Mundial-2026: México a braços com manifestações e obras em atraso no arranque do campeonato

As imediações do Estádio Azteca
As imediações do Estádio AztecaReuters

A um dia do arranque do Mundial na Cidade do México as obras de requalificação para melhorar a mobilidade estão por concluir e a cidade está a braços com manifestações de oposição ao Governo.

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Campeonato do Mundo de Futebol arranca na quinta-feira, 11 de junho, na Cidade do México, com um encontro entre as seleções nacionais mexicana e sul-africana. O anúncio de que o país iria coorganizar o maior evento de futebol com os Estados Unidos da América (EUA) e o Canadá foi feito há oito anos, durante o 68.º Congresso da FIFA, em Moscovo.

No entanto, as obras para requalificar o Estádio da Cidade do México (anteriormente conhecido como Estádio Azteca) só começaram em 2024 e a requalificação do recinto – não das instalações nas imediações – só ficou concluída em março deste ano. A inauguração foi feita com um encontro entre a seleção do México e a das quinas, no dia 28 de março.

Mas para acolher as centenas de milhares de adeptos numa das maiores metrópoles do planeta – na área metropolitana da Cidade do México vivem mais de 21 milhões de pessoas e mais de 30 milhões de pessoas transitam todos os dias pela cidade – seria necessário requalificar a rede de transportes urbanos, desentupir as principais artérias da cidade e também reabilitar espaços para fomentar o turismo na cidade.

Para este efeito, o governo estatal da Cidade do México destinou 30 milhões de pesos (quase um milhão e meio de euros) em mais de 2.000 obras de requalificação, entre elas a remodelação do Aeroporto Internacional da Cidade do México, a construção da Calçada Flutuante de Tlalpan (uma área verde para ciclistas e transeuntes no sul da cidade que atravessa uma das avenidas com maior fluxo de automóveis), a remodelação de 20 estações do metropolitano e de grande parte da rede de autocarros e comboio suburbano.

Animações nas imediações do Azteca
Animações nas imediações do AztecaReuters

Em 29 de maio, a governadora da Cidade do México, Clara Brugada, disse que “o Mundial se vai, mas as obras ficam”, durante uma conferência de imprensa para apresentar uma plataforma para a transparência, que permite a qualquer cidadão acompanhar o progresso das empreitadas de requalificação: “Não destinámos um único peso a obras que desaparecerão depois do Mundial.”

No entanto, a Lusa constatou, percorrendo várias linhas do metropolitano e em particular as principais estações remodeladas, que a dois dias do apito inicial muitas são as obras ainda por concluir.

Na terça-feira, 9 de maio, na estação do metro Hidalgo, que liga duas das principais linhas da cidade (02 e 03), ainda havia pedaços de mármore destinados ao pavimento da estação e às paredes que estavam por ser colocados, a limpeza do pavimento ainda não tinha começado e nem os novos torniquetes estavam operacionais.

O pó cobre a estação subterrânea, a maquinaria pesada utilizada para as obras confunde-se com os milhares de pessoas que continuam a transitar pela estação, a sinalética com as indicações dos sentidos, saídas ainda não foi reposta, os negócios locais, incluindo os habituais “puestos” para comprar água, refrigerantes e alimentos, continuam encerrados.

O cenário repete-se em várias estações de metro, nomeadamente na do Zócalo/Tenochtitlán, no coração da cidade e que dá acesso à principal praça do centro histórico e onde está instalado o maior ecrã gigante do país, ou na estação Universidade, a última antes do Estádio da Cidade do México que receberá o jogo inaugural do campeonato.

A Lusa ouviu de vários passageiros queixas em relação à facilidade de transitar pelas estações, tempos de espera cada vez maiores e que por causa das obras o acesso às plataformas tinha sido dificultado, já que a maioria das escadas estão intransitáveis e alguns elevadores (destinados exclusivamente a pessoas da terceira idade ou com alguma dificuldade de mobilidade) não funcionam.

Além disso, a Lusa constatou que as inundações nas estações do metropolitano, acontecimento frequente, aumentaram e várias estações inundaram a dois dias do arranque do Mundial.

Na semana em que a bola regressa às quatro linhas, o México está a ser atingido por um ciclone que ameaça a provocar tempestades tropicais na costa mexicana banhada pelo Pacífico. Os acessos interiores do Estádio da Cidade do México inundaram, de acordo com vídeos partilhados nas redes sociais por trabalhadores e pessoas que vivem nas imediações do recinto.

Se os atrasos nas obras de reabilitação e a meteorologia se apresentam como um problema para o arranque do Mundial, as manifestações previstas para quinta-feira, com o intuito de impedir a realização do primeiro encontro adensam a preocupação das autoridades.

Nas últimas semanas, a Coordenadora Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) convocou várias manifestações que têm 'entupido' a Cidade do México. O centro histórico chegou a estar encerrado ao público por causa das manifestações que reuniram centenas de milhares de professores e que têm vindo a crescer em número e violência.

Os manifestantes reivindicam a revogação da reforma educativa de 2007 que alterou o regime de pensões para trabalhadores da educação. Na terça-feira, bloquearam a Calçada de Tlapan e impediram milhares de pessoas de transitar pela cidade, vandalizaram comércios e edifícios, e bloquearam o acesso às instalações das duas principais cadeias de televisão nacionais.

No início da semana também foram apreendidos 59 engenhos explosivos caseiros, que as autoridades acreditam que iam ser utilizados no dia inaugural do Mundial de futebol.

A este protesto junta-se na quinta-feira uma manifestação das pessoas que exigem ao Estado ações para localizar os cidadãos desaparecidos (há mais de 132 mil pessoas desaparecidas), os trabalhadores do setor dos transportes de mercadorias, os pensionistas da petrolífera estatal e dos trabalhadores de saúde.