Gafe diplomática entre Israel e Palestina perturba encenação de Infantino

Gianni Infantino (esq.) no Congresso da FIFA no Canadá
Gianni Infantino (esq.) no Congresso da FIFA no CanadáDarryl Dyck / Zuma Press / Profimedia

Para transmitir a sua mensagem mais importante, Gianni Infantino teve mesmo de interromper os aplausos da comitiva. “Ainda nem acabei”, exclamou o presidente da FIFA aos delegados, antes de ajustar o microfone e, sorridente, revelar um segredo já conhecido: vai recandidatar-se em 2027. No entanto, uma manobra falhada em palco acabou por perturbar a coreografia do dirigente.

O facto de o suíço, frequentemente criticado mas intocável no universo do futebol, ser confirmado no cargo até 2031 é visto como uma mera formalidade. Sem opositores à vista para o Congresso de Rabat (Marrocos) em 2027, o apoio em África, Ásia e América do Sul é total. Apenas os europeus mantêm, para já, alguma reserva.

Infantino desenhou um discurso de campanha focado no sucesso financeiro da sua década de liderança. A mensagem foi clara: dinheiro e prosperidade para as federações. No entanto, a “ação de relações públicas israelo-palestiniana” fracassada, como lhe chamou o The Athletic, deixou uma mancha na encenação.

Tentativa de pacificador saiu furada

Em Vancouver, Infantino tentou orquestrar um aperto de mão ou uma fotografia entre os representantes das federações de Israel e da Palestina. Contudo, perante a recusa expressiva de Jibril Rajoub, líder da federação palestiniana, o presidente da FIFA ficou desamparado em palco. A organização Fair Square acusou o dirigente de tentar usar o conflito como cenário para se apresentar como um “estadista e pacificador”.

O objetivo de Infantino era afastar temas delicados que pudessem ensombrar o Mundial-2026, avaliado em milhares de milhões. Garantiu que o Irão jogaria “naturalmente” nos Estados Unidos, apesar da ausência no Congresso. “Se o Gianni diz, então está tudo bem”, comentou o seu aliado Donald Trump.

"Cultura de medo" e oposição isolada

Infantino ignorou as críticas aos preços exorbitantes dos bilhetes e os apelos da Human Rights Watch, que alerta para um Mundial marcado pela “exclusão e medo”. Em contrapartida, o dirigente prometeu "104 Super Bowls" num só torneio. Para o suíço de 56 anos, a FIFA é hoje uma organização “respeitada e digna de confiança”, estando na “melhor forma de sempre”.

A oposição é quase inexistente. Lise Klaveness, presidente da federação norueguesa e voz crítica solitária, fala numa “cultura de medo”. Segundo a dirigente, quem não alinhar com a liderança arrisca-se a ser penalizado na atribuição de torneios ou em apoios políticos.

Infantino só pode recandidatar-se porque o Conselho da FIFA decidiu, há quatro anos, não contabilizar o seu primeiro mandato (2016-2019) como completo. Uma reeleição a 18 de março de 2027 seria, teoricamente, a sua última — pelo menos à luz das regras atuais.