É importante não exagerar, é importante não exagerar... Mas, ainda assim. Foram precisos 19 anos para voltarmos a ver um francês conquistar uma prova World Tour de uma semana, por isso, aproveitemos o momento!
Quando Christophe Moreau ganhou o Dauphiné, Paul Seixas ainda nem tinha um ano. Isto mostra bem como a espera foi longa até este Tour do País Basco, onde o natural de Lyon esmagou a concorrência logo no contrarrelógio inaugural em Bilbau. No dia seguinte, reforçou a vantagem, deixando já tudo praticamente decidido. Na quinta-feira, seguiu Florian Lipowitz numa fuga a 70 quilómetros da meta e fez tremer o 3.º classificado do último Tour de France, que lançou um sprint condenado ao fracasso a 800 metros da chegada.
Na era dos dados, não é preciso ser um especialista em matemática para perceber o óbvio: Seixas tem tudo de um fuoriclasse. Já é apontado como potencial vencedor de uma Grande Volta, mesmo sem nunca ter disputado uma corrida de três semanas.
A tentação de lhe atribuir já a coroa dos 21 ganchos de Alpe d’Huez, de o rotular como sucessor de Bernard Hinault – o mito que tantas vezes foi duro com as gerações seguintes – é grande. Não é fácil conter o entusiasmo, quando o túnel que dura desde 1985 e a última vitória do Blaireau na Grande Boucle começa finalmente a mostrar uma luz ao fundo.
Agora, todos querem Seixas. Todos querem vê-lo no Tour de France e a decisão sobre a sua presença ou não na Grande Boucle vai tornar-se o segredo mais bem guardado do país... quando é difícil imaginar a Decathlon-CMA CGM a dizer "não", tendo em conta o entusiasmo e a onda que ele gera.
Para se ter uma ideia, a equipa carinhosamente chamada de "D4" recebeu recentemente Émilien Jacquelin, pronto para iniciar uma segunda carreira. Um campeão olímpico e mundial de biatlo a apostar no ciclismo vai dar que falar durante semanas. Mas nada se compara à importância de um jovem de 19 anos a dominar veteranos do pelotão e a pôr fim a uma longa espera, tudo com postura de líder. Talvez porque a França do ciclismo está cansada de só ser França do ciclismo durante três semanas em julho.
Mas com o sucesso vêm as perguntas, sobretudo aquela que todos fazem: como é que a França consegue produzir um fenómeno destes quando espera há mais de 40 anos por um vencedor da maior corrida do mundo? Talvez porque, parafraseando um famoso futebolista, "o ciclismo mudou". Apostar forte na formação, privilegiando a qualidade em vez da quantidade, está a dar frutos. E já não faz sentido manter talentos em banho-maria quando o potencial é evidente. Os exemplos de Tadej Pogačar, Remco Evenepoel, Isaac del Toro e até Juan Ayuso tiveram impacto em França.
A França é um país de ciclismo, com provas míticas, corridas ao longo de todo o ano e uma rede regional que sustenta várias equipas profissionais. No meio de tudo isto, é natural que surja uma joia. Longe de comparar Seixas a uma ostra perlífera, preferimos preparar-nos para o ver enfrentar pela segunda vez o chefe final do ciclismo: Pogačar.
No primeiro duelo nas Strade Bianche, Seixas foi o último a conseguir seguir a roda do melhor ciclista da atualidade. O segundo confronto, em Liège-Bastogne-Liège (e quem sabe antes, na Flèche Wallonne), promete espetáculo. E espetáculo é bom para as audiências e para todo o ecossistema do ciclismo.
Não se vai evitar a palavra proibida, nem as comparações duvidosas. Mas também não se vai evitar ver um ciclista francês em todos os ecrãs de televisão e tê-lo como favorito em 95% das provas em que alinhar. Vale bem a pena correr o risco.
