes. Mas a sua história no hóquei começou longe das luzes da NHL.

Depois de terminar o ensino secundário, Hellebuyck jogou uma época de hóquei júnior pelos Odessa Jackalopes, na North American Hockey League (NAHL). Chegou aos Jackalopes praticamente desconhecido. Hellebuyck não era considerado um dos principais talentos de guarda-redes da América do Norte à entrada do Draft da NHL de 2012. Nem sequer figurava entre os 36 melhores guarda-redes norte-americanos do NHL Central Scouting. Isso mudou rapidamente.

Durante a época 2011/2012, Hellebuyck participou em 53 jogos, registou 26 vitórias, 21 derrotas e 5 empates, uma média de 2,49 golos sofridos por jogo e uma percentagem de defesas de .930. Conseguiu três jogos sem sofrer golos e foi eleito Co-Rookie do Ano e Co-Guarda-redes do Ano da NAHL.

Após a sua época de afirmação, os Winnipeg Jets escolheram Hellebuyck na quinta ronda, na 130.ª posição geral, no Draft da NHL de 2012. Ainda era um diamante por lapidar e optou por seguir o percurso universitário. Depois de garantir uma bolsa para a UMass Lowell, representou os River Hawks durante duas épocas na Hockey East Conference.

No percurso universitário, disputou 54 jogos e somou 38 vitórias, 12 derrotas e 2 empates, com uma percentagem de defesas de 0,946 e uma média de 1,60 golos sofridos por jogo. Levou a UMass Lowell à presença no Frozen Four logo como caloiro, conduzindo ainda os River Hawks ao título da Hockey East. Hellebuyck tornou-se o único jogador na história da Hockey East a vencer o prémio de MVP do torneio por duas vezes. Em 2013-2024, foi distinguido com o prestigiado Mike Richter Award para melhor guarda-redes do hóquei universitário. Saiu da UMass Lowell como líder de jogos sem sofrer golos do programa, com 12, e detém dois recordes de época: melhor percentagem de defesas (.952) e melhor média de golos sofridos (1,37). 

Após duas épocas brilhantes, decidiu abdicar dos dois anos de elegibilidade que lhe restavam e assinou um contrato de três anos, de entrada, com os Jets em abril de 2015. Mais uma vez, a jovem promessa tinha algo a provar. Mais tarde nesse ano, Hellebuyck foi dispensado do plantel dos Jets e enviado para os St. John’s IceCaps, filial dos Winnipeg na American Hockey League (AHL). 

"Depois de dois grandes anos, tive de olhar para a minha carreira como um todo e pensar no próximo passo. Depois de falar com ambas as equipas, foi uma decisão muito difícil, mas achei que o meu jogo estava pronto para o nível seguinte”, afirmou Hellebuyck. 

Afirmar-se como estrela 

Nunca vacilou na decisão e concentrou-se em evoluir. Inicialmente, partilhava a baliza com o guarda-redes eslovaco Peter Budaj, mas conquistou a titularidade em meados de novembro. 

"Não sou de usar a palavra 'surpresa' de ânimo leve, mas sim, fiquei surpreendido”, disse o treinador principal dos IceCaps, Keith McCambridge. 

Hellebuyck terminou a época de estreia na AHL com 28 vitórias, 22 derrotas e 5 empates, uma média de 2,58 golos sofridos por jogo e uma percentagem de defesas de 0,921, garantindo ainda presença no All-Star Game da AHL em 2015.

Após a época, os IceCaps mudaram-se para Winnipeg e tornaram-se os Manitoba Moose. Hellebuyck começou a época na nova equipa, mas rapidamente teve oportunidade de experimentar a NHL depois de o guarda-redes dos Jets, Ondřej Pavelec, se lesionar.

Estreou-se na NHL a 27 de novembro de 2015, frente aos Minnesota Wild. Defendeu 28 dos 29 remates e ajudou Winnipeg a vencer por 3-1.  

E assim começou a sua carreira na NHL. Não precisou de muito tempo para mostrar que pertencia àquele nível.

Depois do regresso de Pavelec, Hellebuyck terminou a época nos Moose, mas após o final da temporada, nunca mais voltou à AHL. Ganhou lugar no plantel dos Jets antes da época 2016/2017 e nunca mais olhou para trás. Um ano depois, Winnipeg renovou-lhe o contrato e Hellebuyck retribuiu a confiança da organização com mais uma época de afirmação. 

Durante a época 2017/18, Hellebuyck tornou-se o indiscutível guarda-redes número 1 de Winnipeg. Venceu 44 jogos, registou uma percentagem de defesas de .924 e ajudou os Jets a chegar à final da Conferência Oeste. A sua época de explosão valeu-lhe a nomeação para finalista do Troféu Vezina e consolidou-o como um dos melhores guarda-redes da Liga.

Troféus e marcos 

Dois anos depois, Hellebuyck atingiu outro patamar. Depois de terminar a época com 31 vitórias, uma percentagem de defesas de .922 e seis jogos sem sofrer golos, conquistou finalmente o Troféu Vezina para melhor guarda-redes da NHL. Tornou-se o pilar de Winnipeg. Um ícone. Uma referência de qualidade e consistência na baliza.

Em 2021, Hellebuyck esteve em grande destaque na eliminatória da primeira ronda dos playoffs da Stanley Cup, em que Winnipeg eliminou os Edmonton Oilers. Foi titular nos quatro jogos, ajudando os Jets a seguir em frente antes de serem eliminados por Montreal na segunda ronda.

Em 2024/2025, Hellebuyck viveu provavelmente o maior capítulo individual da sua carreira. Terminou com 47 vitórias, 14 derrotas e 4 empates, uma média de 2,00 golos sofridos por jogo, percentagem de defesas de .925 e oito jogos sem sofrer golos, liderando a NHL em vitórias e média de golos sofridos. Ajudou Winnipeg a conquistar a Divisão Central e o Troféu dos Presidentes.

Venceu o Troféu Vezina pelo segundo ano consecutivo e pela terceira vez no total, tornando-se apenas o quarto guarda-redes a conquistar pelo menos três Vezinas no formato atual. Ainda mais importante, venceu o Troféu Hart como MVP da NHL. Tornou-se o primeiro guarda-redes a vencer o Hart desde Carey Price em 2015.

A 7 de janeiro de 2025, Hellebuyck alcançou a sua 300.ª vitória na NHL, atingindo esse marco ao 538.º jogo, tornando-se o terceiro guarda-redes mais rápido da história da NHL a chegar às 300 vitórias, apenas atrás de Andrei Vasilevskiy e Jacques Plante. 

Depois, foi o guarda-redes titular dos EUA no 4 Nations Face-Off de 2025 e ajudou a sua equipa a chegar à final contra o Canadá. Um ano depois, conduziu os Estados Unidos à medalha de ouro olímpica.

Hellebuyck afirmou-se como guarda-redes de referência da franquia e um dos melhores da sua geração. Após 11 épocas nos Jets, todos esperavam que a estrela regressasse e impulsionasse Winnipeg para uma grande campanha nos playoffs, lutando pela Stanley Cup. Em vez disso, os adeptos souberam há poucos dias que Hellebuyck não se apresentou no estágio de pré-época, o que resultou na sua suspensão. 

Reviravolta inesperada

No final de agosto, Hellebuyck revelou que tinha pedido à organização para ser transferido há vários meses. Mas os Jets não conseguiram encontrar um novo destino para o seu guarda-redes estrela. 

“A minha posição não mudou e acredito que seguir em frente é o melhor caminho para mim e para a minha família,” afirmou Hellebuyck.

Acrescentou ainda que “tentou lidar com a situação de forma discreta e respeitosa, dando tempo à organização para explorar as suas opções.” 

O guarda-redes de 33 anos assinou uma extensão de contrato de oito anos, no valor de 59,5 milhões de dólares, em 2023. Mas, apesar de estar vinculado até 2031, pretende jogar hóquei noutro lado. 

"Winnipeg foi a minha casa durante toda a minha carreira na NHL e estarei sempre grato pelo tempo que lá passei", disse Hellebuyck: "Agradeço tudo o que os adeptos dos Winnipeg Jets significaram para mim ao longo da minha carreira."

O diretor-geral dos Jets, Kevin Cheveldayoff, mantém a esperança de que Hellebuyck e Winnipeg consigam encontrar uma solução para continuarem juntos. Enquanto os Jets preparam a próxima época, Cheveldayoff está a trabalhar numa solução para manter Hellebuyck no plantel – não apenas no papel, mas também no gelo, a brilhar na baliza.

"Nenhuma porta está fechada. Ele é um jogador com contrato por mais cinco anos. Mas, no fim do dia, a escolha é dele", afirmou Cheveldayoff na abertura do estágio de pré-época, na quinta-feira.

Não é que Winnipeg queira manter Hellebuyck a todo o custo – mas Cheveldayoff não conseguiu receber uma proposta que considerasse de valor equivalente. 

"Se és uma equipa que tem um verdadeiro guarda-redes número 1, que está seguro e é teu, provavelmente não estás interessado. E isto não é desvalorizar o Connor Hellebuyck ou algo do género. É apenas o mercado de guarda-redes em geral", explicou Cheveldayoff: "Portanto, o facto de uma equipa poder estar na lista como opção disponível e já ter um guarda-redes número 1, bem, isso acaba por ser irrelevante.” 

Além disso, segundo a TSN, Hellebuyck não vai abdicar da cláusula de não-movimentação para se juntar a nenhuma das outras seis equipas canadianas. 

"Não vou entrar em detalhes sobre as equipas específicas. O meu palpite é sobre quais são as suas restrições nesse sentido. Mais uma vez, as escolhas que ele faz são as escolhas que ele faz. Não compreendo porque tomou algumas das decisões que tomou quando falamos desse tipo de situações", disse Cheveldayoff.

Não é caso único 

Hellebuyck está longe de ser a única estrela a forçar a saída de uma franquia. Mais recentemente, o extremo-esquerdo Brady Tkachuk pediu para ser transferido dos Ottawa Senators após oito anos, durante a pré-época de 2026, colocando um fim inesperado à sua ligação à equipa.

Tkachuk foi capitão de Ottawa durante cinco épocas e tornou-se um dos jogadores mais marcantes da equipa, somando 213 golos e 463 pontos em 572 jogos. Mas, depois de os Senators voltarem a ser eliminados cedo nos playoffs, Tkachuk manifestou vontade de sair. Apresentou a Ottawa uma lista de quatro equipas – Florida, Carolina, Minnesota e Las Vegas – e a organização acabou por transferi-lo para os Panthers, onde se reencontrou com o irmão, Matthew. 

A saída foi difícil para o balneário de Ottawa. O defesa Thomas Chabot afirmou que os jogadores queriam que Tkachuk permanecesse na equipa e reconheceu que a decisão foi dececionante, enquanto o treinador principal Travis Green descreveu mais tarde o pedido de transferência como desapontante devido à relação que tinha com o antigo capitão.

Em 1991, a NHL viveu uma das disputas mais famosas e caóticas entre jogador e equipa da história da Liga. Eric Lindros foi escolhido em 1.º lugar pelos Quebec Nordiques, mas recusou-se a assinar com a equipa a qualquer preço. Em vez de vestir a camisola dos Nordiques, o talentoso extremo-direito abdicou de uma época inteira da carreira, ficando fora da Liga, apenas a treinar e a competir com a seleção canadiana, e participou nos Jogos Olímpicos de 1992. 

A sua recusa gerou uma enorme guerra de propostas, com várias equipas da NHL interessadas em adquirir os seus direitos. Acabou por rumar aos Philadelphia Flyers. Lindros não se limitou a pedir uma transferência – recusou-se a jogar pela equipa que o escolheu e esperou quase uma época inteira até receber uma das transferências mais complexas de sempre na NHL. 

Na pré-época de 2026, o centro Dylan Larkin pediu para ser transferido de Detroit e apresentou aos Red Wings uma lista curta de equipas para as quais aceitaria abdicar da cláusula de não-troca. O pedido permanece por resolver. Larkin passou toda a carreira na NHL em Detroit e não chega aos playoffs desde a época de estreia. Atualmente, Larkin está a recuperar de uma lesão, por isso está afastado do gelo. Mas se vai voltar aos Red Wings mais tarde é, para já, uma incógnita – tal como o futuro de Hellebuyck. 

Será que Hellebuyck e Larkin vão encontrar uma solução, ou vão passar uma época fora dos rinques? 

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