A história de Cade Cunningham: como as adversidades impulsionaram a ascensão da estrela de Detroit

Cade Cunningham durante um jogo dos playoffs
Cade Cunningham durante um jogo dos playoffsRick Osentoski / Imagn Images / Reuters

Após o salto inicial, era tudo ou nada. Não havia amanhã. Cade Cunningham sabia que esta era a sua última oportunidade para levar Detroit além do limite e superar a adversidade. Não importa como se começa — importa como se termina — e, quando o momento exigiu grandeza, o base brilhou, conduzindo os Pistons às meias-finais da conferência com uma exibição dominante no Jogo 7.

Cunningham não deixou dúvidas, respondeu à chamada quando a sua equipa mais precisou dele e consolidou o seu lugar entre a elite da Liga. Marcou 32 pontos e somou 12 assistências enquanto Detroit superou os Magic por 116-94, evitando um desfecho devastador para a época.

“Fomos levados ao limite”, disse Cunningham.

“E isso fez-nos realmente refletir sobre a forma como estávamos a jogar, o que nos trouxe até aqui e o que nos fez vencer tantos jogos na fase regular. E fez-nos voltar a jogar o basquetebol que sabíamos que éramos capazes de praticar", acrescentou.

O início dos playoffs não foi o ideal para os Detroit Pistons. Depois de garantirem o 1.º lugar da Conferência Este, a primeira ronda deveria ser apenas um aquecimento frente aos oitavos classificados, os Orlando Magic. Cunningham liderou os Pistons até um registo de 60-22 – o terceiro melhor da história da franquia. Detroit era um dos principais candidatos ao título da NBA.

No entanto, Orlando levou Detroit ao limite. Os Magic mostraram garra e resiliência ao longo da série, vencendo três dos primeiros quatro jogos e colocando o primeiro classificado à beira da eliminação. Mas os Pistons demonstraram o caráter de verdadeiros candidatos ao título – em vez de cederem, Detroit acelerou, venceu três jogos consecutivos e forçou o Jogo 7.

O resto é história. Evitando uma reviravolta monumental, os Pistons consumaram uma das melhores recuperações da história dos playoffs e avançaram para a segunda ronda. Cunningham teve uma média de 32,4 pontos na série inaugural, tornando inquestionável a sua época de afirmação. Algumas semanas depois, o seu esforço e consistência ao mais alto nível foram oficialmente reconhecidos – Cunningham foi eleito para a Primeira Equipa All-NBA, juntando-se a superestrelas como Shai Gilgeous-Alexander, Luka Doncic, Victor Wembanyama e Nikola Jokic.

A seguir o seu desejo 

Atualmente, Cunningham é um dos melhores jogadores da NBA. No entanto, esteve perto de se destacar no futebol americano, em vez do basquetebol. Nasceu em Arlington, Texas, e cresceu perto dos famosos Dallas Cowboys. Quando Cade tinha 13 anos, participou num estágio da equipa, impressionando com a sua maturidade e precisão nos passes, apesar da tenra idade. O seu pai, Keith, era uma promessa de quarterback e jogou em Texas Tech, mas nunca chegou à NFL.

“O meu pai era jogador de futebol americano, por isso cresci a jogar futebol americano. Era o meu número um”, afirmou Cunningham.

Parecia que Cade tinha herdado o talento e as capacidades, e, mais importante ainda, o potencial para ser ainda melhor. O caminho para a grandeza parecia perfeito. Ainda assim, decidiu traçar o seu próprio percurso.

“Chegou uma altura em que percebi que não gostava nada dos treinos de futebol americano. Mas jogar basquetebol e trabalhar o meu jogo dava-me uma adrenalina", explicou.

No nono ano, Cade deixou o futebol americano para perseguir o seu verdadeiro sonho – o basquetebol. Mas até a sua maior paixão quase foi engolida pela escuridão.

Inicialmente, tudo correu bem, com Cunningham a dominar a sua época de caloiro no liceu. Infelizmente, sofreu uma lesão no joelho no início do segundo ano, que o travou. Ainda assim, o base terminou a época com médias de 18,8 pontos, 8,2 ressaltos e 5,3 assistências por jogo. Ao entrar no terceiro ano, Cunningham transferiu-se para a Montverde Academy, um colégio interno na Florida conhecido pelos seus programas desportivos de elite.

Longe e sozinho 

A mudança foi um verdadeiro teste de fogo. Pouco depois de chegar à Florida e de viver longe de casa pela primeira vez, Cunningham enfrentou uma perda pessoal devastadora. 

“Nunca disse isto em nenhuma entrevista, mas no meu primeiro mês longe de toda a minha família, passei pela primeira morte de sempre. Nunca tinha perdido ninguém da família, ninguém próximo de mim tinha morrido. Isso aconteceu mais duas vezes", contou Cunningham a Kevin Durant numa entrevista para a Boardroom.

A dor acumulou-se, mas antes de conseguir processar tudo, Cunningham recebeu mais uma notícia chocante – duas semanas depois de saber da terceira morte na família, descobriu que a ex-namorada estava grávida e que ia ser pai de uma menina.

“E estou longe dos meus pais, longe de toda a gente. Fiquei sem saída”, disse Cunningham.

Admitiu que não tinha a certeza se ia continuar a jogar basquetebol. Apesar do apoio dos pais, Cunningham pensou que a NBA já não estava no seu destino.

“Os meus pais, sou-lhes tão grato. Foram um apoio fundamental para mim e para a minha filha. Diziam-me: ‘Andavas a pedir-nos para ires para lá e fazeres o teu caminho no basquetebol.’ E eu a pensar: ‘Agora tenho de voltar para casa e ser pai. O basquetebol acabou para mim.’ Todos os que conhecia que tinham filhos cedo deixaram de jogar", contou.

Atravessar o fogo 

De repente, uma nova responsabilidade tomou conta da sua vida. Cunningham ponderou abandonar o basquetebol e focar-se em ser pai. Mas, quando pensava que a carreira tinha terminado, viu uma luz ao fundo do túnel. Agarrou-se à família. O nascimento da filha, Riley, obrigou-o a amadurecer de um dia para o outro, mas usou as circunstâncias para alimentar a sua motivação. Permaneceu em Montverde e terminou o último ano como o 1.º jogador do país, conquistando vários prémios de Jogador Nacional do Ano.

Comprometeu-se com a Oklahoma State e destacou-se de imediato como um dos melhores jogadores do basquetebol universitário. Cunningham teve médias de 20,1 pontos, 6,2 ressaltos, 3,5 assistências e 1,6 roubos de bola na sua única época em Stillwater. Em dezembro de 2020, o base marcou 29 pontos, incluindo 13 nos últimos 91 segundos, ajudando a Oklahoma State a vencer a Oral Roberts por 83-78. Dois meses depois, registou 40 pontos e 11 ressaltos para bater o rival estadual Oklahoma por 94-90, após prolongamento. 

Cunningham conquistou tanto o prémio de Jogador do Ano da Big 12 como o de Caloiro do Ano da Big 12, além de ser unanimemente escolhido para a Primeira Equipa All-American, tornando-se o primeiro jogador de Oklahoma State desde Bob Kurland, em 1946, a alcançar tal feito.

Declarou-se para o draft da NBA de 2021 e os Detroit Pistons escolheram-no na 1.ª posição. Mais uma vez, a adversidade surgiu cedo. Uma lesão no tornozelo obrigou-o a falhar todo o estágio de pré-época e os primeiros cinco jogos da fase regular. Na estreia na NBA, Cunningham marcou apenas dois pontos — o registo mais baixo de um 1.º escolhido desde Anthony Bennett em 2013.

A construir passo a passo 

Mas Cunningham manteve-se paciente, tornando-se gradualmente mais consistente, eficiente e produtivo. Em janeiro, somou 34 pontos, 8 ressaltos, 8 assistências, 4 desarmes de lançamento e 2 roubos de bola frente aos Denver Nuggets, igualando Michael Jordan como os únicos rookies na história da NBA a alcançar esses números. Terminou o ano com uma média de 17,4 pontos – o melhor entre todos os rookies, e foi eleito para a Equipa All-NBA Rookie.

A segunda época foi interrompida devido a uma fratura de stress na tíbia esquerda que obrigou a cirurgia. Cunningham regressou em força no ano seguinte, com médias de 22,7 pontos, 4,3 ressaltos e 7,5 assistências por jogo. Mas Detroit atravessou dificuldades – sofreu 28 derrotas consecutivas, igualando a mais longa série de derrotas da história da NBA. Dois dias depois de atingir essa marca negativa, os Pistons quebraram a sequência e começaram lentamente a retomar o rumo certo. 

No verão de 2024, a organização assinou com Cunningham uma extensão de contrato de cinco anos no valor de 224 milhões de dólares. A mensagem era clara: Detroit apostava na jovem estrela, demonstrando confiança e acreditando que poderia tornar-se o pilar da franquia e levá-la ao topo. E a decisão tem dado frutos.

Desde que assinou a renovação, Cunningham tem estado extraordinário; na última época, conseguiu três triplos-duplos consecutivos, igualando o recorde de Grant Hill para a mais longa sequência da história da franquia. Subiu ao segundo lugar em triplos-duplos totais, estando atualmente com 14. Hill lidera o registo histórico com 29. Cunningham foi selecionado pela primeira vez para o All-Star Game e foi finalista ao prémio de Jogador Mais Evoluído do Ano.

Destino final: o título 

Cunningham ajudou Detroit a alcançar um registo de 44-38, o primeiro saldo positivo desde 2016, e a primeira presença nos playoffs desde 2019. Os Pistons perderam com os New York Knicks em seis jogos. Mas a tendência era clara – Detroit estava a melhorar e o melhor ainda estava para vir.

Este ano, Cunningham conduziu os Pistons ao melhor registo da Conferência Este e ao terceiro melhor da Liga. Em novembro, frente aos Washington Wizards, estabeleceu um novo máximo de carreira com 46 pontos, 12 ressaltos, 11 assistências, 5 roubos de bola e 2 desarmes de lançamento, tornando-se o primeiro jogador na história da NBA a alcançar estes números.

No Jogo 5 frente aos Magic – quando os Pistons estavam encostados às cordas e em risco de eliminação – Cunningham explodiu com 45 pontos, batendo o recorde da franquia para mais pontos num só jogo nos playoffs. Na segunda ronda frente aos Cavaliers, registou o seu segundo triplo-duplo em playoffs, mas Cleveland superou os Pistons em sete jogos, terminando uma época fantástica de forma amarga. Mas o lugar na Primeira Equipa All-NBA garante que a franquia está em boas mãos.

O fenómeno de 24 anos já provou que está entre os melhores da NBA. Já decidiu jogos. Atormentou adversários com capacidades quase impossíveis de travar. Continua a somar triplos-duplos. O próximo objetivo está à vista: o Troféu Larry O’Brien.

Para os Pistons, a época terminou mais cedo do que o esperado. Mas Cunningham já demonstrou que sabe como superar as tempestades. Os momentos difíceis moldam-no. Fortalecem-no. Muitas vezes, as circunstâncias da vida que parecem travar o progresso dão perspetiva e disciplina para encontrar uma saída. Um caminho até ao topo.