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Gonçalo Alves decidiu sair da zona de conforto, atravessar fronteiras e reinventar-se longe de casa. Depois de algumas experiências em Portugal como treinador-adjunto e da passagem pelo Estoril Praia, já como principal no futebol no feminino, encontrou na Letónia um novo palco para crescer, liderando o projeto do FK Metta e consolidando uma identidade própria enquanto treinador.
Nesta entrevista com o Flashscore, fala sobre as referências que o moldaram - de Johan Cruyff a Telê Santana, passando por José Mourinho e Pep Guardiola -, explica a importância de equipas com identidade e defende um futebol onde a criatividade não seja sufocada pelo medo de errar. Pelo meio, revela ainda como a liderança humana se tornou tão importante como a dimensão tática.
Da realidade no feminino feminino em Portugal ao contexto competitivo letão, do choque com o frio extremo ao desejo de um dia atingir patamares mais altos, Gonçalo abre o jogo sobre carreira. Sempre com uma ideia clara: evoluir sem perder a essência.

De Cruyff a Telê Santana: "Gosto de equipas com identidade"
- Onde é que surgiu a paixão pelo treino?
Esta paixão pelo treino nasce muito das minhas referências e daquilo que vivi enquanto jogador. Sentia que o treino podia ser diferente. Quando decidi ser treinador, procurei estudar a evolução do jogo, vendo partidas de várias décadas e percebendo como o futebol mudou ao longo do tempo, sempre em função das exigências do próprio jogo.
Tenho uma enorme paixão pelo treino e pelo jogo em si. Entre as minhas primeiras referências está Rinus Michels, sobretudo pela forma coletiva como organizava as equipas, especialmente no momento defensivo. Essa ideia de que o jogo se constrói coletivamente marcou-me muito.
Depois há nomes incontornáveis como Arrigo Sacchi, Johan Cruyff, Telê Santana, José Mourinho e Pep Guardiola. Destaco também Jorge Jesus pela capacidade de detalhe, sobretudo no plano defensivo. Em várias décadas tivemos alguém que influenciou muito o jogo.
Há ainda treinadores portugueses que valorizo muito em áreas específicas, como Vítor Pereira no planeamento do treino, Luís Castro, Miguel Cardoso e Paulo Fonseca. O treinador vai recolhendo ideias de várias fontes e acaba por construir a sua própria identidade.
Para mim, o futebol tem esta força porque envolve emoção. E tudo o que tem emoção torna-se diferente.
- Isso leva-me a uma segunda questão: há essas referências todas que ajudam a construir a sua ideia de jogo, que também está dependente do contexto, dos jogadores ou das jogadoras. Mas se tivesse à sua disposição toda a matéria-prima que idealiza, qual seria essa ideia de jogo?
A minha ideia de jogo assenta em três dimensões: coletiva, setorial e individual. Vejo o jogo numa perspetiva global, em que têm de existir ligações e conexões constantes entre jogadoras.
A dimensão individual passa pelo detalhe, como o um para um defensivo. A setorial envolve a articulação entre três, quatro ou cinco jogadoras, garantindo que todas interpretam os momentos do jogo da mesma forma.

Cada jogadora tem a sua própria visão e a sua forma de sentir o jogo, por isso é essencial criar uma linguagem comum. Se dentro de um setor nem todas identificarem o mesmo estímulo ou momento, dificilmente haverá sintonia.
Por isso, a identificação dos momentos de jogo é decisiva no treino: primeiro ao nível setorial e depois ao nível coletivo, para que toda a equipa pense e reaja em conjunto.
- É preciso haver esse entendimento das várias personalidades que existem em campo. Como olha para a liberdade da jogadora? É um treinador que gosta desse lado mais criativo, de dar oportunidade à jogadora para ser livre na ação?
Gosto de uma ideia coletiva e de equipas com identidade. Para mim, identidade traduz-se em padrões de comportamento e numa intencionalidade clara no jogar. Quero uma equipa associativa, em que todas as jogadoras se sintam envolvidas, ligadas ao grupo e comprometidas com valores e princípios inegociáveis.
Ao mesmo tempo, a individualidade nunca pode desaparecer. Não pode sobrepor-se ao coletivo, mas é precisamente o talento individual que torna o futebol apaixonante. Basta olhar para figuras como Lionel Messi, Cristiano Ronaldo ou Ronaldinho para perceber como o jogo também vive da criatividade e da diferença.
O jogador não pode ser colocado dentro de uma caixa, sobretudo na formação. Essa fase deve servir para estimular a expressão individual, a criatividade e a liberdade para arriscar.
O erro faz parte do processo. Vemos erros em todos os níveis do futebol, dos campeonatos locais à Premier League. O futebol é, muitas vezes, um jogo decidido por quem erra menos, mas isso não significa que se deva punir o erro ao ponto de bloquear o jogador.
Se o treinador não permitir que a individualidade se expresse, sobretudo compreendendo que o erro vai acontecer, está a limitar o crescimento da jogadora ou do jogador.
Vivemos numa sociedade em que parece que não se pode errar. É quase uma ditadura do erro, como se o erro fosse proibido. Mas foi o erro que nos fez evoluir enquanto desporto, sociedade e espécie. Por mais que queiramos ser perfeitos, e por mais que queiramos que os outros, neste caso treinadores, jogadoras e jogadores, sejam perfeitos, normalmente não corre bem, porque eles não são perfeitos e nós também não somos. O erro esteve sempre ligado à evolução no desporto e na vida. A perfeição não existe, no futebol muito menos.

A passagem para o feminino: "Encontrei diferenças interessantes"
- Gonçalo, gostava de passar para a mudança para o futebol feminino, que creio que acontece na época 2021/22, no Estoril Praia. O que motivou essa mudança e o que encontrou de diferente nesse contexto?
A mudança surgiu pela vontade de ser treinador principal. Acredito muito na prática e na vivência da função. Só assumindo responsabilidades, criando rotinas e enfrentando diferentes contextos é que se ganha verdadeira preparação para liderar uma equipa.
Hoje sinto-me melhor treinador do que nessa altura no Estoril Praia, precisamente porque essa experiência foi muito exigente. Encontrei uma equipa fragilizada emocionalmente, que vinha de muitos meses sem vencer e precisava de recuperar confiança. Foi um contexto difícil, mas muito formador.
No futebol feminino encontrei diferenças interessantes, sobretudo na forma como as jogadoras se relacionam com o treino. São muito focadas na tarefa, querem perceber o porquê de cada exercício, o sentido de cada movimento e de cada decisão. Isso, para um treinador, é extremamente estimulante.
Prefiro investir tempo a explicar bem no início para depois o treino fluir com qualidade. Ao mesmo tempo, também gosto de não revelar tudo de imediato, deixando espaço para que descubram respostas dentro do próprio exercício, através da comunicação, da interpretação e do pensamento crítico.
Costumo dizer que trabalho com o cérebro e com a emoção das jogadoras. Essas dimensões estão ligadas e têm de ser estimuladas em conjunto.
Para mim, há três pilares que têm de estar sempre alinhados: a análise, a ideia de jogo e a ideia de treino. Formam um triângulo essencial. A forma como vejo o jogo tem de refletir-se na forma como treino e preparo a equipa para competir.
- Essa forma como elas veem o jogo, que exige outro tipo de atuação, foi também o que o fez apaixonar ainda mais e continuar até hoje no futebol feminino?
Sim, sinto isso claramente. A minha liderança é muito aberta e foi enriquecida pelas experiências que tive como adjunto de vários treinadores. Aprendi não só sobre o jogo, mas também sobre liderança, gestão de expectativas e gestão de diferentes personalidades.
Gerir um grupo implica perceber que cada pessoa é diferente. Há perfis mais introvertidos, mais extrovertidos ou mais individualistas, e é essencial olhar para cada jogadora não apenas pelo rendimento em campo, mas também enquanto ser humano.
Muitas vezes, uma jogadora pode ser reservada fora do relvado e, dentro dele, revelar enorme personalidade e coragem. É importante compreender essas diferenças e adaptar a forma de liderar.
Um dos fatores que me fez continuar no futebol feminino, e que me mantém motivado, é precisamente essa estimulação diária e a riqueza humana que encontro nesse contexto.

A chegada à Letónia: "Encontrei valorização profissional"
- Já são algumas épocas na Letónia. Antes de perguntar pelas principais diferenças, gostava de saber como surgiu esta possibilidade de ir para a Letónia?.
Percebi que o mercado em Portugal é bastante fechado e que, muitas vezes, se não se entra em determinados círculos, torna-se difícil crescer. Por isso, senti necessidade de abrir horizontes, mesmo sabendo que isso implicava deixar a família e os filhos.
Um dos convites que recebi foi do FK Metta, onde estou muito feliz. Encontrei boas condições de trabalho e valorização profissional, algo que considero essencial.
Vejo a carreira de treinador como um percurso de continuidade, não de saltos constantes entre clubes. Sou um treinador de projeto, alguém que acredita em processos sustentados e em construir algo com tempo. A minha ideia de jogo e de treino precisa dessa estabilidade, algo que hoje nem sempre existe no futebol.
Prefiro um contexto que me permita evoluir, testar ideias e crescer, do que entrar num ambiente onde tudo depende do resultado imediato. No futebol, muitas vezes, se a bola entra és excelente, se bate no poste já deixas de o ser.
Também me custa ver treinadores criticados mesmo quando elevam clubes para outro nível. O exemplo do Arsenal mostra como o tempo pode transformar uma equipa. O mesmo aconteceu com a Atalanta. Quando há continuidade, os resultados tendem a aparecer.
Não acredito em projetos onde passam três ou quatro treinadores com ideias completamente diferentes. Se existe realmente um projeto, a mudança de treinador deve preservar uma linha de continuidade. Caso contrário, quem acaba por pagar são sempre os clubes e os adeptos.
- Em relação à Letónia, como descreve o futebol feminino no país para quem está em Portugal e não acompanha essa realidade?
A primeira explicação está na cultura. É um país que lutou pela sua identidade e isso reflete-se na mentalidade competitiva. Existe uma forte cultura de trabalho, de esforço e de valorização de quem faz bem o seu trabalho.
Isso nota-se no futebol. As jogadoras não desistem facilmente: estejam a perder por um, dois ou três golos, continuam competitivas, concentradas e disponíveis para lutar até ao fim.
Outra diferença está na relação com o treino. Estão habituadas a cargas físicas elevadas e a muito trabalho sem bola. Por isso, conceitos como treino de recuperação nem sempre são intuitivos à partida, porque associam recuperação a continuar a correr e a competir.
O jogo é também bastante mais físico do que em Portugal. Há mais contacto, mais duelos, mais agressividade competitiva e maior intensidade nas disputas.
No fundo, sente-se que a cultura nacional está muito presente no futebol: patriotismo, resiliência, combatividade e grande predisposição para o trabalho.

O projeto no Metta: "Têm uma cultura desportiva melhor do que a nossa"
- Falava há pouco das condições para ter um projeto contínuo. O que encontrou no Metta e o que o faz sentir feliz e querer continuar aí?
Hoje fala-se muito de processo, porém muitos treinadores vivem pressionados pelo resultado imediato e sem espaço para treinar verdadeiramente. Quando não há tempo de trabalho, o jogo torna-se mais caótico e depende cada vez mais do talento individual.
No FK Metta encontrei uma visão de longo prazo. É uma referênca no futebol feminino na Letónia. Há confiança, estabilidade e valorização do meu trabalho. Isso permite consolidar uma identidade de jogo e crescer de forma sustentada, algo cada vez mais raro no futebol atual.
Aqui não há o protagonismo que vi e senti noutras experiências, em que muitos dirigentes também queriam aparecer, falar e ter conteúdo nas redes sociais, a dizer que o clube forma muito bem ou faz isto e aquilo. Às vezes esquecem-se de que, a meu ver, o papel do dirigente é dirigir o clube. Muitas vezes vemos o dirigente a querer treinar a equipa.
Temos de saber o nosso papel. O treinador tem de treinar, a jogadora tem de jogar, o dirigente tem de dirigir e o presidente tem de ter uma visão global do clube e da equipa de futebol, masculina e feminina. Depois há dirigentes para cada departamento. Se cada um fizer o seu papel, o clube vai andar e ficar estável.
Depois, eles têm uma cultura desportiva melhor do que a nossa, no sentido em que não olham apenas para o clube. Olham para como podem evoluir o futebol como um todo.
- Já são vários anos no FK Metta. Quais são, neste momento, os principais desafios que enfrenta enquanto treinador nesse contexto?
Os desafios foram diferentes em cada época, porque dependeram sempre do contexto.
No primeiro ano houve um choque natural entre a minha forma de ver o jogo, comunicar e liderar, e aquilo a que as jogadoras estavam habituadas. Cada atleta traz consigo ideias de outros treinadores, preferências próprias e uma determinada leitura do jogo. A minha liderança, mais aberta e participativa, contrastava bastante com modelos anteriores.
Dou espaço ao conflito saudável, à expressão emocional e ao diálogo. Não acredito numa liderança distante ou colocada num patamar superior. Mas esse processo exige tempo e adaptação, e esse foi o principal desafio inicial.
Na segunda época, o desafio passou por manter o grupo e consolidar o trabalho. A ideia de jogo e de treino já estava assimilada, mas o bom rendimento da equipa levou à saída de várias jogadoras para outros mercados. Foi necessário reajustar constantemente o plantel e, ainda assim, conseguimos manter a qualidade exibicional e competitiva.
Na terceira temporada, o foco tem sido a renovação. Saíram jogadoras importantes, algumas referências do clube, entraram várias atletas novas e isso exige novamente tempo para criar ligações e consolidar dinâmicas.
No fundo, tive problemas diferentes nos três anos, o que também me obrigou a crescer como treinador.

- Falando mais sobre a realidade do feminino na Letónia: é profissional? As jogadoras conciliam com outros trabalhos?
Aqui é um pouco como acontece em Portugal. Na primeira liga, há um clube com um orçamento completamente diferente e que consegue trazer mais jogadoras estrangeiras...
- É um pouco como o Benfica em Portugal?
É um bom exemplo. O Benfica está num patamar diferente, mas há uma lógica comum no futebol: depois de um ciclo de domínio, muitos clubes optam por ajustar o investimento.
Foi isso que aconteceu também aqui. Nas primeiras épocas, o clube rival com maior poder financeiro investiu muito e conquistou tudo: campeonato, taça, supertaça e a Baltic Cup, que reúne equipas da Lituânia, Letónia e Estónia. Depois desse ciclo vitorioso, reduziu o investimento.
No FK Metta, as jogadoras ainda não são plenamente profissionais. Mas um dos próximos passos passa por remunerar algumas das principais referências do plantel, criando bases mais sólidas para o crescimento da equipa.
Na minha perspetiva, só podemos falar verdadeiramente de profissionalismo quando uma jogadora consegue viver exclusivamente do futebol. Tudo o resto são ajudas ou compensações.
Apesar disso, o Metta tem evoluído muito no futebol feminino. Hoje existe uma estrutura mais robusta, com mais pessoas no departamento e mais treinadores, o que tem ajudado o clube a afirmar-se como uma referência nesse contexto.
- Fora do futebol, como é a vida na Letónia?
A principal diferença está no clima. Treinar com temperaturas de 10, 15 ou até 24 graus negativos muda completamente a forma de planear e viver o treino.
As condições meteorológicas influenciam tudo: o tipo de exercício, a duração, a intensidade e até o estado do relvado. Durante parte da época jogamos em relva artificial, porque os nevões e o gelo tornam muito difícil utilizar relva natural em boas condições.
Nos primeiros tempos foi um choque para mim. Nunca tinha trabalhado em temperaturas tão baixas e, muitas vezes, sentia que o corpo entrava quase em modo de sobrevivência. Para as jogadoras, porém, era algo normal, porque estão habituadas desde cedo.
Lembro-me de querer explicar tudo muito depressa por causa do frio, e elas dizerem-me para falar com calma, porque para elas aquelas condições eram naturais. Também isso me obrigou a adaptar a minha comunicação e a forma de orientar o treino.
Agora, à terceira época, já estou muito mais adaptado e consigo ler melhor o contexto. Aqui a temporada começa em janeiro e termina em novembro, o que significa atravessar as quatro estações, sempre com um inverno muito rigoroso como pano de fundo.
- E a cidade? Tirando o frio, como são as pessoas e como é Riga?
Para quem gosta de natureza, a cidade é excelente. Há muitos parques e espaços verdes dentro da própria cidade, e nos arredores encontra-se ainda mais contacto com a natureza. Uma das coisas que mais valorizo aqui é o espaço e a tranquilidade. Tudo é menos congestionado, mais calmo e com maior sensação de liberdade no dia a dia.
A cidade também convida a caminhar, porque é plana e fácil de percorrer. É possível andar longas distâncias com conforto e qualidade de vida. Além disso, toda a costa da Letónia é marcada por praias naturais e pouco movimentadas. Para quem aprecia mar e paisagens tranquilas, é um país muito bonito e com grande qualidade ambiental.

O futebol no feminino em Portugal visto de fora
- Como tem visto o crescimento do futebol no feminino em Portugal? Há quem diga que temos vindo a crescer, mas também há opiniões de que o futebol feminino está estagnado. Qual é a sua visão, estando agora de fora e sem compromisso com nenhum clube português?
Vejo o futebol feminino português de forma positiva e cada vez mais competitivo. Hoje já existem vários clubes capazes de discutir jogos com Benfica e Sporting, algo muito importante para o crescimento da modalidade.
Há projetos interessantes como Torreense, Valadares Gaia e Racing Power, que mostram ambição e capacidade competitiva. Mesmo sem a continuidade ou os recursos dos maiores, conseguem discutir jogos na Taça de Portugal ou na Taça da Liga Feminina.
O Sporting parece estar numa fase de renovação, entre uma geração anterior e a construção da próxima. Já o Benfica, pelo investimento que tem, deve olhar cada vez mais para uma afirmação consistente no plano europeu. O SC Braga continuará sempre competitivo, e o Vitória SC, pela dimensão e massa adepta, tem condições para crescer no feminino.
Mas há um passo decisivo que continua por dar: o profissionalismo. Tanto em Portugal como na Letónia, as federações precisam de criar melhores condições para clubes e jogadoras.
A Liga deveria caminhar para um modelo plenamente profissional. Uma jogadora deve poder viver exclusivamente do futebol, tal como acontece com muitos treinadores. Só assim pode concentrar-se totalmente na carreira, no rendimento e na evolução.
Hoje, muitas atletas estudam ou trabalham o dia inteiro e depois vão treinar. É natural que isso condicione rendimento, recuperação e exigência competitiva. Sem suporte financeiro, é difícil pedir comportamentos totalmente profissionais.
Se Portugal quer competir com as melhores seleções europeias e mundiais, e se a Letónia quer consolidar-se num patamar intermédio, esse investimento estrutural no profissionalismo é indispensável.

"Continuo a acompanhar o futebol português com grande interesse"
- O que é que esta aventura na Letónia já lhe deu enquanto treinador e pessoa?
Esta experiência deu-me uma capacidade de adaptação muito maior. Hoje olho para o ser humano com menos preconceito e com muito mais aceitação. Percebi melhor que pessoas diferentes podem olhar para a mesma realidade e interpretá-la de formas completamente distintas.
Também me adaptei à cultura local, à forma como aqui se vive e como se encara o futebol e a sociedade. Há um grande respeito pelo outro, pelas regras e pelo espaço comum. Sente-se um forte sentido de comunidade e responsabilidade coletiva.
São, no geral, pessoas mais reservadas e introvertidas, menos dadas à exposição ou ao protagonismo. Existe maior respeito pelo espaço dos outros e uma forma diferente de comunicar em público. Tudo isso obrigou-me a adaptar-me rapidamente e ajudou-me a crescer muito enquanto pessoa.
Quando saímos de Portugal, ganhamos uma perspetiva mais ampla da vida. Percebemos que o nosso país tem qualidades enormes e uma identidade muito própria, mas também entendemos que existem outras formas válidas de pensar, viver e sentir.
Essa visão mais global transformou-me como pessoa e, inevitavelmente, também como treinador.

- Para terminar, já sabemos que o futuro próximo passa pela Letónia. Mas que perspetivas tem para o futuro? Como planeia a sua carreira? Regressar a Portugal e à nossa liga é um objetivo?
Mais do que pensar em países específicos, o meu objetivo passa por treinar num nível superior. A experiência na Letónia deu-me uma visão mais ampla do futebol e sinto-me hoje mais preparado para novos desafios, seja em Portugal ou no estrangeiro.
Para mim, é importante cumprir etapas e atingir determinadas metas antes de passar ao patamar seguinte. Neste momento, sinceramente, não me vejo a sair já. Quero cumprir o contrato e estou muito feliz no FK Metta.
Continuo a acompanhar o futebol português com grande interesse. Naturalmente, voltar a Portugal será sempre algo especial. Quando estamos fora, sentimos falta dos nossos hábitos, da nossa cultura e da forma como vivemos.
Continuo a acreditar que Portugal é um país extraordinário para viver, pela diversidade, pelo clima e pela qualidade de vida. Ao mesmo tempo, também gosto muito da Letónia e sinto-me bem aqui.
Neste momento estou totalmente focado no Metta. No futuro, o objetivo será continuar a evoluir e dar o próximo passo na carreira.
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